16 setembro 2006

NOTA DA REDACÇÃO

Não tendo chegado aqui à redacção qualquer exemplar do Sol, nem do Expresso, nem os brindes com que se fazem "correntes de opinião", não nos pronunciamos sobre o primeiro episódio desta guerra de campanário. Outros mais avisados julgarão das grandezas e misérias do jornalismo que por Portugal se vai fazendo. Sinto a consciência acalmada por haver, no que me conta, poupado um pouco da floresta nacional.

Indignação jacobinóide

Recebi dois mails - obviamente anónimos - insurgindo-se pela expressão "jacobinaria", aqui usada num post musical. Repito-a: jacobinaria, corrente de ódio dissimulada em torrentes de oratória balofa, atitude de quem pretende fazer tábua-rasa de toda a diversidade humana, social, histórica e cultural que, juntas, fazem a riqueza das nações. Acrescento-lhe jacobinóide: pulsão agressiva, que pode atingir em fase extrema o terror virtuoso; ódio a tudo aquilo que o dinheiro e o arrivismo não podem comprar e que o mérito e a honra não podem alcançar. É isto que distingue as monarquias das republiquetas: nas monarquias não se discute o rei, árbitro e símbolo da unidade do povo e do destino da nação; nas republiquetas, os homens comuns, com as suas ambições de grupo, os seus impulsos egoístas, querem ser todos "senhores presidentes".
A única nação poupada à jacobinaria

A permanência da Europa
Matar, calcinar, vingar

Esta criatura é tida por moderado. Ouçam, até fala de Portugal ... Nem o velho pornógrafo Julius Streicher seria tão convincente. O Islão não está, como aqui disse um dia, no século XVII; está no século IX.

Morreu Oriana

Grande, temível, bela, Oriana foi uma força da natureza. Lembro-me do efeito provocado pelas Entrevistas com a História, da frontalidade com que depenava os homens mais temidos do seu tempo, mas lembro, sobretudo, essa quase suicida coragem em declarar guerra ao fundamentalismo e à barbárie. Oriana nunca deixou ninguém indiferente. Vai com Deus, Oriana !

15 setembro 2006

Cartas de Estalinegrado


"Tenho procurado Deus no troar dos canhões, em todas as casas destruídas, em todos os cantos, junto de todos os camaradas, quando estou acocorado nos esconderijos, até O procurei no céu... E Deus não respondeu quando o meu coração gritou por Ele. As casas estavam destruídas, os meus camaradas eram tão corajosos ou tão cobardes como eu, na terra havia fome e assassínios, no céu havia bombas e havia fogo, só não havia Deus."No Dragoscópio.
Contudo, caro Dragão, a Madonna foi a única esperança daqueles pobres soldados empurrados para o inferno, aí emparedados e sacrificados por um estratega demente que levou a Alemanha e a nata da juventude europeia para o abismo. A fé-menina, a única que ainda me infunde respeito, sem dogmas, sem teólogos e malabaristas que juntam pistis e razão, faz parte da natureza do homem. É a mesma que faz um moribundo agarrar-se à esperança de se salvar, uma mãe pedir pela vida do filho, um povo pedir a sobrevivência quando lhe entra pela terra uma horda de criminosos. Como já só sou deísta e Dele só consigo encontrar traço em fragmentos de verdadeira grandeza, não me posso pronunciar. Lembro, contudo, se Deus estava a dormir, outros fizeram por ele o milagre de manter a decência no meio dessa devastação lunar: os médicos, os enfermeiros, os pilotos que noite e dia carregaram feridos, os capelães que davam o último conforto aos agonizantes. Talvez esse Deus fosse o último que me resta: o Deus da decência.

90 anos: a vida é bela



A minha avó faz hoje 90 anos. Nasceu quando nos tronos europeus se sentavam ainda Francisco José, Guilherme II, Afonso XIII, Fernando de Saxe-Coburgo e Nicolau II. Recebeu, em homenagem a um heróico povo escravizado, a graça de Irlanda. Pois, como a Irlanda, Irlanda teve os seus dramas. Nasceu e cresceu numa África que já não existe. Aos 60 anos abandonou essa terra que era sua e teve de refazer a vida, tijolo a tijolo. Não somos gente de queixumes e pieguices. Olhamos para ela e vemos uma mulher de grande beleza, grande força e tenacidade. Quando olho para Irlanda esqueço-me da maldade que habita a nossa espécie.

