12 outubro 2006

Pombal e Salazar




Pacheco Pereira chamou hoje a atenção para um folhetim de Alecrim e Manjerona que vem ocupando - e devorando - a atenção e entranhas do "país" nos últimos dias: uma "votação" nacional em que os "portugueses" escolhem os seus maiores. Futebolistas, fadistas, toureiros, protagonistas, deuteragonistas e tritagonistas da "história", entre guerreiros, guerrilheiros e golpistas, políticos, politiqueiros, actores de alto e baixo coturno, corredores, saltadores e halterofilistas enchem as páginas de um sítio que a RTP preparou com esmero para auscultar o vox populi, essa entidade sagrada de cujos pronunciamentos - sempre inteligentes e informados - dependem os deuses. A razão do vozerio parece ter por origem a não inclusão de Salazar na lista dos imortais - Mourinho é-o, como o são Matateu, Travassos, Alfredo Marceneiro, Fernando Nobre, Joaquim de Almeida, entre outros gigantes - traída por cerrada votação no negregado ditador de Santa Comba. Os portugueses são ridículos, pelo que disso não têm sequer noção, vivendo imersos em querelas microscópicas dignas de Micromégas . A estreiteza de limites da sua vidinha leva-os a impulsos que macaqueiam a energia de outros povos. O "caso Salazar" é paradigmático do desamor que têm por si próprios, da eterna procura de bodes expiatórios que purguem responsabilidades individuais e colectivas, do medo reverencial e servil que têm por tudo o que está no poder e do ódio que têm de manifestar por todos os que caíram do poder e não são caros à situação presente. Se hoje inscrevem Salazar no paredão dos danados, ontem apluadiram-no, pediram um emprego ou um favor a um amigo da União Nacional, enroscaram-se entre as pernas de um membro da Legião, cantaram hossanas ao 28 de Maio, à "Revolução Nacional" e a Salazar e Caetano, lançaram confetis a Américo Tomás, correram excitadíssimos atrás da carripana de um qualquer ministro do ditador. São assim, os portugueses. Salazar está para o século XX e princípio do século XXI como Pombal para os finais do século XVIII e pricípios do século XIX. Importa dizer mal, conspurcar, fazer testemunha das grilhetas do Aljube e do Tarrafal, das lutas e greves em que se inscreveram no livro de ouro da actual situação, como depois de Pombal todos se acotovelaram para fazer prova do ódio que nutriam pelo mulato infame. Ou seja, quando tudo serenar, talvez daqui a 100 anos, pedir-se-á ao taxista: "bom dia, leve-me, por favor à Praça Salazar".

Se fosse ditador durante vinte e quatro horas...

"Se eu pudesse ser ditador da coisa durante vinte e quatro horas, aplicaria o processo um dia sonhado por Guerra Junqueiro para aquilo que era a universidade portuguesa do respectivo tempo: incendiá-la para ver se ela poderia dar à luz uma qualquer luz. Isto é, muito metaforicamente, diria que basta usarmos os meios que temos para outros fins, invertendo o presente sentido das política"s suicidárias que nos encarquilham."

11 outubro 2006

Adriano Moreira: o brilho coloquial


Depois da entrevista a uma notória alpinista social, com os remoques vãos de uma certa esquerda afectada, irritada e irritante, foi a vez de Rui Ramos - do melhor que a Universidade portuguesa tem - entrevistar o Professor Adriano Moreira. Caramba, que diferença entre o Professor e essa turbamulta de ignorantes atrevidos que nos entram casa adentro. Uma lição de realismo, patriotismo, interesse nacional e esperança no futuro. É gratificante ouvir discorrer com tanta simplicidade, segurança e inteligência. Tempos houve em que os senhores governavam.

Coligação Miss Pearls / Combustões

Pois, em tempos de joint ventures, conglomerados e fusões, Miss Pearls, que já assina noutras casas, arrasta-me para uma aventura extra-Combustões.

