23 setembro 2006

Violino magiar

Yehudi Menuhin interpreta Dança Húngara nº 5, de Brahms.

Lição de patriotismo

Conheci e palmilhei as Flores num tempo em que, nem de passagem, era fácil ser Português na Indonésia, e raras vezes senti com tanta intensidade na Ásia o peso da ancestralidade cultural e sanguínea portuguesa: aldeias, gentes, práticas, falas, faces --- o que resta dos lançados, dos náufragos, e, sobretudo, das comunidades inteiras refugiadas na ilha após a queda de Malaca, carregando em barquinhos pelos mares dos Estreitos os seus santos, os seus turíbulos, os seus crucifixos, os seus pendões, as suas espadas e os seus morriões. Ainda os têm na Ilha as Misericórdias, as Confrarias, as famílias, esses Cunhas, Vasconcelos, Dias, Costas, Fernandes, Pereiras, e, sobretudo, o velho Rei de Sikka, D. Aleixo da Silva, ou aqueloutro ancião D. Álvaro Pereira que vi, seco, terso, fidalgo, dirigindo-se em altaneiro português quinhentista, aos mandarins que a Indonésia para lá exporta de Java.

RTP: péssimo serviço público

Durante toda a semana fomos alertados pela RTP 1 para a transmissão de uma série de dois episódios ficcionando os acontecimentos que precipitaram a independência de Timor-Leste, isto é, do período de recenseamento, votação no referendo e ataques das milícias-TNI à população. Foi com alguma expectativa que muitos incautos reservaram algum do seu tempo para assistir ao imaginado documentário. Infelizmente deparámos com uma habitual seriezinha lamechas, bem ao estilo australiano, quer dizer, do pior que se filma no planeta. Aussies, canadianos e americanos - a trilogia fatal, para não dizer "raça superior" - entram-nos pela sala adentro como os grandes heróis. Há de tudo: o bom pai de família que tudo deixa pelo abnegado ideal da ajuda, a menina loura enrubescida por poder aligeirar o mortgage do T0 no subúrbio do Montreal. Ao fim de quatro horas de filme, não chegámos a perceber a fixação da menina em distribuir a granel pins da "cavalaria montada" do Canadá. Mas montada ou não montada, a historieta omitiu o determinante papel que Portugal desempenhou ao longo daquele doloroso processo iniciado no desastroso ano de 1975. Quem não se lembra das horas e horas que Ramos Horta passou sentado à espera que qualquer vice-secretário dos mais ínfimos Estados - muitos dos quais nossos aliados europeus - o recebesse durante dez minutos para lhe comunicar que aguardavam mudanças na boa vontade do senhor Suharto? Quem não se lembra da quase quixotesca campanha do duque de Bragança em prol da liberdade timorense, quando alguns por aqui diziam que "Timor é uma ilha indonésia"? Recordam-se da permanente campanha de Durão Barroso junto de todas as capitais europeias e do departamento de Estado dos EUA? O que fazia a Austrália nessa altura? E a Holanda? E a Inglaterra? E a Nova Zelândia? E os EUA? Todos eles, obcecados pela venda de uma mão cheia de carripanas anti-motim a Jacarta e perseguindo nos lobbies dos hotéis os venais oficiais do regime para obter uma fatia na exploração do petróleo do Mar de Timor. O ministro dos negócios estrangeiros australiano, Sr. Garrett Evans, após retirar a embaixada australiana em Lisboa, celebrou com Ali Alatas o famigerado tratado de partilha dos recursos petrolíferos timorenses, a bordo de um avião! Os eticamente correct gentlemen fizeram juz à carga genética que indelevelmente carregarão até à eternidade; enfim, herdeiros directos de degredados por delito comum.
A RTP1 mais uma vez defraudou as nossas expectativas, insultando os milhões que saíram às ruas para pressionar excelsos embaixadores, não os deixando dormir com o som das buzinas à porta das residências oficiais. Foram os portugueses quem entupiu os faxes da ONU durante dias, numa impressionante manifestação jamais vista neste país, obrigando mesmo os eternos malabaristas de Brasília a tomar uma decisão. Foram dias que uniram o país, numa catarse de todo o lixo que os complexos descolonizadores de pé descalço tinham inculcado durante décadas. A RTP portou-se mal, o que nos leva a questionar a capacidade dos excelentíssimos directores de programação em discernir onde está e onde não está o interesse nacional. Em Camberra não é de certeza!