Mais deputados, não !


A segunda figura da hierarquia do Estado concede hoje uma interessante entrevista ao DN, na qual aborda temas de relevante importância para o funcionameto da Assembleia da República, cuja designação detesto, pois devia ser Assembleia Nacional na tradição dos parlamentos liberais de Oitocentos. Jaime Gama será, decerto - como homem culto e inteligente - das poucas figuras de cúpula do regime com plena autonomia intelectual para poder avaliar o estado de descrédito da classe política e dos partidos, pelo que me espantou o tom quase mortiço das opiniões ali plasmadas. O problema do regime representativo é mais o da falta de classe da classe política que do maior ou menor número de assalariados públicos ali sentados. O regime - todo o regime, da esquerda à direita com representantes parlamentares - precisa rever o critério de constituição das listas. A maioria dos deputados que ali vencem não retira nem acrescenta nada aos cadeirões: gente nula, quase iletrada, de um seguidismo e de uma "disciplina partidária" que envergonharia o Pai Tomás, especialistas em generalidades e culatras, são alvo da irrisão e do escárnio da maioria dos portugueses. Vivem numa rodoma, estocadas e desafios de insignificante wrestling que nada dizem aos cidadãos. É por essa e por outras razões que, cada vez mais, nos sentimos apenas cidadãos no dia das eleições e súbditos durante os quatro anos da legislatura. A vida das democracias depende da qualidade dos cidadãos, mas depende, e de que maneira, do desembaraço, da qualidade e preparação dos senhores deputados. A substituição das listas por círculos uninominais poderia, até, estragar o ambiente, sabendo quão atreitos são os nossos lúcidos concidadãos em elevar aos pedestais gente inclassificável saída directamente dos estúdios televisivos, dos estádios, das arenas e das revistas "sociais" do jet-3 nativol. Uma Assembleia Nacional com metado dos deputados - mas mais qualificados e menos servis - poderia resolver grande parte da perda de prestígio do hemiciclo. Eu pediria mais: a haver mais representantes do povo português, esses deveriam encontrar sede numa câmara alta (Senado), onde homens altamente qualificados poderiam estudar, debater e decidir na especialidade questões para as quais os senhores deputados não têm preparação e coturno.

14 setembro 2006

Sir André Azevedo Alves

Em busca da sustentabilidade?” e “O mito dos custos de transição.” Desmontar um a um mitinhos do capitalismo carregado de socialismo.

