20 outubro 2006

Tertúlia literária

No Corta-fitas, 68 pérolas a não perder.

Hipocondríacos

Pablo Picasso. Ciência e caridade (1897)


Há sociedades em que discussões sobre dinheiro e doenças são liminarmente interditas e repelidas como manifestação de grosseria. Muito embora o tema da doença, nódulo maldito da existência, esteja presente na literatura desde os tempos babilónicos - a Bíblia reserva-lhe honras brutais - as suas vítimas preferenciais - os homens comuns - fogem da sua presença, lamentam-na e odeiam-na como uma fatalidade. Nós portugueses, porém, queremo-la, ansiamos pela sua chegada e instalação, quase a veneramos pela dor que nos tortura, pela piedade que desperta nos que nos cercam, pelos efeitos que causa. É um povo de doentes que se compraz com apólogos de hospital, de clínica e de câmara ardente. As disputas sobre quem tem a doença mais dolorosa, o discorrer quase impudente sobre cortes, pus, fístulas, abcessos, soturas e cicatrizes, hemorróidas, cancros da mama e da próstata, carcinomas, depressões, gastrites, enfisemas, glaucomas, micoses e doenças urulógicas ocupam o tempo dos nossos semelhantes. Daí que o estado geral seja propenso a elevar a doença a tema de primeiro plano da política. O primeiro-ministro reservou-lhe honras de discurso no acto de entronização, as televisões ocupam os noticiários com casos hospitalares e os tribunais estão literalmente cheios de pendências em que as doenças imperam. Os portugueses adoram hospitais, farmácias e consultórios, pelo que tocar-lhes nesses templos é crime de lesa-existência.

19 outubro 2006

Deanna Durbin

Jansenista atinge idade bíblica


Dois anos d'esprit, style e Kultur em Port-Royal des Champs. Ali só não entra quem não quer ser confrontado com a descrença, o teatro e as máscaras. O pietismo cristão, ou o que sobra depois do cristianismo posto à prova por Bayle e pelas malfeitorias dos "cristãos ritualistas", é demasiado exigente para os fracos e os retóricos. O Jansenista parece ter sido tocado pela Graça e não tem parado de incomodar, sobretudo os postiços, os velhos descrentes que querem manter a chama de paixões mortas e a toleirice de novas modas dos salões.
Não se sabe quem assina os textos. É um mistério a que nem Pascal nem La Fontaine podem responder. As inquisições das esquerdas e direitas não desarmam. Os esbirros do cardeal pedem confissões e denúncias, os jesuítas arquejam de raiva e os materialistas inquietam-se. Creio que, afinal, o Jansenista não vive na sela de Port-Royal, mas passeia-se com aparente ar de distraído nos gabinetes de ministros.

Cloaquismo crescente, impúdico e injustificado




"(...) A questão do “palavrão” e do correntio uso da obscenidade que afecta a blogosfera, com um efeito que chamaríamos de cloaquismo crescente, impúdico e injustificado. Faz parte da mediocratização das gentes e do abaixamento cultural, manifesto sobretudo na perda da noção do equilíbrio e da subtil utilização da obscenidade na linguagem e na literatura. Consolemo-nos que Espanhóis (terríveis nisso os Espanhóis, geneticamente soezes) e os Italianos estão muito pior do que nós na institucionalização do cultivo e do exibicionismo da grosseria. (...)".


Uma peça notável no Je Maintiendrai

O Insurgente em versão imperial


Acabou o Insurgente de estuque, cal e tijolos. Aquela equipe de patrícios, vencidas as batalhas - e como foram duras - impôs-se na blogosfera como uma referência na luta pelas novas ideias que tantas e obstinadas reacções continuam a suscitar. Era um burgo com ameias, paliçadas, trincheiras e arame farpado, sistematicamente ameaçado pelos bárbaros, vivendo no gume da espada, entre surtidas, raides e escaramuças. Os seus habitantes foram atacados por tudo e por todos os que se recusam acreditar vivermos no limiar de um novo século. Ora, o Insurgente não vive em 1789, nem em 1917, nem em 1933 e 1945, tão pouco se derranca ante as bagatelas de 1968. Anti-estatista, anti-intervencionista, elitista, individualista e liberal, defensor dos direitos naturais dos homens contra os artifícios jurídicos, as falácias da engenharia social, o magma dos valores certinhos, arrumadinhos e obedientes a que os outros continuam a prestar pública fé, tem sido um poderoso veículo de tracção para uma certa direita deslavada, mortiça e esvaziada. Tem sido, também, um ariete perfurante na muralha do comodismo, do capitulacionismo e dos modismos de que se reveste alguma Inteligentzia anti-Ocidental.

Nasceu o Insurgente de granito e mármore, mais sólido e seguro e consciente. A partir de hoje - já quase um jornal diário, já quase um partido de ideias - parte à conquista de novas vitórias.