Nota sobre a Insulíndia

Acabam de ser martirizados três "portuguis". Acossado pela quase unanimidade da opinião pública mundial, o islão contra-ataca, acusando de terrorismo três desgraçados cujo único crime foi resistir à islamização crescente de todo o arquipélago insulíndio. Mais uma vez deparamos com a tão apregoada tolerância islâmica, que é simplesmente desmentida pelos factos. Em Teerão, um cristão que vá ao bazar comprar frutos, deverá fazer-se acompanhar por um "crente", porque se tocar nalguma peça, esta ficará indelevelmente conspurcada pela mão do nadjez - o imundo cristão infiel. Na península arábica, a simples manifestação pública de qualquer credo que não o de Mafoma é considerada como crime, passível da mais severa punição. Sabemos o que isso quer dizer. No ainda semi laico Egipto, os coptas, herdeiros directos daquele antigo Reino das Duas Terras, sofrem cada vez maiores dificuldades e já são abertamente perseguidos pelos imãs. Da Argélia ou do Paquistão nem vale a pena tecer comentários.
Estamos confiantes numa reacção do governo português, ainda que laconicamente diplomática. Aguardemos.

22 setembro 2006

30% de traidores ?



O Sol anuncia que 30% dos portugueses aceitam a ideia da união ibérica. Depois disto, só me resta repetir pela enésima vez: para quando a assunção de elementar patriotismo de todos aqueles que, amando Portugal, permanecem indiferentes à restauração da magistratura de unidade nacional representada pelo Duque de Bragança ? A instituição monárquica é hoje, por todo o mundo, um adereço de respeitabilidade nacional. A republiqueta que pague o iberismo. Queremos ser livres. Tenhamos coragem de pedir a Restauração.

Templos da bibliofilia


Miss Pearls lançou em boa hora um roteiro visual das grandes bibliotecas patrimoniais europeias, com destaque para a Biblioteca de Viena, monumento de exaltação ao livro e, porque não, monumento evocativo dessa brilhante dinastia dos Habsburgos, que tantas glórias entesourou para a memória do Ocidente. Aqui, uma outra jóia barroca: a Biblioteca de Praga.

Haverá alternativa ao capitalismo e à democracia ?




Os predicadores anti-capitalistas - bem como os inimigos da democracia - esgotam volumes de imprecações contra o sistema económico - e contra o regime da soberania popular - mas revela-se-lhes uma mal escondida admiração, uma quase diminuição moral que os leva a aterem-se às derivações negativas de um e outro. As críticas ao capitalismo e à democracia são, sempre, críticas realistas; ou seja, partem da etiologia e sugerem curas e paliativos: curas, adoptando soluções compromissórias que garantam contrabalançar o peso do número/voto pela preservação da mérito, ou do intervencionismo estatal que proteja a sociedade do homem, paliativos, suspendendo a participação dos cidadãos, através de ditadura, ou confiscando o direito de propriedade, transformando o Estado em proprietário. Os paliativos fracassaram, mostrando-se mais nocivos que as causas que haviam forçado a sua legitimidade momentânea. É evidente não haver alternativa ao capitalismo. O paliativo corporativo sonha com um universo social holístico e harmonioso, invoca o valor espiritual do trabalho, uma representação hierarquizada de corpos intermédios auto-regulados. Ou seja, julga o homem reduzido a uma ocupação. As corporações escondiam, afinal, coisas terríveis: exploração de crianças e jovens aprendizes, punições inaceitáveis, uma justiça intra-muros, monopólio, embotamento da concorrência, confiscação do saber. O paliativo colectivista degrada em absoluto o valor espiritual do trabalho e mutila o princípio da retribuição pelo mérito. Politicamente, o paliativo ditatorial suspende a fenomenologia própria do jogo político, acumula as tensões e acaba, sempre, por ocasionar maior balbúrdia que aquela que quis superar.
O capitalismo é benéfico para os homens, para as sociedades e para o planeta. É benéfico para os homens, pois gera mais riqueza distribuída, oferece maiores condições para a ascensão social, maior acesso a bens de consumo, maior possibilidade de escolha e contratação. É benéfico para as sociedades, pois limita o poder do Estado sem dar o poder político aos ricos, numericamente em desvantagem, obrigando-os a negociar ou, mesmo, legislar contra os seus interesses (leis anti-monopólio, anti-trust). É benéfico para o planeta, pois garante oportunidades a todos e distribuição de funções na diversificada teia de necessidades globais. Acresce ser o capitalismo o único sistema económico em relação com a vanguarda científica e tecnológica. A natureza concorrencial, a necessidade de oferecer melhor, em maiores quantidades e melhor preço, acaba por se fundir com as expectativas e atitudes de sociedades livres, onde a cultura e a reflexão sobre o bem-comum pedem melhor qualidade de vida, sinónimo de preocupação ambientalista.
Pergundo aos senhores anti-capitalistas e anti-democratas ? Conhecem o apresentam-me uma alternativa séria ao capitalismo e à "democracia burguesa" ? Se sim, que tenham coragem de o dizer sem recurso a sofismas.

