09 junho 2006

Os colonialistas: a tribo branca da África Oriental (10)

O meu pai (1953), na BMW-42

Lourenço Marques: um toque cosmopolita
Princípio dos anos 50. Lourenço Marques ganhava forma, os prédios da zona comercial começavam a dar à capital da África Oriental Portuguesa uma feição bem pouco lusitana. Europeus fugidos à guerra ou às incertezas da paz aportavam a este distante território austral, levando nas malas as recordações e modas europeias, diversificando a comunidade branca e produzindo uma cultura multicultural onde gregos, alemães, italianos, dinamarqueses, holandeses e alemães deitavam cartas. Ali ao lado, a África do Sul irradiava o capitalismo e a riqueza, impondo-se gradualmente como pólo dominante desse mundo onde o desafogo parecia eterno. Lourenço Marques não se parecia em nada com Lisboa, matriz das capitais do restante Império. Trabalho calmo, sem ansiedade e ocupações bem remuneradas proporcionavam uma vida social intensa.
Havia os "chás-dançantes", reuniões para se dançar e a que se ia vestido sem cerimónia. Começavam ao cair da tarde e prolongavam-se pela noite dentro. A moda iniciara-se em Inglaterra em 1913, dando grande êxito ao tango que chegara da Argentina cerca de 1910 e nos anos 50 e 60 assentou arraiais em LM. Dançava-se com acompanhamento de pequenas orquestras ao vivo ou com tercetos e/ou quartetos. Os mais cotados eram os do Clube Naval (Irmãos Diniz c/Boni ao piano), dos Velhos Colonos, do Clube Ferroviário, da Costa do Sol, do Oásis e do Zambi. As moças dançavam com saltos altíssimos, de agulha, saias e mais saias de baixo em tarlatana com folhos, com muita roda, tecidos muito leves (algodão, tobralco, piquê, tafetá, musselina; à noite, sablés, táfetás que se compravam em lojas como o John Orr, Fajardo, Casa Coimbra, Fabião, ou no "monhé das Lagoas"; os rapazes de camisas brancas, raramente amarelas ou pretas: calças de tecidos frescos: brancas, cremes, castanhas, cinza, azuis, raramente pretas - o preto dava uma conotação pouco bem; lembravam o fado ou o existencialismo - os cabelos com brilhantina, sapatos espelhando polimento. Entre os tangos, as rumbas e os passodobles bebia-se refrigerantes: limonada, vimto, cidra, laranjada e orange e lemon squash; ou sumos de laranja; trincavam-se sandwiches de fiambre, de queijo e de mortadela, de galinha com alface e tomate; lambiam-se gelados feitos manualmente e com frutos naturais.
Para as saídas de fim de tarde, havia a música ao vivo no "Café-Salão-de-Chá-Pastelaria Scala" e no Arcádia (onde na bateria tocava o popular José Bandeira, popularizado na Rádio como intérprete de diálogos humorísticos), prolongando-se pela noitinha com música no Nicola e, deois do jantar, dançava-se nas "boîtes" dos hotéis: Polana (I Cinque di Roma, Segundo Gallarza, Conjunto Mário Simões, Jorge Machado), nos hoteis Girassol e Aviz. Para a boémia, avançava-se para os casinos Belo e Costa e para A Cave e, em especial, para se pecar muito à vontade, para o Penguim na Rua Araújo (nome de um fado-canção do Artur Fonseca, o autor da Casa Portuguesa).
A Rádio tocava canções de língua francesa (Jean Sablon, Charles Trenet, Edith Piaff, Yves Montand, Lady Patachou, Tino Rossi, Lucienne Delyle, Josephine Baker, Suzy Solidor, Mistinguet, Maurice Chevalier, Luís Mariano, Yvonne Printemps, Georges Guetary, André Claveau, Juliette Gréco, Georges Brassens). Depois, chegaram Françoise Hardy, Adamo, Joe Dassin, Sylvie Vartan, Mireille Mathieu, Jonhy Halliday, Richard Anthony, Julien Clerk, Sidney Bechet, Sacha Distel, depois. Num mundo muito afeito aos gostos anglo-saxónicos, Louis Armstrong, Bing Crosby, Harry Belafonte, Doris Day, Ella Fitzgerald, Dean Martin, Pat Boone, Elvis Presley, Nat "King" Cole, The Platters e Frank Sinatra eram cativos. Neste ambiente, havia, porém, uma nostalgia portuguesa onde o fado "metropolitano" e as cançonetas faziam furor: Amália, Hermínia, Mª. Teresa de Noronha; Fernanda Baptista, Alfredo Marceneiro, Carlos Ramos, D. Vicente da Câmara e os cançonetistas Mª. de Lourdes Resende, Mª. Clara, Alberto Ribeiro, Francisco José, Rui de Mascarenhas, Max, Toni de Matos, Artur Ribeiro e Conjunto Mário Simões inscreviam Moçambique nas suas constantes deslocações.
Nesta Lusitania Felix desenvolveu-se uma cultura de sorrisos, relaxamento e bom acolhimento que foi, lenta e discretamente, anunciando uma possível via para uma independência cultural da minoria branca. Porém, os anos 60 iriam por em causa este sonho sorridente.

