27 outubro 2006

Os internacionalistas do nacionalismo

"Isto é, o que de mais autêntico há nos portugueses de radicular procura sempre foi estrangeirado e cosmopolita, num autêntico nacionalismo anti-nacionalista, porque abrasado pela procura do "abraço armilar". Daí que deteste os pretensos nacionalismos que não passam de "tradução em calão" de nacionalismos exógenos, preferindo o processo de "nacionalização das tendências importadas".

26 outubro 2006

Arrogância, ordinarice e despeito de Reis Torgal


Prefiro uma hora de bisca lambida aos serões televisivos, pelo que raramente perco uma molécula do meu tempo em frente do devastador "caixote que mudou o mundo". Ontem chovia, não me apetecia ler, nem falar ao telefone, nem fazer as contas do negócio. Abri e assisti àquele debate sobre o homem em quem ninguém pode votar.


De súbito, bota discurso uma criatura hirsuta, mãos de cavador, casaco surrado e olhar esquivo, de quem tenho na segunda camada da estante uma cronologiazeca, uma deplorável História da História em Portugal e um confrangedor António José de Almeida e a República. Dizem ser um dos papas dessa provinciana, ultra-reaccionária, imobilista e ritualista academia estabelecida em Coimbra desde o século XIII. Universidade atavicamente desprezada pelos congéneres europeus - até ao século XV os seus alunos eram objecto de irrisão por não dominarem sequer o latim ! - cheia de uma auto-estima que não resiste à mais leve acareação, foi, quanto muito, uma boa prisão de almas e espíritos até aos tempos de Quental e da greve académica de 1907. Essa universidade produziu, que eu saiba, apenas uma meia dúzia de grandes homens de cultura de estatura e reconhecimento europeus. O primeiro terá sido António Homem, discípulo de Francisco Suárez. Foi repelido pelos seus pares - ciosos e despeitados - tendo acabado em churrasco no Paço da Ribeira. É tudo o que Coimbra deu! Das outras excepções, lembro um Paulo Quintela - que fora leitor na Alemanha - e Joaquim de Carvalho, que nas cartas a Luís Cardim e Rodrigues Lapa se queixava da miséria mental que grassava por Coimbra.


O "Doutor" Torgal - assim quis que o tratassem - mostrou-se indigno da primeira à última intervenção. Roncante, impreciso ao um extremo de quase impressionismo mental, incapaz de elaborar um discurso, mas sempre ufano dos seus títulos, lá foi tentando chamar a atenção para a impressionte colecção de troféus que diz possuir. Perdia-se nas palavras, voltando sempre a si, a si e a si, à "ciência", à "cultura", ao saber das "elites". Saía-lhe pela narinas ofegantes a escolástica tardo-marxista, os tiques, os ódios e afectações que fazem de tal gente uma raça ante-diluviana que teima em se manter. Nisso foi apoiado por uma tal Joana, símbolo da ignorância atrevida e trepadorista; em suma, da estpidez inteligente


A figura Torgal atingiu o clímax da grosseria ao apontar baterias sobre José Hermano Saraiva, procurando desprezá-lo e reduzi-lo a um "contador de estórias". Sim, ele, criatura Torgal, é um cientista, um intelectual, um homem de cultura. O "outro", um mero entertainer.


Quem valeu para todo esse ajuntamento foi o velho e sempre distinto Professor Saraiva, esse sim, de utilidade pública reconhecida, com 60 anos de serviço ao Estado, a Portugal e aos portugueses. Disse, com aquela tocante simplicidade que há muito conquistou o coração do todos os portugueses - ele é o único educador popular que dá ao povo chão algo mais que vinho e futebol - que Salazar teve sombras e luzes, foi um ditador mas um servidor do Estado, que fez obra e que acreditou, no quadro em que viveu, dar expressão a anseios nacionais. Foi, nessa noite de chuva e demagogia, a única voz ponderada, sensata e didáctica.


Os homens são assim. Há-os senhores, há-os canalhas. Saraiva foi o senhor.