O Deus maligno


A minha telefonista tem 55 anos, cegou aos 10 e trabalha desde os 15. O marido abandonou-a, deixando-a com dois filhos nos braços. O mais velho transformou-se num criminoso, foi preso e suicidou-se nos calabouços. O mais novo foi tragado pela toxicodependência, roubou a mãe até não lhe deixar uma chávena em casa, chegando a extremos de a ameaçar com um facalhão. A via crucis da desgraçada está a atingir a última estação: foi-lhe diagnosticado um cancro maligno em fase terminal. Onde está Deus ? Ou será que haverá, tal como supunha Mani, uma entidade maligna omnipotente ?

10 outubro 2006

Política cultural, ditadura cultural e políticas da Cultura


Não cabe ao Estado impor, condicionar ou recusar cânones estéticos, oficializar ou banir estilos literários, promover ou proibir conteúdos. No que toca à arte, à literatura, ao cinema, ao teatro e à música, o Estado devia abster-se de qualquer opção, reduzindo a esfera da sua intervenção à salvaguarda, conservação, restauro, preservação, estudo e divulgação do imenso património móvel e imóvel confiado à sua guarda. Mais, não. A "política cultural" está para as democracias como a ditadura cultural para os regimes não-democráticos. A "política cultural" subentende a intromissão do Estado e dos governos na vida cultural, implica escolhas valorativas, dirigismo, paternalismo e muito amiguismo. As democracias dirigistas, populistas e demagógicas herdeiras da tradição revolucionária continental encaram a intromissão do Estado como um direito e não como uma violência. Usar recursos públicos para impor escolhas eivadas de subjectividade, impor linhas de entendimento ideológico a coberto de um suposto revigoramento da consciência cívica, promover uma certa ideia de cultura enquanto apêndice do prestígio do Estado é coisa incompatível com a liberdade dos indivíduos e da sociedade. A França, obstinada cultora do intervencionismo, deu repetidos exemplos desta arrogância "formadora" sob a férula despesista de Jack Lang naquelas famigeradas celebrações do bicentenário da Revolução de 1789, instantâneo de megalomania e abuso de confiança. Não cabe ao Estado estimular criadores, pagar-lhes exposições e catálogos, pagar fitas, partituras e peças que ninguém vê e ouve; não cabe ao Estado ensinar os cidadãos a fazer escolhas "acertadas". Cabe-lhe, quanto muito, atribuir ou patrocinar prémios, subvencionar moderadamente bolsas de estudo e facultar publicidade institucional a actividades que integrem o calendário de actividades desenvolvido pelas instituições culturais dele dependentes. Em suma, cabe ao Estado executar "políticas de cultura", como "políticas de agricultura e pescas", "políticas de ensino", "políticas fiscais", "políticas económicas" e "políticas sociais".

09 outubro 2006

Todos temos um pouco de Casanova

A PROPÓSITO DE PROFESSORES

No TOMAR PARTIDO

Professores: soma e segue

Vassily Perov: O Professor de Desenho

"(...) Compreenda-se e aceite-se portanto o interesse e a emoção que em mim desperta o tema que em boa hora mereceu a atenção de tão altos espíritos como são o Combustões e o Jansenista. Não foi só a importância objectiva do assunto! Essa também se impõe sem necessidade de demonstração, mas os factores subjectivos que enunciei marcharam à frente na aproximação.Na hora que passa, merecem a nossa gratidão o Combustões e o Jansenista só por dirigirem para aí os focos das suas atenções: é preciso falar em linguagem de gente nos problemas que nos tocam a todos, superando tanto o bloqueio do jargão tecnocrático da casta que se apossou dessa coutada como as ligeirezas da leviandade jornalística.Entenda-se assim como manifestação de apoio o repescar de dois escritos que já em tempos publiquei aqui no blogue, e que me parecem vir a propósito. (...)".


08 outubro 2006

Evocar Calvet de Magalhães

"Este post no Combustões foi na “mouche”. Aconselhável a leitura a professores de esquerda e da “não-esquerda antes pelo contrário” (para os de direita não é aconselhável. É recomendável).Suponho que o Calvet de Magalhães a que se refere é o Manuel Maria de Sousa Calvet de Magalhães (não confundir com o embaixador), ex-professor na Francisco Arruda."

