11 novembro 2006

O metatexto da história: Kolberg (1944)



Kolberg (1944), de Veit Harlan
Maria (a juventude) é chamada à presença da rainha da Prússia ("à nossa coroa restam muito poucas jóias")para receber a incumbência de salvar Kolberg (a Alemanha). "O mais importante de tudo é renascer da dor", diz-lhe o pai.

10 novembro 2006

Não há escolha religiosa: os desgraçados de Alcácer Quibir


Caravaggio. Conversão de S. Pedro




Aquilo foi um desastre irreparável. A nata da nobreza e a nata da juventude portuguesa tragadas numa aventura sem um pingo de interesse para o objectivo nacional permanente (a independência portuguesa), ao arrepio da estratégia nacional (evitar o hinterland africano, dominar as rotas marítimas, não envolvimento em guerras estranhas ao interesse português) e um pontapé nos mais básicos princípios da arte da guerra. Alcácer Quibir matou-nos, talvez não tanto por incapacidade de D. Sebastião - a quem o emissário papal chamava un vero pazzo - mas pela total incapacidade da elite portuguesa em evitar tal tragédia.




Encontrei no Cancioneiro chamado de D. Maria Henriques*, de D. Francisco da Costa (1533-1591), um auto revelador desse tempo de chumbo e sofrimento que foi o fim da dinastia de Aviz. D. Francisco da Costa era um diplomata, tendo ido a Marrocos negociar a libertação dos 8000 prisioneiros que ali penavam pelos erros dos seus [nossos] governantes. Se, como diz o povo com razão, "quem se trama é sempre o mexilhão", aqueles milhares de homens sem eira nem beira, que não tinham meios para o resgate, nem nome de família, nem brasão de armas, ali ficaram a apodrecer enquanto em Lisboa se preparava a nobreza para abrir as portas a Filipe de Habsburgo.




D. Francisco da Costa ali esteve, lutando com denodo pela libertação desses simples soldados, mas acabou, também ele, esquecido por Lisboa. Pensando tratar-se de um mentiroso, os mouros lançaram-no para os calabouços, aí tendo morrido após dez anos de cativeiro. Ora, mesmo no inferno das prisões, Francisco da Costa manteve o seu orgulho português e tentou, por todas as formas que o seu engenho permitia, manter vivo entre os seus colegas de infortúnio a esperança na libertação e a fortaleza de espírito. Algo de inaudito, porém, aconteceu. Um número impressionante de cativos - supostamente cristãos-novos - voltou às suas práticas ancestrais, abjurando o cristianismo e professando a lei mosaica. Outros, deixaram-se atrair pela pregação islâmica e aceitaram a lei de Mafoma. Para os admoestar, compôs Costa um auto elencando os erros dessas religiões, para tal mobilizando a excelente preparação teológica que possuia. É a luta de um homem forte contra as vacilações, as dúvidas e fraquezas daqueles que o cercam.




Este vão combate permite-nos algumas conclusões superficiais: os homens buscam a felicidade e a segurança, são permeáveis a tudo o que acontece à sua voltam, têm uma necessidade imperiosa de se afeiçoarem ao meio dominante. Se aos cativos lhes faltou o cristianismo, encontraram Deus no Judaísmo e no Islamismo. Outra conclusão é a de que a religião - ou não religião - é ditada por factores ambientais. Se nascidos em Cartago, renderíamos culto a Baal; se nascidos em Atenas, a Zeus e Apolo. Montesquieu disse-o perante o espanto e ira do seu tempo, ao aceitar o peso do determinismo geográfico na fixação das religiões. Pergunto-me se muitos católicos fervorosos, se nascidos no Afeganistão, no Irão ou no Paquistão, não seriam, eles também, candidatos a mártires de Alá.


COSTA, Francisco. Cancioneiro chamado de Dona Maria Henrique. Lisboa : Ag. Geral do Ultramar, 1956

Dos militantes da religião


Dei comigo a pensar por que razão serão as pessoas mais frementes de sobrenatural aquelas cuja atitude revela maior desrespeito pelos outros. Disse-o aqui há tempos e repito-o: no curso da minha vida tenho encontrado os maiores facínoras, os mais refinados hipócritas, os mais elaborados sociopatas, as mais azedas e frustradas criaturas e os mais empedernidos quadrilheiros entre os doentes da santidade. A religião é, para tal gente, uma excelente tisana, uma tela impermeável que lhes garante irresponsabilidade psicológica pela repetida prática da crueldade.