25 outubro 2006

Lembrando o levantamento nacional anti-comunista de 1956




Henrique Barrilaro Ruas: mostra na Biblioteca Nacional

Inaugura-se depois de amanhã na Biblioteca Nacional de Portugal a mostra documental Henrique Barrilaro Ruas: camonista monárquico na república, que em boa hora vem assinalar a entrada do precioso espólio do professor, investigador, político e doutrinador que marcou, com a discreta elegância que se lhe reconhecia, mais de meio século da vida cultural nacional. Com honras de um precioso catálogo da autoria de Maria Teresa Mónica - 106 páginas de abundante informação sobre as polifacetadas inclinações de Barrilaro Ruas: actividade religiosa e política, actividade camoniana, actividade cultural - esta será, quiçá, a primeira iniciativa institucional destinada a divulgar entre estudiosos e público comum uma obra, um homem e um pensamento infelizmente pouco conhecidos.
É-me grato evocar Henrique Ruas. Conheci-o em circunstâncias menos propícias para o estabelecimento de pontes, pois estávamos em facções políticas diferentes. Contudo, nunca deixou de comigo falar nos termos mais humanos, sempre afável, sorridente e sem sombra de rancor, qualidades, aliás, que marcaram todos quantos com ele tiveram a honra de trabalhar. Era um homem de porte simples, educado, dialogante e aberto à argumentação adversa. Foi, entre os monárquicos, um agente de acalmação e de bom-senso e só lamento agora que então, jovem cheio de certezas, não o tivesse compreendido quando devia.
Ruas não era um daqueles integralistas cheios de teias de aranha que nunca leram para além de Sardinha e Pequito. Era um sólido defensor daquela Lusitana Antiga Liberdade que as modas do libertadeirismo oitocentista e do nacionalismo pateta e estatolátrico do século XX quiseram enterrar na memória dos portugueses. Deixou frutos, pois a sua atitude aflora aqui, ali e acolá no que de melhor se vai pensando e escrevendo no campo tradicionalista.
Chamo a atenção dos meus caros leitores para este catálogo, pois dele só se imprimiram 500 exemplares. Será, dentro de pouco, uma raridade de bibliófilo, pelo que recomendo vivamente que o encomendem ou adquiram quanto antes. De parabéns estão Henrique Barrilaro Ruas, Maria Teresa Mónica e a Biblioteca Nacional.

Nostalgia da vitória

Daniel Roxo



As livrarias estão literalmente carregadas de títulos sobre a Guerra do Ultramar. Tema equívoco, pois que a Guerra do Ultramar foi, apenas, uma das Guerras do Ultramar que as nossa armas terçaram ao longo de meio milénio em quatro continentes e três oceanos, umas vitoriosas, outras desditosas, outras nem uma coisa nem outra, apenas guerras de resistência obstinada, quase teimosa que só a honra - esse sentimento que toca a dignidade, o bom nome e a procura do reconhecimento e respeito alheios - pode explicar.


No Oriente vencemos, perdemos, mordemos o pó da derrota e respiramos no ar a pólvora dos mais monumentais triunfos, mas nunca fomos humilhados. No Brasil vencemos, sabe-se com quantas dificuldades, batalhas, escaramuças, guerras e guerrilhas. Nas Áfricas, batemo-nos de Ceuta ao Cabo em condições sempre adversas, sofrendo as agruras do inclemente meio, do deserto às selvas e savanas, mas só conhecemos uma verdadeira vergonha - daquelas que deslustram os italianos enquanto povo anti-castrense - nessa aventura patética roçando a caricatura que foi a intervenção portuguesa na Grande Guerra.


Ora, a mais recente Guerra do Ultramar (1961-74), não foi diferente das outras guerras do ultramar. Foi a última, mas vitoriosa. Durante 13 longos anos, em três teatros de operações e cinco frentes, batemos e neutralizamos o terrorismo. O inimigo não atingiu um só dos objectivos que se propusera. A Guerra do Ultramar foi uma gesta do Zé-Soldado, das milícias negras dos territórios, das populações que acolhemos e em nós confiavam. Dessa guerra não há memória dos meninos da burguesia que pelas Franças faziam coro com os instigadores de uma guerra que não merecíamos, pois eramos diferentes e diferentes queríamos ser.