21 setembro 2006

Papa ou caricatura ?


Muitos gostariam de ver o Papa na Love-Parade, advogando causas fracturantes, relativista, de compasso e triângulo sobre o avental da loja, dedo em riste na primeira fila da anti-globalização, ou exaltanto o consumismo, a apatia, os ácidos e a alegre despreocupação. Outros, ainda, quereriam um Papa em constante trato filosófico e teológico com aqueles que da Filosofia a têm como mera ocultação do vazio e da teologia um espesso manto de mentiras bordadas pelas famosas "superestruturas" da alienação. E porque não um Papa sociólogo, um Papa cientista, um Papa astrofísico ?
Ora, o Papa é líder de uma confissão religiosa monoteísta, é o bispo de Roma e o garante de quase dois mil anos de história. O Papa acredita que a única verdade é Deus, sustém que Cristo veio à terra anunciar a boa-nova e a salvação; logo, a origem e o fim da história não se podem dissociar do plano e intervenção divinos. Estar com o Papa é compartilhar desta concepção da verdade, da vida e do mundo. Nunca compreendi, pois, a preocupação quase monomaníaca que leva ateus e agnósticos a seguir com tamanha atenção o chefe da Igreja Católica, dele esperando o impensável e prontamente condenado o evidente. Reduziu-se João Paulo II ao preservativo. Durante anos pensou-se que todo o magistério papal se limitava a uma obstinada e quase cruel cruzada contra o direito à felicidade das pessoas singulares. Agora, que está morto, os seus mais encarniçados inimigos transformam-no num modelo comparativo ao novo Papa. João Paulo II era o "homem do mundo, das grandes causas, do diálogo e da compreensão". Bento XVI, ao invés, é o "homem da fronteira, obstinado, ortodoxo e intolerante": o homem da Congregação da Doutrina e da Fé. Se é um "intelectual", tanto pior: é um cínico. Eu, que não fui tocado pela fé, que não recebo sacramentos nem milito na sua Igreja, respeito-o e nele encontro um dos símbolos do Ocidente. Quer queira, quer não, o Ocidente é produto do cristianismo, e desta civilização cristã nasceram os mais fortes travejamentos das nossas ideias antropológicas, éticas e políticas. Sem o querer, ou sem o saber, somos todos cristãos: nos preconceitos como nas estimadas virtudes, nas instituições como nas atitudes. Sei bem que os inimigos do Ocidente, os tais que fazem causa comum com o Islão, gostariam de fazer um Papa à medida do bestiário, uma caricatura: uma mera ideossincrasia, substituível como um líder político, um chefe de governo ou um empregado. O Papa é o Papa: se é mais ou menos culto, mais ou menos "mediático", simpático ou surumbático, é coisa acessória. Afinal, ele próprio o crê, é um instrumento de Deus.

