14 junho 2006

Estádio Lumpini



Chamam-lhe o grande templo do Muay Thai. Sexta-feira vou lá estar para assistir a mais uma Luta pela Liberdade (มวยไทย ). Arte marcial decorrente da tradição mongol de que os thais são tributários, era praticada pela casta guerreira antes de se democratizar e converter em "desporto nacional". Só há poucos anos me apercebi que estes "desportos nacionais" não são tão populares como o exotismo reles e o turismo pretendem fazer crer. Mutatis mutandis, seria o mesmo que afirmar que o desporto dos portugueses é o jogo do pau, o dos franceses os torneios medievais e o dos japoneses o Sumo! O mundo moderno tudo terraplanou, tudo mercantilizou e vulgarizou. Os bravos lutadores do Muay Thai transformaram-se em mercenários. Se bem que lhes seja inculcada desde crianças a ética inerente ao violento ofício - lealdade, auto-domínio, camaradagem, bom-ganhar e bom-perder - muitos jovens oriundos de famílias pobres procuram uma via (sacrificada) para o reconhecimento social. Tenho pena que todas as dores do espectáculo sirvam para o divertimento de uns centos de turistas grosseiros, barrigudos e alarves. Ocorre-me a imagem do Circo Máximo, onde homens destemidos davam a vida na arena, enquanto milhares de parasitas do pão e vinho imperiais se acotovelavam nas bancadas para assistir ao sacrifício dos derrotados. As multidões são assim: consumistas, gritadoras e medrosas. Ai como gostaria de ver - pagá-lo-ia em ouro - um desses europeus vociferantes entre as quatro cordas do ringue !

25%


Noticiam hoje os jornais que o Ministério da Defesa pretende reduzir em 25% o número de coronéis. Bem achado. Falta, contudo, reduzir em 80% o número de generais, em 90% o de brigadeiros, almirantes e demais multidão de funcionários fardados e promovidos por razões que só a política conhece. Chega de Estado Maior de secretaria e messe. Chega de antiqualhas do tempo da Guerra da Coreia que avariam em pleno desfile, caças que não levantam por falta de combustível, corvetas que metem água até ao portaló, helicópteros que avariam voo sim, voo não. Ao contrário do que dizem as más línguas, as Forças Armadas têm sido utilíssimas, excedendo-se em boa vontade e profissionalismo. A nova geração de oficiais cortou definitivamente com a cultura castrense do tipo "Vasco de Melena e Pá". Quer servir, mas precisa de meios. Ora, enquanto se esbanjar dinheiro em generais e coronéis do papel e dos ofícios, não há orçamento que resista.

13 junho 2006

Identidades imaginadas e patriotismo

Foi com assomos de grande coragem que Rui Ramos deu há anos à estampa, na História de Portugal de Mattoso, um volume intitulado A Segunda Fundação. Tratava-se, evidentemente, de uma obra pioneira e iconoclasta, pois demolia sem piedade mitos esquerdistas há muito arreigados - o mito do republicanismo - mas também, algumas ideias mal paradas a que gerações da direita se agarraram. O nacionalismo é coisa nova em Portugal. Nova e tardia, inventada em finais do século XVIII e exportada pela Europa oitocentista por uma verdadeira "internacional nacionalista" - o "cosmopolitismo nacionalista" a que aludia Anne-Marie Thiesse na sua incontornável Criação das Identidades Nacionais - que fez estragos, dividiu o que era uno e juntou o que nunca estivera unido. É hoje sabido que o nacionalismo nasceu da invenção de um passado mítico, socorrendo-se as mais das vezes de manipulação de fontes literárias, invenção de textos e, até, invenção de línguas anteriormente quase inexistentes. Tudo começou com Macpherson, que literalmente inventou o celtismo. Depois, foi a vez de Herder, de Goethe e dos irmãos Grimm criarem uma identidade alemã, jamais comprovada, a partir de colecções de lendas, delas retirando um "volkstum" e um "volksgeist" (um espírito popular) que indiciava uma "essência nacional". Ora, se perguntassem a Mozart se era alemão ou austríaco, este responderia que não era nem uma coisa nem outra. Considerar-se-ia, apenas, súbdito do arcebispo-príncipe de Salzburgo e, por extensão, súbdito dos Habsburgos. Grande parte dos "nacionalismos" nasceram de colagens, recortes e importações literárias. O "nacionalismo" sérvio foi inventado por Prosper Mérimée na célebre La Guzla, o "nacionalismo helénico" saíu das antologias de Claude Fauriel e o mito de uma Roménia latina foi urdido pelos irmãos Shott a partir de contos valáquios. Depois, coube aos nórdicos desenterrarem sagas a partir da oralidade (a oralidade não resiste a duas ou três gerações), pretendendo recriar o volkstum viking, preenchendo um hiato de mil anos obscuros. Este movimento que sacudiu a Europa ao longo de Oitocentos - o nacionalismo - serviu para a engenharia da fabricação dos Estados contemporâneos e teve como instrumento de difusão a imprensa (o periodismo), a fixação de "línguas nacionais" através de dicionários e gramáticas, bem como a rede de ensino primário. Pode-se dizer, com propriedade, que o nacionalismo é (e foi), nesta acepção, uma invenção; em suma, uma ideologia. Lembrando o sábio Popper, o nacionalismo constitui a "secularização da superstição religiosa" em sociedades onde o sagrado e o religioso pedem novas ligações e devoções. Contudo, se há identidade que prescindia desse esforço de estandardização forçada, esse era Portugal. Portugal não precisava de importar o que quer que fosse pois erigira, ao longo de séculos, uma identidade compacta e homogénea - uma "consciência nacional" - com provas dadas desde a revolução de 1383-85: uma só língua, uma só religião, contornos geográficos estabilizados no século XIII e , depois, um sentido de comunidade que se exportou e incorporou outros "portugueses" pela simples exigência da fidelidade ao Rei de Portugal e ao catolicismo. O "nacionalismo postiço" europeu de Oitocentos fez estragos que mataram a identidade portuguesa. O liberalismo, ao inventar o cidadão, privou de "cidadania identitária" todos aqueles que se consideravam "portugueses" desde o século XVI. Depois, o estúpido Acto Colonial, separou os habitantes do ainda vasto império remanescente em "colonizadores" e "colonizados". O patriotismo português fora um alicerce da capacidade de resistência e unidade. O "nacionalismo português", aqui chegado no comboio de Paris, empobreceu, reduziu e matou.
Dizia-me há dias um amigo que o "nacionalismo" é o bilhete de identidade de uma sã consciência do grupo. Respondi-lhe que não: esse nacionalismo não é nosso, é uma ideologia, uma simplificação, uma impostura. O verdadeiro esteio da unidade dos "portugueses" está no patriotismo, o mesmo que venceu no passado e uniu, em vez de separar. Os cronistas holandeses que escreveram sobre os Guararapes indignaram-se pelo facto dos seus exércitos - brancos, louros e calvinistas - haverem sido destroçados por um exército de escravos negros, mestiços esfarrapados e brancos papistas. Da Europa nem sempre chega boa mercadoria. O "internacionalismo nacionalista" terá sido, sem dúvida, da pior contrafacção.