De olhos revirados em ascese, maozinhas esfregando-se em delicadezas seráficas, uma voz de falsete, lá vão debitando sentenças. Alguma - corrijo, muita - da nossa direita faz o retrato perfeito destes santarrões. Houve um tempo em que esteve na moda a "democracia cristã", o tempo imediatamnente posterior ao dos cursilhos de cristandade, também esteio de favores e algum alpinismo social. Os democratas-cristãos, veio-se a ver, alimentaram o maior lodaçal de favoritismo, corrupção, venalidade e mafiosismo de que há registo na história europeia do pós-guerra. Vi ontem I Banchieri di Dio - Il Caso Calvi , de Giuseppe Ferrara, e lembrei-me de figuras, figurinhas e figurões que fui conhecendo naquelas anos remotos em que ainda acreditava serem as palavras o espelho da alma.

09 novembro 2006

Os teóricos e a cegueira




Detesto a expressão "batalha de ideias". Soa-me a prostituição da inteligência, reduzida a instrumento de sentimentos e convicções, reedição da velha escravatura que por séculos e séculos acorrentou o pensamento à pistis. Hoje, à volta da mesa, com meia dúzia de amigos senti a verdadeira impotência epistemológica ao tentar, com os parcos recursos que possuo, fazer uso da argumentação racional perante simpáticos convivas entrincheirados em convicções inabaláveis. A verdade é que as pessoas preferem o credo à inteligência desamparada e livre, têm um medo quase primitivo do vazio, da negação e do questionamento, pelo que aquilo a que chamamos debate se circunscreve, as mais das vezes, a uma polida e inconsequente parada de citações, um duelo sem fim onde o ego de cada um só sai machucado se falhar no trivial pursuit da erudição que se tem a mais ou a menos.


Um dos grandes problemas portugueses é este: o da extrema dependência da verbosidade e a servidão à teoria. É o país da teoria. Falam, falam, falam, citam a, b e c, perdem-se em aparato erudito mas, chegado o momento da aplicação, não sabem para que serve a teoria. As pessoas gostam desta inutilidade do pensamento, pois permite-lhes viver sem sobressaltos, sem contradição e sem angústia. Pronto, basta-lhes fazer a proclamação das grandes causas, dos grandes valores e dos grandes mitos sacrossantos para se aquietarem. Não importa se tudo o são como carácter é o absoluto contrário do rigor da teoria que professam. Isso nada importa. Rezar bem o Pai Nosso, o Avé Maria, conhecer uma tirada de Marx ou de Hegel, pedir de empréstimo uma pérola a Novalis, outra a Baudelaire, saber em que pinacoteca se encontra a Rendição de Breda, as Meninas ou o Grito. Decerto que estas discussões terão mais interesse digestivo que justas e torneios sobre as pernas peludas do futebol, sobre as miss mundo ou sobre a excelência do 12 cilindros acabado de sair, mas pouco contribuem para o que quer que seja.


Registo oposto. Ouvi as declarações de Rumsfeld, no acto de resignação. O velho falcão discorre com rigor de bisturi, conhecimento e chocante coerência. Tudo aquilo é necessário, sem uma palavra a mais ou a menos, num exercício de inteligência pura. Faço o zaping e dou com a discussão do OGE, na Assembleia desta República. Uma confusão verbosa, carregada de cheques carecas de duvidosa erudição, fés e fezadas, convicções e convicções[zinhas], mãos no peito, senteciários saloios, citação dos mestres. É assim. É o tributo que continuamos a pagar ao "espírito francês", que se perde e erra por amor à forma e ao efeito, à sonoridade e à impressão. A inteligência ? O rigor ? Isso são meros acrescentos !

08 novembro 2006

Gungunhana Jardim

"Os portugueses estão fartos de pagar África", Alberto João Jardim
Apetece-me dizer: "os portugueses estão fartos das histrionices e facécias do sr. Jardim". Uma vez tem piada, trinta anos não tem piada nenhuma. Chega.