Euro-Ultramarino

Anunciou que ia fechar. Fechou e só disse adeus. Não vamos aceitar. Peço a todos os meus leitores que visitem o blogue do nosso amigo e lavrem protesto na caixa de mensagens.
A Tailândia sempre ao lado do seu rei

สรรเสริญพระบารมี
Orgulho castrense

River Kwai March by British P.O.W.s

Uma polémica sem sangue

O Corcunda teve a amabilidade de se envolver numa polémica benigna, na qual acabo de baixar o florete pelo convincente adversário. Dá prazer discutir com homens inteligentes.

Ferir susceptibilidades

Texto indispensável, por André Azevedo Alves.

20 setembro 2006

Um país não é um negócio: ainda o golpe na Tailândia

Falei há momentos com um amigo tailandês que lecciona em Banguecoque. É apoiante de Taksin, entusiasta das reformas e da modernização. Contudo, no meio do telefonema, deixou cair: "Taksin é um homem muito inteligente, de grande inciativa e reconhecido mérito como empresário, mas confundiu o governo com os negócios. Um país não é uma empresa. Um país é um sentimento, a fidelidade à sua história, aos seus valores. Taksin quis controlar S.M. o Rei, habituado que está a controlar os homens com quem lida. Desta vez esqueceu-se que o respeito devido ao rei não pode comprar todos os homens. Como tailandês, entre a admiração que tenho por Taksin e o respeito por S. M., escolho o respeito. "
De facto, se a iniciativa deve pertencer aos empreendedores, o dinheiro, os negócios e a boa gestão da coisa pública devem ter, acima do conjuntural, o permanente. O homem tinha razão.

O golpe na Tailândia




Anda por aí tanto disparate na net, nos jornais, rádios e tv's a propósito do golpe de Estado na Tailândia - país que conheço bastante bem - que me ponho a imaginar quantas falsidades, atrevimentos descabelados, amadorismos arrogantes pulularão a propósito de outras questões da agenda internacional. Habitualmente, o português fala de cátedra sobre problemas que desconhece, é pródigo em suposições e teorias ex nihilo e farto nessa arte opinativa pobre a que se chama "análise política". Sem jamais terem saído de Lisboa, temos "especialistas" em questões do Médio Oriente, África, América do Sul e China. Sem conhecimento rudimentar da história, da literatura, da sensibilidade e formas de pensar, jornalistas - a maior praga do mundo moderno - e simples almas que jamais passaram dos roteiros da Lonely Planet exprimem com uma certeza e uma segurança dignas de admiração os mais assertivos julgamentos. Lembro-me sempre do Eça, que atirava com o Bey de Tunes sempre que lhe falavam do Norte de África. Os seus adversários de tertúlia calavam-se, intimidados: sabiam lá o que era um bey, muito menos onde ficava Tunes.
O golpe na Tailândia fora aqui previsto há mais de seis meses. O problema não se prende com o "bushismo" de Taksin, nem com a globalização, nem tão pouco com a questão muçulmana que apenas atinge o extremo sul da Tailândia. É uma velha questão, que remonta ao século XIX. O problema da elite dividida. De um lado, um sector conservador, monárquico à outrance, tendencialmente isolacionista e cioso da manutenção de um status quo cujos caboucos remontam a Rama V e Rama VI. Para muitos tailandeses, a Tailândia pode ser democrática, aristocrática e monárquica: dar o legislativo ao povo, através dos políticos; manter a pirâmide da honra e do respeito confiada às velhas famílias; garantir ao Rei uma função interventiva em situações de emergência. O Rei tailandês é objecto de uma veneração que não conhecemos na Europa desde os tempos de Luís XVI. Tocar no rei, referir-se a ele de forma descortês, é um crime. Mais que chefe do Estado, o rei é a representação do corpo social, a alma do Estado, a fonte da autoridade das instituições políticas e o garante da unidade do país. Não é de estranhar que os golpistas tivessem procurado o conselho do Rei antes de desencadear tão radical iniciativa contra o "partido reformista", aquele que quer uma Tailândia plenamente equiparada às democracias ocidentais. Taksin foi depressa de mais. Desenvolveu um excelente trabalho: modernizou e aliviou o Estado, limpou a polícia de corrupção, desenvolveu implacável luta contra as máfias da droga e do sexo, introduziu reformas na política fiscal, trouxe uns pós de segurança social (ordenado mínimo, pensões de reforma e invalidez, assistência médica gratuita para pobres e deficientes). Mas queria que a Tailândia fosse governada pela classe alta dos negócios, pelos empresários e banqueiros. Ora, os tailandeses tiveram medo que tal democracia se transformasse em plutocracia. Recorreram ao rei. Quando lá estive há dois meses para assistir às gigantescas manifestações que marcaram os 60 anos da coroação do rei, apercebi-me de uma quase suspeição popular em relação a Taksin. Apercebi-me, também, que as pessoas cultas - lá os homens de cultura são fervorosos patriotas - se referiam a Taksin como "o banqueiro". A Tailândia continua a ser uma sociedade em que a "honra" é bem mais importante que a riqueza. Taksin tinha dinheiro, comprava influências e tinha ideias para uma Tailândia capitalista, ocidental, aberta e interventiva no plano internacional. Era uma verdadeira revolução. A Tailândia quer, porém, ser democrática, mas manter a soberania régia; quer respeitar a liberdade religiosa, mas preservar a autoridade moral do clero budista; quer o capitalismo, mas não quer que os negócios colidam com uma vida parlamentar dominada pela aristocracia da "honra". Enfim, a Tailândia continua a ser a maior amiga do Ocidente da região, mas quer continuar a ser o que sempre foi: o único país asiático jamais colonizado.