12 junho 2006

Aqui somos todos portugueses




Fim da tarde no "Portuguese Settlement" em Malaca. Da cidade portuguesa, expugnada palmo a palmo, ameia a ameia, casa a casa, homem a homem pelos holandeses em 1641, já pouco subsiste. Erguida, firme, sólida e orgulhosa, a porta de armas - a Famosa - lembra tempos de glória e sacrifícios que me provocam "pele de galinha". Que grande façanha, que teimosia coroada de lágrimas e ousadias, essa de manter um império, do Cabo a Nagasáqui, com uns milhares de portugueses ásperos e valentes. Isso não durou dois, dez, cem anos. Ali estivemos séculos, expostos à malária, ao calor inclemente, à asfixiante humidade, aos ataques de árabes, javaneses, holandeses, britânicos e franceses. Ali rezou-se missa durante trezentos anos, acolá nasceram gerações de portugueses, mais adiante estão sepultados centenas de missionários, mercadores, aventureiros, capitães e soldados anónimos. Os mortos mandam entre as raízes seculares, as trepadeiras, o capim alto e as pedras escaldadas pelo sol. Aproximo-me do café. Música portuguesa: o vira e o malhão. Os empregados, vestidos de campinos. Aproxima-se um malaio e diz-me: aqui somos todos portugueses. Revelou-se o segredo. Os galeões, as naus, as caravelas partiram. Os missionários há muito que não rezam missa, a Misericórdia caíu de pobre. Eles continuam portugueses. Se isto não é amor de pátria, onde estará ?

11 junho 2006

10 de Junho e futebol


A milhares de quilómetros de distância, o 10 de Junho e os febris preparativos para o jogo com Angola permitem-me, longe mas português, três curtos comentários:
1) A RTP-I passou imagens das duas cerimónias mais representativas da efeméride comemorada: as oficiais e aquelas, mais verdadeiras e sentidas, dos Combatentes do Ultramar, em Belém. As oficiais, marcadas pela pelintrice habitual, com nota negativa para o patético exibicionismo de Benard da Costa falando de si, de si, de si, com os tiques típicos de uma geração que esteve sempre na linha da frente pelo sarcasmo e pelo desprezo pelo país, e nota positiva para o Presidente Cavaco Silva, que não recua, não balbucia nem se envergonha ao proclamar o "orgulho nacional", o patriotismo e a grandeza desta outrora grande nação derramada pelas sete partidas do mundo.
2) O grande sucesso de convocatória dos Combatentes do Ultramar, reparando o desânimo de anos passados, evocando, juntos, os nomes de brancos, pretos, amarelos e mulatos que deram o sangue em defesa de uma ideia de Portugal que se quis apagar, esquecer ou ridicularizar ao longo de décadas: a desse Portugal que ia de Lisboa a Dilí, de Luanda a Goa, de Lourenço Marques a Macau. No êxito das celebrações estará a mão de Paulo Teixeira Pinto, que continua, como sempre, ardente e fiel a um Portugal orgulhoso do seu passado ultramarino.
3) O surto de são patriotismo, sem agressividade, sem remoques nem ódio, que junta milhões de portugueses e lusófonos numa comovente festa de família. Vi as imagens da Alemanha, os angolanos, brasileiros e portugueses juntos, tratando-se por irmãos. Em suma, a comprovação de que a ideia de Portugal é um poderoso agente de aproximação. É este o milagre português. Perguntem a britânicos, franceses e holandeses se o conseguem. Ficarão, certamente, envergonhados.