05 agosto 2006

Miss Scarlett, come on in the house!

A serva patroa !

Estados mentais da Direita

Anuncia-se o propósito de organizar uns Estados Gerais da Direita. Perfeito. Se a esquerda o fez para chegar ao governo, a direita fá-lo-ia para não sair da Assembleia. Pelo descaminho, cinzentismo e falta de chama que vejo pelas bandas do PP, todo o trabalho de dez anos ameaça ruir. O problema da "direita" assenta em linhas diversas, paralelas mas convergentes, de cujo encontro resulta um grande vazio. Problema de ideias: a direita vive agarrada, ora à nostalgia, ora ao resistencialismo anti-gonçalvista. Coisas velhas, memorialismo inconsequente. A direita parece não se ter dado conta que o Estado Novo não regressa mais, que o Muro de Berlim caíu há quase vinte anos, que as velhas dicotomias pronto-a-pensar se esvaziaram de conteúdo. A direita devia ser provocatória - à Insurgente - frontal e criativa. A direita devia ultrapassar os medos: chocar a cultura estabelecida, chocar a sub-cultura esquerdista, passar para além da contestação defensiva aos avatares do Maio de 68. A direita devia ser ocidental, europeia, urbana, capitalista, a-confessional. A direita devia passar do Código Penal para as bibliotecas, da oralidade do café-lugar-comum para a ousadia. A direita devia perder uns 50 kg, pôr uma banda gástrica, vestir-se nas grandes superfícies e deixar os alfaiates, fazer ginástica - correr, saltar, nadar - em vez de se sentar no Borladero. A direita devia ler - sobretudo em inglês - viajar, comparar, seleccionar. A função da direita é manter o orgulho dos portugueses em pronunciar o nome de Portugal. A direita devia ser revolucionária no estilo: conquistar paixões, corações e inteligências. A direita devia estar na vanguarda da globalização, começando por aceitar a criação de uma verdadeira Comunidade de Países de Língua Portuguesa, com respectivo aprofundamento político, económico, militar; ou seja, a direita devia defender, com a mesma veemência que o fez em relação à CEE e à UE, uma unidade com o Brasil. A direita devia pronunciar-se sobre o regime. Se é mantenedora da unidade e soberania, devia ser monárquica e dize-lo abertamente aos portugueses. Problema de pessoas: a direita vive agarrada a tiques de senhorialismo, a potestades de espada e caldeira, a ficções de autoridade. A direita não tem nem oradores, nem escritores, nem jornalistas nem mecenas. A direita é, apenas, sociológica. Uns Estados Gerais da Direita deviam colocar como tópico cimeiro a mesma questão que um notável conciliarista português colocou em Trento: em vez de reformar a Igreja, comecem por reformar as cabeças.

04 agosto 2006

Terrores

Os franceses viveram os últimos 150 anos aterrorizados com os alemães. Os polacos viveram os últimos 300 anos aterrorizados com Russos e Alemães. Os britânicos viveram 400 anos aterrorizados com os Franceses. Os povos balcânicos viveram 500 anos aterrorizados com os Turcos. Eu só tenho um terror: os portugueses, capazes de tudo para não assumirem uma responsabilidade, acabarem obra iniciada e serem livres. Ontem, no jantar, dizia-me um diplomata português - sim, um diplomata - que teria sido excelente termos continuado a ser espanhóis. Com concidadãos destes, Filipe II, Olivares, Floridablanca e Manuel Godoy teriam terminado exitosamente a su trabajo !
SARA MONTIEL - ACERCATE MAS

Comunistas: atracção irresistível pela monarquia


Não sei por que razão, quanto mais se caminha para a esquerda, maior é a necessidade de macaquear os ouropéis, as fórmulas reverenciais e as tradições do cerimonial monárquico. É uma tão clara exibição de mimetismo, que me apetecia dizer ser o comunismo o estádio transitório entre a república decaída e a monarquia. Os exemplos das dinastias Ceaucesco, Kim, Assad germinaram. Agora, com Raúl Castro, Cuba dá passos de gigante na apropriação do Estado por uma família. Já não se trata de um regime comunista que confunde Estado e partido, mas de uma parentela extensa que possui o partido e faz alcandorar à chefia do Estado alguém pelo simples facto de ser irmão do tirano. Aplausos, senhores comunistas.