18 setembro 2006

Os anti-papistas de sotaina


Espanta-me que a malta do Vaticano II ande tão alvoroçada com uma conferência eminentemente académica que Bento XVI proferiu em Ratisbona, fazendo coro comum com a ralé analfabeta e fanática do bazar na tresleitura de um texto medieval. Não se pede às digníssimas prelaturas que primem pela argúcia filológica, pelo rigor metodológico próprio de historiadores probos ou pela interpretação de um curtíssimo segmento de uma aula proferida pelo Doutor Ratzinger. Habituados ao reducionismo, às banalidades sentimentalóides das bem-aventuranças da prédica dominical, de uma ingenuidade que toca as raias da inconsciência criminosa - bem me lembro das pontes, dos túneis e das fraternidades escusas que estabeleciam com o basismo da teologia "cristã-marxista" - arvoram-se agora em procuradores da sensibilidade do Islão no seio da Igreja Católica. Pouco me afecta o que os senhores padres dizem, mas incomoda-me e ofende-me o que tal demonstração de medo e colaboracionismo exprime no que toca à completa rendição do Ocidente em relação a um mundo que não tolera qualquer reparo, qualquer comparação ou a mais pequena censura. Afinal, Bento XVI tinha razão quando afirmara não haver na União espaço para estados maioritariamente islâmicos ou tributários dessa tradição. Não é a nossa gente, não aceitam a nossa genealogia cultural nem podem conviver com com um longo processo de separação entre a esfera do religioso e a esfera da cidadania. O Islão - o "moderno" como o "antigo", o "laico" como o fundamentalista - não oferece maturidade, maleabilidade e respeitabilidade para aceitar o princípio do contraditório. Se a Europa conheceu um Iluminismo católico (século XVIII), um liberalismo católico (século XIX) e aceitou, no século XX, a soberania popular, o Islão reduz-se ao Islão: nada do que para além dele existe merece ser visto, ponderado, interpretado e discutido. Lembro o desprezo com que Khomeyni respondeu a um jornalista que o foi entrevistar nos arredores de Paris: "não sei nem me interessa saber quem eram Beethoven, Mozart e Hegel". A atitude do Islão é bem pior que a maior intransigência de qualquer apologética católica do século XIX, que ao menos se aproximava, para as combater, de todas as posições tidas como "erradas" ou feridas de heresia. O Islão é absolutamente autista, absolutamente cego e absolutamente surdo. A Igreja católica conseguiu, depois de porfiada agonia, dialogar com a biologia, com a física, com a química, com a astronomia e até com a Filosofia, as belas-artes e as letras. Os Islão não consegue sair do fogo de Deus, que queima (literalmente) os homens e as aventuras do espírito.
Os senhores padres anti-papistas, que tão grande admiração exibem pela "coerência" islâmica, bem poderiam começar por prescindir de todos aqueles adereços de laxismo a que se habituaram, a começar pelo direito de contestar a autoridade que lhes dá emprego.