Nunca como hoje tantos homens foram tão felizes


Não gosto de polémicas. Implicam muito trabalho: réplicas, tréplicas, logomaquias, correcções, cedências e negociações. As pessoas são absolutamente livres de dizer o que pensam e sentem. Daí que evite melidrá-las, confrontando-as com o contraditório; daí que seja tão afoito na mobilização de factos e um impenitente desmancha-prazes. Os meus mitos, as minhas ficções-dirigentes são bem pobres. Vivo o dia-a-dia, não quero mudar o mundo nem espero que me entre Mefistófeles ou a sarça ardente pela janela adentro. Como me falha a inteligência - sou um homem comum - não aspiro sequer a ter junto de mim a lareira de Descartes, nem vivo essas noites que Maquiavel teve em San Casciano. Contudo, como não tenho pingo de romantismo, esgrimo com dados, com livros e testemunhos. Falam os românticos de tradição, de valores, de tempos de ouro, de fé e da grandeza dos gigantes. Sabem, ou teriam de saber, que tudo isso foi construído no século XIX. Os homens do passado - os homens comuns como eu - viviam no século XVIII 35 ou 40 anos, tinham a dentadura podre, uma constipação matava-os, acreditavam no demónio e matavam bruxas, eram rudes, brutais e sem pingo de comiseração pelos animais, pelas crianças e pelas mulheres, bebiam um litro de gin por dia, não sabiam ler, dormiam em poçilgas e não tinham tribunais que os defendessem (poupassem a vida) senão mandando-os para o pelourinho, a polé, as galés ou o torturador. As missas estavam cheias ao domingo, é verdade, mas a igreja era um divertimento social onde se trocavam olhares concupiscentes, se compravam e vendiam mercadorias e "peças humanas", se pediam favores, compravam púrpuras e se faziam casamentos ( vide memórias de Saint-Simon e esse outro monumento que são as Cartas do Duque de Leicester para o seu filho). De facto, as pessoas eram diferentes, ao ponto de se lhes recusar até a igualdade ontológica. Aquilo que se idealizou depois nasceu nos romances para meninas prendadas e cavalheiros burgueses do século XIX, a recusa da modernidade nesse doutrinalismo pateta que foi o reaccionarismo e o mau tradicionalismo do último quartel do século XIX - como era má a pseudo-historiografia de Sardinha, como era uma invenção sem pés nem cabeça a nunca existente união entre o trono e o altar ! - e esse finca-pé em recusar qualquer diálogo com os tempos emergentes. Isso foi péssimo para aqueles que queriam ou poderiam ter defendido a tradição histórica ocidental - não o "tradicionalismo" - pois empurrou, à laia de exemplo, os monges companheiros de Mendel a queimar-lhe grande parte da obra, o papa Leão XIII a condenar a vacinação como contrária aos desígnios de Deus e às igrejas preservar instituições hediondas que tão mal fizeram à atmosfera mental e moral europeia. A Europa tinha homens de excepção, brilhantes como astros, cientistas, escritores, sacerdotes e artistas, mas estes eram ilhas num oceano de vulgaridade, brutalidade e insensibilidade. Eu creio o contrário: se o homem veio do macaco, não caíu da graça divina: subiu em graça. Vivemos hoje - os homens comuns como eu - com maior possibilidades. Se não somos dignos delas, o problema é de cada um e não de um inquisidor, de um pregador jacobita, de um quaker ou de um rabi. Os "outros" vivem, ainda, aos pés de um fanático que do alto do magistério da mesquita determina quem deve viver, quem deve morrer, como deve morrer e como fruir dos prazeres do paraíso. É por isso que sou ocidental. Acredito na Liberdade e no futuro dos homens, mesmo que os estime violentos, maldosos, velhacos e impróprios para reivindicarem a ilustre pedatura de feitos à imagem e semelhança de Deus.

Ir a Cuba antes que chegue o século XX

Não posso perder Havana antes que o século XX chegue a Cuba. Depois de 50 anos de PREC - estão a ver o Vasco Gonçalves, o Otelo, Cunhal-Carvalhas-Sousesco no poder desde ...1959 ? - aquilo está pela hora da morte. Deve ser um choque, mas uma excelente viagem filosófica a um país que já foi, depois dos EUA e do Canadá, o mais rico Estado do hemisfério ocidental.