Fazemos um ano


Foi há um ano: Miss Pearls, então xanelcinco, disse-me com as blandícias de quem oferece um bombom: "vá, Miguel faça um blogue". Eu, que me afastara com juras de eternidade de qualquer tipo de jornalismo - abominara trabalhar em "O Dia" como Sub-Director - lá lhe fiz a vontade, com a ligeireza de quem aceita uma boleia. Fiquei, fui entrando nestas catacumbas que vão, lenta, mas inexoravelmente comendo o jornalismo de papel. Gostei, mas por duas vezes estive quase a abandonar esta tribuninha. Devo ao Pedro Guedes o empurrão inicial; devo a tantos outros esforçados e teimosos a perseverança de manter, dia-sim, dia-sim, duas ou três anotações à "espuma dos dias", como lembra a divisa do misterioso Jansenista. Devo dez, vinte, trinta agradecimentos, mas seria injusto não os elencar a todos, sobretudo aos leitores que foram crescendo em número, empurrando-me para o 97º posto no blogómetro, encarecendo o Combustões e obrigando-me a não fechar a porta.
Julgo que cumpri o que prometera: discutir, revolver mitos, tabús e outras pratas oxidadas, revelar distância crítica sem nunca trair as minhas convicções, revelar a metamorfose que se operou em mim ao longo dos últimos dez anos, não discutir com amigos de sempre, não ceder ao desalento de verificar que aquele campo político a que pertenci um dia está, como dantes, imperturbável perante o caminhar da história. Sei que irritei muita gente que estimo, outras que nem conheço, que fui fazendo amigos e observadores atentos - e até fantásticos promotores - mas consegui passar. Fui, até, aprofundando a minha simpatia por pessoas com as quais jamais tivera relacionamento directo. Não posso culpar ninguém, sobretudo aqueles que esperavam uma coisa e saíu outra. Não gostaria que ninguém ficasse com a ideia que deixei de estimar menos os amigos que me convidaram para escrever aqui e acolá e depois deixaram cair um véu de silêncio. Compreendo-os e agradeço !
Ficou a lição: na vida devemos manter a manta calma sobre a capa da paixão, devemos aos novos e antigos amigos a sinceridade, mas devemos uma obrigação à nossa consciência. Fiz minha a divisa de Je Maintiendrai: aguentar, aguentar ! Afinal, tudo se pode discutir. Somos animais opinativos, uns mais racionais que outros; uns desesperados à procura de uma razão para existir, outros rindo-se com erasmiana lucidez da inutilidade de tudo.
Talvez um dia não distante encerre o Combustões, pois factos importantes aproximam-se celeremente. Estou tão dividido em obrigações e actividades que tenho de escolher uma vítima. Talvez seja o Combustões. Parabéns, também, para a querida Miss Pearls, que faz hoje um ano. A ela devem o Combustões. Quanto a mim, desejem-me apenas que consiga alijar o fardo.

03 agosto 2006

Wien bleibt Wien

Birgit Nilsson-Wien, du Stadt meiner Traume

Há dias assim

Há dias em que não me sai da cabeça a ideia que o melhor destino que a Providência nos poderia ter dado seria a da inconsciência. Ou antes, talvez me agradasse mais a possibilidade de uma surdez completa e universal, apenas remissível em casos excepcionais. Abro a tv, sintonizo a rádio e só ouço disparates. Problema corporativo (dos jornalistas) ou doença infecto-contagiosa ?
Catadupas de banalidades e bálsamos de duvidosa honestidade, inundações de ignorância, ciclones de iletrismo. Será do país ou do género humano ? A Providência cometeu erros de palmatória !