Tempestade de talentos

Venha o Outono, em força. O dia despontou cheio de novidades blogosféricas, que já se anunciavam desde a semana passada: os confrades Jansenista, Je Maintiendrai, Dragão, Miss Pearls - ainda na ressaca da ambrósia de civilização - o Misantropo, o vigilante Insurgente, o aguerrido Observatório da Jihad, o inteligentíssimo Pasquim da Reacção, o campeador Aliança Nacional e o amigo Pedro estão em grande estilo. E ainda dizem que há falta de génio !

Uma visa de discordâncias

Les fous du roi: da inutilidade dos monárquicos reaccionários


Era eu presidente da Juventude Monárquica de Lisboa (PPM), lá para os idos de 1982, quando decidimos organizar todas as quartas feiras reuniões de planeamento de actividades. Os resultados foram imediatos e para surpresa de muitos ganhámos inúmeras associações de estudantes dos liceus da capital. Pela primeira vez, os monárquicos saíam das pequenas tertúlias saudosistas onde se discutiam temas tão actuais como os pendões de Aljubarrota ou os direitos de primogenitura deste ou daquele apelido. Foi com espanto que deparámos com uma fauna de lunáticos especializados em escudetes e costados, em besantes e linhas colaterais, enfim, criaturas completamente divorciadas da realidade. Estes malucos não recuam perante nada e procedem à inventariação de candidatos, onde pululam Mendonkas e Barretes, Barrikas e afins, coisas sem pés e cabeça, deixando qualquer mortal espantado por ainda não se terem lembrado de arrastar à força para o inexistente trono um Hohenzollern-Sigmarigen ou um Saxe mais desprevenido. Não tenho dúvidas que entretanto terá havido uma grande evolução, com a entrada de pessoas de gabarito e reconhecido interesse e autoridade intelectual, perfeitamente actualizadas e capazes de introduzir no debate político nacional a questão, que estimamos oportuna e urgente, da natureza do regime. No entanto, estas vozes são ainda minoritárias: destaco o Prof. Adelino Maltez, cuja prestação pública tem sido, no mínimo, brilhante, bem como, lembro, um Paulo Teixeira Pinto, um Gonçalo Sampaio e Melo ou um Rui Carp . As chamadas reais associações contentam-se em promover jantaradas e conferências, insistindo em permanecer num círculo vicioso de amigos já convencidos. Pretendem modernizar-se, por fim, aderindo aos novos canais de difusão de ideias. No entanto, se percorrermos alguns sites, que com toda a boa vontade pretendem propagandear a bondade das teses restauracionistas, verificamos terem ficado tolhidos pelo lastro das conversas de café, pela questão da bandeira e do escudo real. Por mim, até teremos que engolir a actual bandeira verde e vermelha se for necessário. Acrescentem-lhe uma coroa. Os monárquicos continuam, como no passado, os maiores aliados de uma república sem republicanos.

17 setembro 2006

Tempo de união

Finalmente, os nossos inimigos mostraram o rosto. A guerra contra o Ocidente surgia aos olhos dos ingénuos como uma luta contra o "sionismo, o capitalismo e o imperialismo". Afinal, Roma e o seu Pontífice também são tidos como inimigos da "paz". Excelente ocasião esta para saber se os euro-islamistas - os amigos do terrorismo - tomam o partido do Ocidente.
Benedictus (Mozart)