13 setembro 2006

Da quase inutilidade da Filosofia

Os nossos caros e sempre atentamente lidos confrades do Pasquim da Reacção e do Povo recusam aceitar os termos com que caracterizei a superioridade moral do Ocidente no conflito de que todos somos espectadores. Ora, da leitura das suas sempre inteligentes prestações, retiro quatro conclusões:
1) O Ocidente morreu e em sua substituição nasceu uma "civilização do capitalismo", indiferente a Deus, materialista, hedonista e sem "valores";
2) O homem contemporâneo não transporta qualquer sentido para a sua vida: vive obnubilado, cego e insensível a qualquer outra dimensão "superior"; em suma, vive tiranizado pelo prazer;
3) O homem contemporâneo é vítima do vazio e da ausência de Deus, valorizando tanto a vida que até procura no suicídio e na cultura da morte o apaziguamento para essa dor de viver;
4) O homem contemporâneo é predador - da natureza e dos outros homens - indo até ao ponto de aceitar a cisão da personalidade: em nome da liberdade rapta, tortura, bombardeia e mata.
Como não sou nem filósofo nem teólogo, não posso esgrimir montado sobre a ontologia e a metafísica (i.e., "seres não-físicos existentes apesar da sua imaterialidade"), mas posso invocar dois níveis de cuja justaposição pode nascer a impugnação de tais argumentos: as ideias e a história. Não há ideias infinitas. As ideias são todas produto da cultura e da inteligência do homem, pelo que são, quando muito, transfinitas; isto é, estão tão presentes na nossa relação com as coisas e connosco que as julgamos imutáveis, intemporais. É a ilusão do infinito. Assim, como ocidentais, temos em Aristóteles, em Platão, em S. Tomás a "nossa ilusão" de ordem antecedendo a nossa mimésis. Julgar que as ideias vivem fora dos homens e do tempo, sem intervenção antrópica, é uma questão de fé e não de razão. Durante um milénio, a relação do conhecimento com as coisas era intermediada pelo discurso de Deus, depois, pelo discurso da razão. Com a crise do "mundo moderno" - essas sucessivas rupturas epistemológicas que instalaram a crise da verdade e a incerteza - somos confrontados com a necessidade de reavaliar o lugar e o papel da filosofia. A Filosofia é hoje um género literário: assistemática, biográfica, ensaística. Perdida a presunção de atingir a essencialidade, dominamos pelo menos o acidental e a nossa certeza - sempre transitória - vai descobrindo as conexões, as "leis" e regularidades. Se as metafísicas estão em franco apagamento (incluindo o racionalismo = crença na razão), subsistem vias, eventualmente menos nobres à luz da tradição ocidental, mas que se mostraram bem eficientes noutras galáxias culturais. Lembro que o "Céu vazio" dos chineses não implica a inexistência de uma cosmogonia, de uma sólida teoria axiológica, de uma teoria do conhecimento bem mais argumentativa que a nossa e de uma moral que fez, pelo menos até ao século XVIII, o fascínio dos filósofos europeus.
Pois bem, tenho para mim que se a Filosofia e a religião positiva, enquanto fundamento da nossa civilização, estão condenadas enquanto instituições, o mesmo não acontece com a capacidade de pensar e com a vivência do sagrado, ambas atributos exclusivos do ser humano. O Ocidente descobriu, afinal, a Liberdade ao desanexar o sagrado da esfera social e política - do controlo sobre os homens - e ao abandonar a esperança, sempre baldada, de explicar as coisas a partir de instâncias fora das coisas. A nossa civilização funciona pois reconhece a complexidade das coisas, porque não as quer domesticar e reduzir a esquemas simplificadores, porque não quer emitir juízo sobre aquilo que está para além da capacidade de pensar e compreender. Sei que o vazio de certeza mete medo a muita gente, mas tal vazio não implica necessariamente amoralidade, ausência de lei e de ordem, subjugação à natureza e às pulsões, abandono fatalista e rendição. A Liberdade é um risco permanente, o contrato entre homens que querem ser livres e aspiram à felicidade uma árdua tarimba em que intervêm a educação, a realização individual e o respeito pelo próximo. Não me parece que os ocidentais sejam amorais, egoístas e comezinhos. Antes pelo contrário, ao libertarem-se são mais exigentes, mais responsáveis e mais homens.

12 setembro 2006

Tão parecidos....

Prémio pilhéria

Nem o caro Misantropo, tão dado a excepcionalidades, cometeria o atrevimento. A Fátima Campos Ferreira é um portento de oportunidade, erudição, cultura e inteligência. Vê-la ontem como sacerdotisa de Baal foi uma pilhéria. Ainda alguém manda naquela casa, ou resignaram-se a seguir o trilho das SIC's e TVI's ?

Quem anda a tramar Soares ?


Ontem deixei de lado os negócios, os pesos, a piscina e Saint-Simon e esperei pelo debate. Assisti a duas horas de suplício de Soares. Aquilo foi horrível: nem o danado Damiens teria conseguido resistir a tamanha ordália. Medíocre, de uma ignorância everestiana, confuso, arrogante, mal educado como um cocheiro, de uma desonestidade intelectual roçando a caricatura, egocêntrico, Soares foi digno de comiseração. Já há muito sabia - desde os meus 13 anos, quando li esse monumento de mau português, paralogismos e ignorância vertida de converseta de carvoaria que é o Portugal Amordaçado - que o temor reverencial que envolve Soares é um desses mitos sem pés (sobretudo sem cabeça) a que os portugueses, condicionados pela imprensa prostituída, genuflectem. Pacheco Pereira, que é um senhor, lá o deixou falar, gesticular, berrar. Li-lhe piedade no sorriso e quase dor no olhar. Afinal, aquele homem foi ministro dos negócios estrangeiros, primeiro-ministro e presidente da República. Estou convencido que esta foi a segunda maldade que fizeram a Soares, depois de o haverem empurrado para o desastre das presidenciais. Ocorreu-me maldade análoga que Marcello mandou fazer a um Salazar diminuído em 1969. Não se lembram ? Salazar continuava convencido que era primeiro-ministro. Marcello queria acabar, de vez, com o mal entendido, e permitiu que lhe fizessem uma entrevista. Ontem, Soares foi Salazar. Há coisas que não se fazem às pessoas.