A Ucrânia teve medo do futuro

Os neo-comunistas pró-russos voltaram ao poder na Ucrânia. O fenómeno da involução está a dar-se um pouco por toda a parte no Leste. Populações submetidas durante décadas a uma terapia alienante - impossibilitadas de querer, ter e fazer, transformadas em bocas alimentadas pelo Estado, mãos em concha vivendo da anormalidade da "economia planificada" - entraram em choque quando lhes foi restituída a cidadania. O regresso a esquemas proteccionistas, o desejo de ter outros a pensar e agir por si, a segurança de se ser governado por emissários de Moscovo a troco de gás natural barato; em suma, a abdicação da Liberdade é coisa não rara em povos cuja história se confunde com o autoritarismo. A Ucrânia teve medo do futuro, teve medo da Europa, teve medo da iniciativa individual. Quando a soberania é usurpada, quando se perde a genética da liberdade, só com dificuldade se pode fazer um senhor a partir de um escravo.

Destacadíssimos

Um lote de reflexões que a imprensa de papel - sempre obediente, auto-censurada e estipendiada - não reproduz:

Uma notável colecção de asneiras, no Blasfémias
Da mentalidade do pelourinho, no Je Maintiendrai
Lembrando Manuel Maria, no Sexo dos Anjos
Um de Agosto, a guerra segue dentro de momentos, no Professor Maltez

02 agosto 2006

Trend Outono-Inverno

Uma proposta de Latifa Vanessa Medina, prestigiada estilista de Moura. Conjunto de passeio envelopeé, em texturas de seda selvagem reciclada, apresentada na Feira de Moda Nouakchot, patrocinada por Madame Salima N' Judula, 26ª esposa do presidente (excizada sob patrocínio da Gilleta, Blaze Intern. Corp.).

O Lisbollah: flora intestinal do capitalismo


O Lisbollah é um estado de espírito da burguesia ociosa. Filho de família católica progressista criada à sombra de Salazar, andou, repetiu, trepetiu anos na universidade. Entre o activismo político daquele marginalismo aplaudido que dava colaborações em jornais - o dos admiradores das vias extremistas para o socialismo que até consideravam o PC "social-fascista" - as andanças pelo Bairro Alto, o charro e as idas a Nova Iorque e Londres, cansou-se dos grupúsculos e fez-se partido. Não tendo exercido qualquer função tributada até aos 40, vence pelos contribuintes em S. Bento ou em Estrasburgo, amesenda-se nos banquetes da "democracia burguesa e capitalista" e faz o périplo mundial pelos pobrezinhos. Acamarada com tudo o que imagina o novo "bom selvagem", venera Castro, Chavéz, Morales, diz libertador quando dizemos terrorista, diz liberdade ao que chamamos tirania, abomina as igrejas mas respeita os minaretes, é ateu mas refere-se a Maomé como "o Profeta", considera as migrações europeias colonização, mas o inverso um bem, eriça-se-lhe o pêlo quando ouve a palavra Ocidente mas derranca-se ante qualquer colar de búzios ou qualquer orixá. O protestarismo destes ricos não faz mossa ao "sistema": no fundo, estes Lisbollahs são uma espécie de flora intestinal necessária ao metabolismo de um sistema económico que, por tanto consumir, acabou por fabricar as indústrias de efluentes, reciclagem e reaproveitamento da sociedade de consumo: o lixo passou a ser uma riqueza. Adolescentes retardados, já de barriga e careca, cara empergaminhada, inebriam-se com as causas fracturantes e vendem o kit completo da anti-globalização, da alter-globalização, do Fórum Social, dos impactos ambientais, das "espiritualidades" alternativas e demais mitologias new age. São rapazes de 40 anos a brincarem às revoluções. Como dizia a avó de uma amiga minha francesa ao assistir em directo, pela tv, ao Maio de 68: "ils faisaient mieux de rester chez eux".

01 agosto 2006

A terra da minha mãe no Ma-shamba

No Ma-shamba, lembrando as ruínas de uma época que passou. Casa colonial no Chinde, terra natal da minha mãe.
As crianças ensanguentadas

Em nome de Alá Todo-Poderoso

Dr. Miguel Portas: a religião é o ópio do povo

A produção libanesa de ópio, estimada em 45 toneladas, irriga os cofres dos partidários de Deus.