18 outubro 2006

Outras combustões




Haverá Ministério Público? , no Sexo dos Anjos

O "Totalitarismozinho", no Pasquim da Reacção

A culpa não é deles, no Insurgente

Coprolalia, o fascínio pelo palavrão

O caro Jansenista dispara certeiramente sobre uma pecha característica dos portugueses: a tendência irreprimível para proferir obscenidades. Um povo com jargão de carroceiro, uma juventude paupérrima em recursos vocabulares, que mal sabe escrever e não consegue concatenar um discurso - quem não domina as subtilezas da inteligência de uma língua não consegue pensar - um amontoado de doutorzinhos e doutorazecas incapazes de escrever um simples postal de Natal sem cometer dez atentados ortográficos, morfológicos, semânticos e estilísticos, concentra toda a criatividade no soez coleccionismo do palavrão. Não que outros povos não sejam, também, vítimas desta servidão. Os espanhóis usam o coño com um despudor quase prostibular, os franceses o connard e a pufiasse sem hesitações, os alemães possuem um arsenal de arschloch, waschlappen e schwanzkase urdidos no ambiente das casernas prussianas e os italianos atingem os píncaros da erudição canalha. Mas entre nós a coisa está a assumir proporções inquietantes. Políticos, jornalistas, escritores e escrevinhadores pedem a esmola do aplauso da ralé. Um bom palavrão, debicar em excrementos, alusões metafóricas de chão propósito genital fazem uma plateia. Até aqui na blogosfera, supostamente, um local bem pouco democrático - de fora estão os "info-excluídos" - está a dar-se a fatídica derrapagem para o culto do sórdido. Queixava-se há tempos um amigo, olhando-me com comiseração, por que raio eu nunca proferia uma obscenidade. Não consegui responder. Talvez esteja demasiado fora da atmosfera. Talvez não precise conquistar amigos e cúmplices. Talvez seja um associal. Conjecturas...

17 outubro 2006

Boa Ventura de Xuxa Xantos


A última edição do J-L - aquele jornal que, número sim, número não, exibe a criatura testudinoidis Saramaguensis, quando antes, número sim, número sim, exibia a evolução do estado do rosto de Jorge Amado - traz um saboroso naco de prazer solitário auto-biográfico assinado pelo eminente sociólogo, jurista, académico, cidadão do mundo Boa Ventura Chucha Tantos. Caramba, tanta bolsa, tanta viagem, tanta conferência paga pelo mais sujo capital retirado do suor das mais-valias, tanto prémio, tanta ciência, narcisismo à mistura com auto-flagelação - a eterna rábula do menino genial, filho do cozinheiro e da costureira - e muito camaleonismo não-me-comprometas à mistura. Assim vale a pena ser-se marxista, mas "marxista metodológico", ter andado nas Alemanhas e levar o sabonete, o papel higiénico e o leite aos amigos do paraíso que era a RDA, andar pelos antros do infecto capitalismo americano sem se comprometer com os mecenas, tão pouco com os contestatários, estar sempre de bem com todos os regimes e governanças e ter sempre um lugar, um ordenado, uma bolsa e um protector. Ultimamente, foi atacado pelas bexigas do anti-ocidentalismo, elecando os aeroportos, hotéis e universidades desse vasto mundo que está para além do Ocidente. Curioso, ali só lobrigo expressões da diversidade e triunfo do Ocidente. Sabe bem falar da fome perante um bom cozido à portuguesa !

Subsídio-dependentes: a comuna do Rivoli


O colectivo de "artistas" que levantou barricadas no Rivoli exigiu em comunicado o cumprimento destas três espantosas enormidades: que o Rivoli não será gerido em função da rentabilidade, que todas as companhias terão acesso ao espaço e que a nova gestão pugnará pela formação de públicos.

Ora, desde os velhos tempos de Eurípedes e Aristófanes, da Commedia dell'Arte veneziana, do isabelino Shakespeare aos mestres franceses do Grand Siècle - sem referir os Kabuki e Bunraku do país do Sol Nascente - que os teatros são geridos em função da rentabilidade. Quem diz teatros, diz o cinema, o circo, a dança, a música, o malabarismo e a actividade editorial sem distinção de correntes literárias e géneros. Shakespeare, Voltaire e Marivaux eram grandes dramaturgos e nunca lhes caíram os parentes na lama por se interessarem por honorários devidos à carpintaria, ao guarda-roupa, a cabeleireiros e maquilhadores, nem nunca deixaram de acompanhar o preço do sabão, das tintas, dos tecidos e contas da reparação da telha do tecto e da latrina. O teatro, como qualquer outra expressão artística, não se faz para uma abstração: faz-se para o público. Quando não há receitas de bilheteira, não pode haver teatro. Se são maus actores - um verdadeiro drama nacional, pois neste país o teatro foi coisa que nunca medrou - então procurem outra ocupação. Esta de viverem permanentemente de óbulos da caridade estatal tem um nome: eu chamo-lhe chupismo. Não havendo teatro sem aplauso, não pode haver companhias sem público. Sei que nas últimas décadas se cultivou - muito intelectual, muito bom gosto, muita presunção - a ideia que há peças e fitas que ninguém vê mas cuja qualidade é merecedora do proteccionismo. Dormi horas a fio em fitas de Manuel de Oliveira e queixei-me do incómodo da cadeira !
Revolta-me a arrogância de quem quer cultivar o público. O público é o que é. Há públicos cultos e públicos alvares, públicos em busca de gore e públicos mais rodados nas subtilezas do espírito, pelo que não é uma companhiazeca que vai mudar o [mau] gosto predominante.