10 setembro 2006

Flags of our Fathers

A não perder, acabado de chegar aos cinemas
Sarkozy

O homem que vai mudar a França

Nicolas Sarkozy: o francês lúcido

O candidato da direita às eleições presidenciais francesas concedeu uma entrevista-bomba antes de se deslocar a Nova Iorque para participar nas cerimónias evocativas do 11 de Setembro. Coisa rara num país tomado de profundo sonambulismo, reduzido à expressão mais patética, cuja língua poucos estudam, cuja literatura já ninguém lê, afastado das correntes do pensamento, sensibilidade e criatividade ocidentais, refém de glórias pretéritas. A França é um caso perdido. Julga-se o centro da vida mundial, mas ninguém lhe concede qualquer crédito. Escorraçada da África central e ocidental, move uma guerra sem quartel aos interesses comerciais e esfera de influência cultural e linguística portuguesa em Cabo-Verde, Angola e Guiné-Bissau. Escorraçada do Médio Oriente, dá cobertura e dignidade a regimes directamente associados ao terrorismo. No fundo, nada disto é novo. A França, por egoísmo, sempre esteve ao lado dos inimigos do Ocidente: de Francisco I - que se aliou aos turcos - a Luís XIV, que tomou o partido dos adversários de Roma nos últimos capítulos da Guerra dos 30 Anos, foi durante o século XX a filha dilecta e procuradora accionista dos interesses do comunismo, optando por Moscovo, Pequim, Hanói e Phnom Penh. Hoje, joga no tabuleiro do islamismo, sentando-se no siège à deux em companhias bem pouco recomendáveis.
Sarkozy contraria essa tendência; ou antes, reedita a velha e quase esquecida "via inglesa da prosperidade francesa" que o centralismo autoritário dos capetos, o expansionismo militarista revolucionário e o estreito nacionalismo gauleses tentaram por todas as formas fazer esquecer. Lembramos que à morte de Luís XIV o Estado estava falido, as indústrias deprimidas, o comércio exterior reduzido a níveis quase medievais, a fome, a errância e a vagabundagem instalados. Quem salvou a França da bancarrota ? Um inglês, John Law. O que fez ? A convite do Regente Filipe de Orleans, lançou mão de uma reforma profunda - hoje chamar-lhe-iam "ultra-liberal - que reduziu os gastos de defesa, despediu milhares de funcionários da coroa, reduziu a tributação fiscal, incentivou as exporações e a actividade comercial (companhias do Ocidente-Luisiana e Companhia das Indias) e lançou as malhas da actividade bancária moderna. A França recuperou e no segundo quartel de Setecentos era, de novo, um país próspero. O influxo inglês foi, aliás, determinante nesse brilhante movimento de recuperação, não se esgotando na adopção de práticas económicas, financeiras e fiscais importadas do outro lado do canal. O reformismo francês do Iluminismo (de Montesquieu, de Voltaire e, até, do grande Saint-Simon, cujos 20 volumes de memórias sempre recomendo) poderia ter impedido, se tivesse triunfado, essa maldita revolução que as Reflexões sobre a Revolução em França tão bem captaram nas falácias e desmandos. A França seguiu outro caminho: escolheu o liberalismo estatista, intervencionista, centralista. Resultado ? Abriu as portas ao socialismo, à dependência, ao subsidiarismo. Essa pulsão autoritária deixou o país, hoje uma sombra do que foi, num atoleiro onde teimosamente quer permanecer em nome do reclamado "modelo social europeu". Sarkozy quer passar por cima disso tudo. Quer uma França competitiva, capitalista e aberta aos sinais e tendências do nosso tempo. Contra ele estarão certamente os fetichistas do Estado-pai, os tribalistas e os amantes do pão e circo. Mas a França não pode esperar muito mais. Ou aceita, agora, o "modelo inglês", ou morre.
YOU ARE MY LUCKY STAR

Debbie Reynolds