Desde há anos correm insistentes rumores sobre as ligações estreitas existentes entre os cartéis da droga e o Hezbollah. A milícia possui fortes instrumentos de angariação financeira: raptos, tributação sob ameaça, extorsão e confiscação, moeda forte proveniente de donativos iranianos e, agora, a cornucópia de dinheiro fácil saído dos bancos de lavagem e dos produtores de estupefacientes. Não satisfeitos com estas ligações, os santarrões do Partido de Deus possuem e exploram vastas plantações de ópio no vale de Bek'aa, para além de se envolverem directamente no escoamento, refinamento e venda a retalho da heróina extraída do ópio afegão. Com gente assim, fortalezas de exemplaridade, soldados de Deus, a Jihad ameaça cair de Guerra Santa a Guerra Suja. Aqui faz todo o sentido, caro Dr. Miguel Portas, lembrar o seu velho Marx: "a religião é o ópio do povo".

Líbano, um Estado fantasma

"Desde a guerra civil na segunda metade dos anos 70, o Estado libanês, mais do que uma realidade, tem sido uma aparência. O país a que dantes se chamava a Suíça do Oriente não voltou a emergir das escombros e está, desde então, refém de milícias várias, que operam a soldo dos Estados da vizinhança. A Síria, inclusive, deixou-se por lá ficar, depois de, em 1978, ter liderado a força de intervenção enviada pela Liga Árabe. Como é sabido, retirou-se, o ano passado, sob pressões de origem diversa, traduzidas em aparatosas manifestações de rua. Mesmo assim, as autoridades de Beirute continuaram num papel pouco mais que decorativo, incapazes de garantir a segurança e de fazer frente à poderosa organização do Hezbollah, a qual, sob a protecção de Damasco e de Teerão, continua a impor a lei no Sul do território e a ameaçar Israel, com o rapto de soldados e a artilharia que entretanto lhe continua a chegar prodigamente." ( Diogo Pires Aurélio, no DN)

Islamo-marxismos

Do insubstituível Insurgente, da autoria de Fernando S, atrevo-me transcrever um post - que estimo completo e acutilante - sobre a duplicidade dos islamo-marxistas.
"O comentário do Miguel Castelo-Branco denuncia oportunamente as lágrimas de crocodilo que tantos neo e post marxistas vertem pelas vítimas civis dos bombardeamentos israelitas no Líbano. Estes "novos humanistas" são os herdeiros ideológicos daqueles marxistas estruturalistas à Louis Althusser que, nos anos em que os comunismos avançavam conquistadores pelo mundo fora através das "lutas armadas", das revoluções violentas, das guerrilhas sanguinárias, das execuções sumárias em massa, das "ditaduras do proletariado", e de tantas outras versões da "violência popular", faziam a crítica dos "humanismos burgueses". Nunca antes se preocuparam ou se indignaram com tantas e tantas vítimas gratuitas das causas que então defendiam e ainda hoje celebram e glorificam. E nos tempos que correm não têm pejo nem vergonha em tolerar, ou mesmo justificar, os actos de violência indiscriminada e deliberadamente destinada a matar o maior número de civis por parte dos diferentes grupos terroristas islamistas. Não lhes falta lata para estarem agora a dar lições de moral a quem pertence a tradições políticas e ideológicas que condenam e combatem hoje o islamo-terrorismo do mesmo modo que no passado o fizeram em relação às ditaduras nacionalistas e aos totalitarismos comunistas. No fim de contas, menos de vinte anos após o fim da guerra fria, mantêm-se as tradicionais linhas de demarcação entre os defensores e os inimigos de sociedades baseadas na liberdade e na tolerância. Os detratores destes valores sempre utilizaram a arma da demagogia e da propaganta contra os seus adversários. Por vezes, e durante muito tempo, com exito. Como quando conscientemente instrumentalizavam o "anti-fascismo" para melhor defenderem o comunismo e os seus crimes. As técnicas não mudaram no essencial, apenas se ajustaram aos novos tempos e às novas realidades. Tendo perdido a batalha da eliminação definitiva do liberalismo e da democracia nas sociedades ocidentais e ocidentalizadas, os neo e post marxistas descobriram mais recentemente as virtudes das lutas anacrónicas que o obscurantismo islâmico fundamentalista trava contra a progressão generalizada dos valores da liberdade individual. Seguindo a velha máxima leninistas das alianças « populares », apostam agora nessa nova frente com a esperança de conseguirem assim enfraquecer o « capitalismo mundial » e ganhar tempo para a preparação de novas investidas contra o centro do sistema, supostamente mais sofisticadas e menos reaccionárias. Tal como o « pacifismo » do pós 2a guerra mundial foi um instrumento ao seviço do poderio militar da União Soviética, também hoje o "novo humanismo" representa uma contribuição de retaguarda dada à acção dos grupos terroristas que na primeira linha levam a cabo uma guerra de desgaste dirigida sobretudo contra os governos e as populações dos países onde avançam, mesmo que lentamente, os valores da liberdade e da modernidade !!
Fernando S.