A guerra foi vitoriosa, mas o resultado foi a mais clamorosa derrota da história portuguesa. Abandonámos, envergonhados, cabisbaixos, ridículos, o campo da vitória, oferecendo ao inimigo derrotado o espólio, as bandeiras e baluartes que este não tomara. As legiões regressaram, os legionários esconderam-se durante anos na massa de uma sociedade intoxicada pelas mentiras dos meninos burgueses, entretanto regressados das Franças. Quando as cãs afloraram nesses homens que haviam sacrificado os anos de juventude - o suor do sol castigador, os febrões da malária na Guiné, em Angola e Moçambique, as agruras do cativeiro na Índia e a dolorosa saudade em Timor - começaram a escrever. Memórias, reflexões, contos, peças historiográficas surgiram uma após outra, numa torrente que hoje ocupa parte significativa da memória portuguesa contemporânea. Então, a derrota, a debandada, a irresponsabilidade, a traição cívica, as loas ao inimigo e a cobarde exaltação dos "ventos da História" caíram por terra.


O velho soldado, o José da Silva, o António Pereira, o Domingos, o Hilário, o Luís e todos os Zés, Antónios, Domingos e Hilários deste povo tiraram da caixa de sapatos as fotografias, as velhas boinas puídas, as cartas de amor que haviam recebido, mais as divisas e os crachás e pediram que os honrassem. Sim, eles haviam dado corpo ao juramento da pátria, honrado a sua palavra, sacrificado o seu corpo por todos. Os meninos das Franças, já arredondados pelo poder, calaram-se, envergonhados, como um carteirista que um dia nos roubou no autocarro e é reconhecido, anos depois, numa qualquer estação do Metro.

24 outubro 2006

O fim do Instituto Camões ?

Nisto, estes super-mestres de trabalhos manuais em tempos ao serviço do comemorativismo cavaquista e guterrista, como Simonetta, pedem meças a qualquer um. Aliás, disto está ilibado o Governo porque o rasgo da escolha vem do tempo de Barroso e da cabeça oca da então Ministra Teresa Gouveia, mais obcecada num qualquer ajuste de contas de género com Maria José Stock, através de uma rabiosa non-entity como a Sec. de Estado Manuela Franco, do que com problemas de política cultural. Freitas do Amaral também pode limpar as manitas às paredes das Necessidades, porque, podendo sanear, perpetuou a situação por inércia; e a situação deu naquilo que está à vista. E o que está à vista não é bonito: um Instituto Camões pulverizado, tonto, vesgo e pobre; sem política e sem cabeça.

Minas de ouro sob Lisboa



O subsolo de Lisboa parece-se cada vez mais com as minas do rand. Ali há filões inexauríveis de enormes, redondas e brilhantes pepitas do mais puro ouro. Nas galerias, durante anos a fio, têm trabalhado máquinas e homens 24 horas por dia retirando o metal de Midas. Há a mina do Terreiro do Paço, a mina do Marquês de Pombal e a mina do túnel do Rossio, cada qual mais lucrativa que as outras na multiplicação por cinco, seis e sete dos orçamentos iniciais, bem como dos prazos de conclusão das obras. Ou é obra de criminosos - essa rapina desapiedada a que ninguém consegue colocar freio - ou produto dessa imensa estupidez e amadorismo atrevido que atira os portugueses a cauda da Europa. Qualquer olissipógrafo amador sabe que o Terreiro do Paço foi erigido sobre o entulho retirado das ruínas da Lisboa devastada pelo sismo. Ora, nunca foi possível trabalhar em escombros e lodo. Dizem os sábios: os britânicos e franceses fizeram o túnel da Mancha. Objecto: o túnel da Mancha foi escavado na rocha, não foi escavado em entulho amparado por estacaria. Temos arquitectos e engenheiros, mas saberão algo sobre a história desta cidade ? Talvez saibam, mas quem encomendou tal obra não sabia que era impossível fazer um túnel nessas condições. Aquilo é uma mina e ali estará durante dez, vinte, trinta anos a produzir a riqueza das construtoras até um político dar por encerrado o ciclo do ouro de Lisboa.