16 outubro 2006

Abortadeirismo: monomania escapista


As árvores não dão frutos e as colheitas perderam-se, as nascentes secaram e as florestas arderam, as exportações caíram, aumentaram exponencialmente as falências, deslocalizações, o desemprego e a criminalidade violenta. Se vivessemos na Idade Média, aplacando as jacqueries, vinha uma bula conclamando à salvação das almas, pedindo orações e o combate contra os propagadores da peste. Hoje, sempre que fenece a energia colectiva, desenterra-se a questão do aborto. Há máquinas de preservativos em todas as esquinas !

Cabeçudos: a recusa do Eu


Agarrados a meia dúzia de ideias e conceitos, mais uns quantos títulos e autores - habitualmente não lidos e tomados de empréstimo em vulgatas - e uma centena de pequenos adornos de carpintaria, entre citações, "factos", números e outras aritméticas, aí temos aqueles que pervertem e reduzem o espírito a diorama ideológico. Só há relativamente pouco tempo me dei conta dos efeitos devastadores que a religião civil exerce sobre os indivíduos. A tara ideológica afecta quase todos, dos que nada leram aos que muito leram, dos que têm uma necessidade imperiosa de crer em algo aos que encontraram no bazar das fantasias a farpela que melhor se adapta a tudo o que já pensavam antes da revelação. Há os que se sentem acompanhados aderindo à ideologia hegemónica, repetindo o credo, ostentando a fé pública, salpicando o discurso de rodriguinhos e convicções que melhor cumprem a expectativa aprovadora. Num deserto de ideias, a mera invocação dos "direitos" do Homem, da Liberdade, da Democracia, da Tolerância, das minorias, um aceno à multiculturalidade e ao "género" provoca milagres. Há os outros, os desadaptados, os que frequentam as capelas clandestinas das culturas proibidas. A ideologia vem demonstrar, ao contrário do que se pensava, que a cultura não liberta: a cultura aprisiona. Quer saber a que religião civil pertence um indivíduo? Visite-o em casa, olhe para a estante: se ali só encontrar Wagner, Céline, Pound, Schmitt, Ernst Jünger, Arno Brecker, Riefensthal e Brito, pode ter a certeza que está em casa de um fascista. Se, porém, só tiver Althusser, Marcuse, Benjamin, Fromm, mais Saramago, mais a estafada galeria do neo-realejo, mais baladismo, está numa casa sinistra. Lembro-me, agora com um sorriso envergonhado, da atenção excessiva que a minha geração dedicou ao Vue de Droite, de Alain de Benoist. Folheio esse compêndio de pronto-a-pensar de direita e rio-me: minimalista, abusivo e quase despudorado na preocupação de dar cabimento justificador a todos os temas, da biologia à arquelogia, das belas-artes à literatura. A ideologia é um vício. Sem ela, os fracos de espírito não conseguem respirar, argumentar e existir. As religiões políticas são, pois, a negação da Filosofia e do Eu.


15 outubro 2006

"Tempos interessantes"

Para quem acreditava num mundo apaziguado pelos EUA - era esta a prospectiva que a derrocada do comunismo ditava em inícios da década de 90 - o ataque a Nova Iorque revogou todos os cenários de Fim da História, Paz Perpétua e unipolaridade recentrada no Ocidente, nas suas ideias de progresso, desenvolvimento, democracia e direitos individuais. Passei a tarde numa livraria. As estantes estão carregadas de livros de "espiritualidades", romances históricos ou terrificantes títulos que tresandam a angústia pelo amanhã. Por mais que queiramos fingir que tudo está bem no melhor dos mundos, as nossas leituras reproduzem inconscientemente os nossos medos e privações. Glosando Eric Hobsbawn, vivemos "tempos interessantes", ou seja, complexos. Tenho para mim que outros ainda mais "interessantes" se aproximam, mas não duvido por um minuto que seja que ainda não será desta que o Ocidente perderá, nem outra coisa seria de esperar quando, olhando para aquilo que se nos opõe, verificamos que, afinal, o tempo por que "eles" passam é ainda mais "interessante". O Islão e os seus adeptos assitem, vivendo-o, à morte da sua civilização. Nós, vivemos a mais uma mudança de pele.