Ensino autoritário ou pedagogos infantilizados ?

"Há que rever os programas, os currículos, os métodos e as práticas pedagógicas. Há que concerta-los, de forma eficaz, com as especificidades locais, obedecendo sempre às linhas mestras condutoras do processo de aprendizagem. Há que fazer respeitar os docentes pelos alunos, pelos pais, enfim, pelo país. Mas há também que exigir destes que se façam respeitar e das escolas superiores de educação que os ensinem a ensinar. Certamente não tanto quanto a professora do Miguel Castelo-Branco, já que uma “régua na mão” não impõe mais do que o medo de levar com ela em cima."

Queridos professores e detestados stôres

Olhei há tempos para os velhos cadernos da escola primária e lembrei-me da "senhora professora", Ana Cândida de sua graça, uma mulher que tinha inculcado, dos pés à cabeça, o dever de ensinar a ler, a escrever, a contar, subtrair, dividir e multiplicar. Ensinava de régua na mão, impunha um respeito quase divino - como divinas eram as suas iras e a célebre reprimenda "cantigas de tia Rita cantadas por tia Rosa" - mas era uma segunda mãe. Depois das aulas, recebia-nos em casa para estudar, das 3 às 5, entre o livro de leitura, os reis das quatro dinastias, as estações e apeadeiros da "metrópole", os distritos de Angola, Moçambique e Guiné Portuguesa, com um copo de leite achocolatado e uma fatia de bolo.
Depois, vim para a "metrópole", onde ainda encontrei muitos professores da velha guarda. Em 1974-75 estive na Francisco Arruda, esse modelo de escola de excelência para todos erigida por um pedagogo das melhores águas. Esse homem grande chamava-se Calvet de Magalhães e tinha a má-sorte de ser um "fascista", um "fascista" que ofereceu aos filhos do povo uma escola preparatória dotada de biblioteca, laboratórios, ginásio, teatro, aulas de música e refeitório. Parecia uma Suécia encravada na escalavrada Calçada da Tapada. O "fascista" foi tão massacrado pelos novos tempos saneadores que se matou na cozinha, abrindo a torneira do gás. Em 1975 inscrevi-me no Liceu Rainha D.ª Leonor e, novamente abençoado, encontrei meia dúzia de professores que me marcaram para toda a vida. Nos outros vi já os estigmas do desinteresse, do enfado e da fatalidade que se desenham na cara de qualquer burocrata. Eram os filhos de Veiga Simão, prenhes de agitação revolucionária. Os anos sucederam-se e o choque foi crescendo, até que, cobaia no primeiro 12º ano de escolaridade, fui dar com os pés num campo de concentração chamado "ES da Cidade Universitária", daquelas cubatas pré-construídas, ventosas e gélidas, cercadas de arame farpado, aqui e ali iluminadas por um poste que faria as delícias do Gulag. O meu caminho afastou-me desse universo, até que há seis ou sete anos, a convite de uma amiga docente numa C+S, entrei de novo numa dessas escolas-colmeias. Fiquei siderado com o aspecto dos stôres, derrancados numa sala, refilentos, barulhentos, discutindo o futebolinho da véspera, o cocó do menino, a cólica do marido. Era Abril. Assisti a uma aula de Português: crianças, já de buço, meninas estridentes atirando bilhetinhos, todas frementes de namoricos e feromonas, pouco ligavam à "stôra" que manipulava as "novas tecnologias" de entretenimento como quem mendiga um átomo de atenção. O tema, não podia deixar de ser, era o 25 de Abril. Saí dali com um peso no coração: pelas stôras, pelos meninos de buço e as meninas no zénite do cio, pelo país e pelo futuro. As coisas foram de mal a pior. Hoje, ninguém consegue disfarçar o falhanço clamoroso de todo o embuste. Queimou-se a dignidade do professor, queimou-se a escola, produziram duas gerações de imbecis e fecharam-se os horizontes do país. É isto que querem ?

Uma discussão que promete