23 outubro 2006

Pela Vida, contra a demagogia abortista



"Somos cidadãos livres, independentes e conscientes. Não estamos ao serviço de qualquer partido, credo ou instituição.Temos em comum o desejo, a esperança e o objectivo de que os portugueses rejeitem a proposta do PS no sentido da liberalização total do aborto até às 10 semanas. Consideramos que a defesa da vida constitui não só um imperativo de consciência mas também uma questão civilizacional que pretendemos preservar. A vida humana é um valor em si mesmo. Este será um blogue colectivo, mas em que a opinião de cada um vinculará o próprio e só o próprio. Os comentários, críticos ou não, serão todos bem-vindos, sendo sujeitos, porém, a autorização prévia de quem aqui escreve. A nossa intenção não é a de fazer censura, mas sim a de evitar que a discussão de um tema que é fracturante se torne alvo da ofensa gratuita ou do insulto. Estamos disponíveis para o debate de ideias, recto e esclarecedor, aqui ou noutro local.Para já somos 15, mas até à data do referendo muitos se juntarão a nós, mostrando, ao contrário do que alguns pretendem fazer crer, que somos muito mais e muitos mais que uma minoria radical, conservadora, hipócrita ou retrógrada. Os rótulos só metem medo a quem não tem convicções. Não é o nosso caso. Entendemos esta intervenção pública que decidimos abraçar como um acto de cidadania.


Somos:




Joana Lopes Moreira






Manuel Arriaga

Marta Rebelo


Nuno Pombo

22 outubro 2006

Apologia da dureza

Nós, ocidentais, somos de ferro por fora e manteiga por dentro. As ideias de salvação pelos actos, arrependimento, perdão, magnanimidade e transigência, que são eco duma hierarquização das infracções ao código divino - há pecados mortais e veniais, pecadilhos e fraquezas - predispuseram-nos a condescender com comportamentos contrários às expectativas que julgamos infusas em todos os indivíduos e, como tal, indiferentes à sua cultura, religião, etnicidade, género, idade, condição social e escolarização. Os nossos institutos morais e judiciais estão carregados de esperança na assunção do bom-senso, da virtude e da razoabilidade dos indivíduos, mas por todo o lado verificamos que a estatística da traição, do roubo, da mentira, da duplicidade e da reincidência criminosa não presta tributo a essas crenças piedosas.
A minha experiência das pessoas impele-me para as separar em três grupos: as amorais, que se contêm apenas pelo receio da sanção, as imorais, que se comprazem pelo mal alheio, e ss virtuosas, cuja vida é marcada pela preocupação de não atentar contra a felicidade, a dignidade e a propriedade dos outros. Infelizmente, são bem poucos os virtuosos, esgotando-se a maioria das criaturas na macaqueação do bem. Conheço muitos homens "religiosos" que, se não fossem subjugados pela crença na punição dos homens e de Deus, seriam verdadeiros criminosos, daqueles que nos carreiros assaltavam, torturavam, saquevam e assassinavam os indefesos viandantes.
O conhecimento que tenho reunido ao longo dos anos a respeito do Oriente permite-me algum optimismo. No Oriente, os homens são de manteiga por fora e de ferro por dentro. Para eles, o arrependimento é sempre duvidoso, sendo claro que a reincidência criminosa é quase sempre esperada. Dizia Montesquieu que China era governada com um pau de bambú, mas que a justiça, a paz social e os comportamentos individuais e colectivos eram bastante mais benignos que no Ocidente.
No Oriente, as pessoas são implacáveis. Se erras uma vez, não tens uma segunda oportunidade; se roubas, matas e trais uma vez, a sociedade não te dará nova chance. Esta postura permite um aprimoramento individual e uma aceitação quase universal da imiscibilidade entre os bons e os maus actos. Passei ontem por uma livraria onde estava a decorrer um debate pleno de significado amanteigado: "recuperar", "reinserir", "relativizar" e "compreender" enchiam a sala perante o sorriso aquiescente dos circunstantes. Trabalho forçado para presidiários ? Prisão perpétua ? Indiferenciação de penas para adolescentes e adultos ? Crimes de sangue "passionais" não comparáveis a crimes "premeditados" ? Saí dali convencido que aquela gente estava convencida que cumpre à sociedade e ao Estado colocar à cabeça os "direitos dos criminosos" e esquecer as vítimas. Coisas ocidentais !