Suásticas defendendo Israel

De Luís Bonifácio recebi este delicioso esclarecimento adicional a respeito de um livrinho aqui sugerido ontem para leitura light de verão:Fighters over Israel. Agradecido pela impagável informação.

"Caro Miguel:
Os Messerschmidt, penso que foram enviados pela Checoeslováquia no dia seguinte à da Independência. A urgência era tal que os Israelitas nem sequer os pintaram, pelo que estes aviões voaram ainda com as marcações alemãs. "

31 julho 2006

N' O Jansenista

Massacres selectivos no sempre cartesiano Jansenista.

Obrigado a uma pessoa de bem

Agradeço, uma vez mais, penhorado, as sempre amigas e avisadas palavras do Dr. António da Cruz Rodrigues. O Dr. Cruz Rodrigues é a prova provada que a inteligência, o bom-senso e autenticidade são dons e virtudes que não têm a ver proporiamente com opções filosóficas e ideológicas, mas que ganham vida e redobrada coerência quando compaginadas.
"Eles têm o petróleo, nós temos as ideias"
( De Gaulle)
Às vítimas do terrorismo e da guerra

Die Tote Stadt = A Cidade Morta (Finale, de Korngold
Guerras Santas
Pelos mortos do terrorismo e da guerra

Clair de lune, Claude Debussy

30 julho 2006

Requiem de Verdi: Dies irae, dies illa

Mitos a desmontar: faz hoje 100 anos, a Rússia integrava a Europa

A primeira Duma russa foi eleita, faz hoje precisamente um século. Eleições livres, com liberdade de imprensa, liberdade absoluta para partidos, candidatos e programas num império que depois a mentira bolchevista quis fazer crer tratar-se de uma autocracia que espezinhava direitos e perseguia e condenada ao exílio a nata da inteligência. Uma mentira em que muitos persistem, repetindo à exaustão esse mito e quase desculpando as atrocidades dos sovietes, de niilistas e demais dinamitistas. A verdade - importa lembrá-lo - é que dessas eleições saíu uma assembleia dominada pelos Liberais (179 deputados), com forte presença das nacionalidades não-russas do Império (121 deputados), Trabalhistas (94 deputados), Conservadores Outubristas (17 deputados) e representantes da extrema-direita (15 deputados). A Rússia passaria os sete anos subsequentes numa espiral de crescimento económico, desenvolvimento industrial e explosão de iniciativa individual que só encontraria paralelo no actual "milagre chinês". Se a Primeira Guerra não tivesse eclodido, nunca o país se precipitaria na tirania comunista. Não só a oposição direitista às reformas do czar se foi esbatendo com o aumento da prosperidade, como os grupúsculos comunistas se foram eclipsando um a um ao longo desses anos de glória económica. Uma conclusão: o extremismo só floresce em terra adubada pela fome, pela ausência de perspectivas e pelo desespero. A base da Liberdade, o respeito pelas pessoas e o Direito só se tornam efectivos quando há riqueza. A Rússia imperial iria, pois, transformar-se numa democracia se um acontecimento fortuito não se tivesse atravessado no caminho. O comunismo foi uma involução tremenda, um recuo de 70 anos na libertação dos russos, pois voltou a fazer tábua-rasa da cidadania, da lei e dos direitos de expressão, associação e propriedade. A Rússia de 1906-1913 era um Estado europeu. A Rússia de 1991 vegetava no despotismo "asiático".