Saddam não devia ser imolado




Creio ter sido William James o autor da conhecida expressão "a história é uma chuva de sangue". Esta chuva de sangue é, por vezes, perturbada por monções, tempestades, ciclones e vendavais. Nestes casos, o rio de sangue transborda do seu leito e a história transforma-se em inundação de sangue. Minorando o excessivo peso que os românticos atribuíam aos indivíduos singulares no curso dos acontecimentos - mas não esquecendo que sem Alexandre, César e Napoleão muito do que aconteceu não teria acontecido: a destruição de Persépolis, a passagem do Rubicão e Waterloo - impõe-se-nos uma breve reflexão sobre o destino das comunidades e sobre a responsabilidade colectiva.


Se há uma psicologia colectiva, essa transporta marcas identitárias que percorrem transversalmente todos os indivíduos pertencentes a uma sociedade, as quais, inibidoras e propiciadoras de actos, decorrem das características incutidas pela educação, pela visão do mundo e pelas instituições onde decorre a vida dos homens singulares. Daí que não haja uma "boa Alemanha e uma má Alemanha", uma "boa América e uma má América"; tão só, um estilo alemão, um estilo americano, uma atitude alemã e uma atitude americana.


A percepção da inteligência colectiva é tão evidente que lidamos quotidianamente com expressões que remetem para esta dimensão transpessoal da responsabilidade: responsabilidade colectiva, responsabilidade governamental, responsabilidade profissional, responsabilidade social, mas também outras que remetem para a punição colectiva por actos considerados expressão de maus actos praticados ou autorizados por uma colectividade (represália, êxodo, reeducação, desmilitarização, ocupação, etc). No fundo, o Direito Internacional nasceu do convencimento que os actores internacionais funcionam como ampliação de um conjunto de características infusas nos indivíduos singulares, pelo que a sua transgressão constitui uma ofensa a todos os restantes actores, sejam singulares, sejam colectivos.


A punição colectiva, porém, só é operativa em situações extremas. Quando o infractor perde todo o poder para a evitar a punição, colocando-se nas mãos que o julgarão, a justiça aplica-se. Infelizmente, a justiça do vencedor raramente coincide com a isenção do juíz. Nessas circunstâncias, os derrotados, ao invés de julgamento, são achincalhados, brutalizados, privados de direitos de defesa e, até, diabolizados. Não há justiça quando um arguido chega à barra sem outra aspiração que a de evitar o baraço. Não há justiça quando a lei é feita à medida das culpas que se imputam a um arguido. Não há justiça quando o sentimento de vingança que antrecede o julgamento se mantém nas leis e procedimentos que amparam e acompanham o processo.


Por último, se há sempre a expectativa do arrependimento do arguido, não deixa de ser patético o esforço da justiça em condenar às penas mais severas os arguidos que se arrependem. Ora, do arrependimento colectivo (ou a culpabilização colectiva) não decorre a absolvição de todos os actos individuais nem o enforcamento de toda uma comunidade. O que acontece, as mais das vezes, é a translação psicológica da culpa, a busca de um responsável - ou vários responsáveis - para ilibar a comunidade de conivência com actos que decorrem de práticas autorizadas por todos. Como não sou adepto da pena capital, penso que processos judiciários que terminam com o fuzilamento ou enforcamento de criminosos responsáveis por crimes [que foram possíveis graças ao conluio de muitos] só permite a persistência da patologia que esteve na sua génese.


No julgamento de Saddam está lá um pouco de tudo isto. Saddam só cometeu crimes inscritos por mandato do meio que o produziu. Os iraquianos continuarão violentos, impiedosos, selvagens e desrespeitadores com o passamento de Saddam. O caminho mais difícil, o da educação para o respeito, para a paz e para a liberdade, esse implica gerações. Matar Saddam nada acrescenta ou retira aos iraquianos: da sua cultura de tiros para o ar, da tortura, dos maus tratos e do espezinhamento da dignidade das pessoas. Aliás, pelo que nos tem sido dado ver, Saddam deve ser um gentleman quando comparado com aquela fábrica de homicidas, facínoras e bandidos que é a sociedade iraquiana. O Iraque não precisa de vingança. Precisa de liberdade e educação.

07 novembro 2006

Chic

O Corta-Fitas está verdadeiramente....chic !!!!!!!

Outros heróis



Um dos meus heróis: Mustafa Kemal Atatürk

05 novembro 2006

República dos Desalinhados

Um excelente blogue, que leio com crescente interesse. Passa para a coluna das recomendações.