Quarto com vista para o paraíso artificial

A bailarina sem véus

Ava-Birmânia, a 10 metros do Sião



Finalmente, no Triângulo Dourado, em busca das pegadas do Elefante Branco e dos mercenários portugueses de Seiscentos.

08 junho 2006

Um grande livro


A obra foi-nos sugerida pelo [momentaneamente] ausente confrade do Je Maintiendrai. Preguiçoso como sou, confesso, deixei que uma mão caridosa o traduzisse para o português. Comprei-a e devorei, parando aqui e ali, varado pela inépcia do tradutor, que fez o favor de semear tão belo texto de escolhos, imprecisões e erros palmares de cultura geral. Que um tradutor prefira "azerbeijanês" a "azeri", vá lá; que traduza "Goldenen Horn" por "trombeta dourada", também é desculpável; agora, que mantenha a onomástica inglesa do texto original de nomes alemães, italianos e franceses é de bradar aos céus. Vá lá que não incorreu noutras traições, ficando-se pelos pecadilhos produto da ignorância.
Do que trata o Orientalista ? Da acidentada, fascinante e trágica vida de um "travesti cultural", Lev Nussimbaum (aliás Essad Bey, aliás Kurban Said) judeu azeri convertido ao islão em Berlim, que se fez passar por príncipe muçulmano e se transformou em autor de moda na Alemanha de Hitler. Um desafio à coerência e à aparente linearidade com que julgamos domesticar o terrível século XX europeu. Da sangrenta queda dos Romanov à ascensão dessa figura sinistra que deitou por terra a secular grandeza cultural da Rússia (Estaline), da queda do Império Otomano à Alemanha pré-nazista, com prolongada passagem pelas raízes do sionismo - essa doença nacionalista que os judeus beberam da fonte inquinada das ficções românticas europeias - o Orientalista é, também, convite para uma meditação sobre a imprevisibilidade do comportamento de um homem em permanente busca de identidade. Um judeu amigo de fascistas e nazis, que fingiam não saber que era judeu; um falso "asiático" a brincar aos asiáticos, repelido pelos muçulmanos; um sósia de Rudolfo Valentino, de adaga e botas altas, seduzindo raparigas e logo delas fugindo, um escritor de prodigiosos recursos só agora reconhecido como um ícone do século XX, Lev merece a nossa atenção. Lembrei-me do meu Homem Cristo Filho, também ele aventureiro, fura-vidas, sedutor e extremista.
Excelente leitura de férias, oportunidade para ir à Feira do Livro.

Desinfectado !

Acabou. Foi desinfectado. Custou, mas, finalmente, o decapitador de Bangdad vai adubar uma tamareira. É o destino dos terroristas. Não sei o que vão fazer os mitómanos com a infame memória da criatura. Presumo que dentro de meses aparecerá em bandeiras e pins nas arruaças anti-mundialistas. É de bom tom não festejar a morte de um homem. Eu festejo. Com toda a exuberância ! O homem não prestava nem merece uma lágrima ou uma prece. O bestiário da história universal da infâmia fica mais rico; a humanidade, idem.

07 junho 2006

Poucos, bem pagos, os melhores


O serviço do Estado não é uma sinecura, encobridor de desemprego de facto, vazadouro de madraços, terapia ocupacional e ghetto para pessoas portadoras de défice de competitividade. O Estado deveria ter poucos funcionários, competentes e bem pagos. Devia ter os melhores. Infelizmente, transformou-se no oposto: num polvo tentacular, num gigante cego, num aparelho digestivo ante-diluviano manobrado por desocupados crónicos, analfabetos e abúlicos. O aparelho burocrático do Estado deveria integrar, apenas, quadros técnicos superiores e intermédios com competências específicas, um corpo de quadros dirigentes devidamente habilitados em gestão e administração. Todas as restantes funções, deveriam caber na alínea "contrato a termo certo", em regime de aquisição de serviços.

06 junho 2006

Passaram 100 anos


Passaram, sem nota evocativa, 100 anos sobre a ascensão de João Franco Castelo Branco (1855-1929) à presidência de um ministério de salvação nacional. Sem dúvida um dos nomes mais achincalhados e difamados da história portuguesa contemporânea, foi tão insultado pelos republicanos - bombistas, dinamitistas e golpistas que nele viam um dique à expansão da violência e intimidação com que o PRP pretendia tomar o poder - como pelo baronato dos partidos monárquicos há muito sentados à mesa do orçamento. Franco chegou tarde de mais, após anos de tumultuosa vida pública, eterno enfant terrible de um regime que entrara em coma definitiva na década de 90 de Oitocentos. Há uma similitude chocante entre a atitude de João Franco e aquela que num outro extremo da Europa sacudia a geração dos Jovens Turcos. Portugal e o Império Otomano - o "homem doente da Europa" e o "fiel aliado da Grã-Bretanha" - pareciam ter chegado ao momento das grandes decisões. Se para os Jovens Turcos, a Sublime Porta requeria um tratamento de choque à base de autoritarismo, nacionalismo, modernização e secularização - que mais tarde Kemal Atatürk aplicaria sem titubeios - para os franquistas do Partido Regenerador Liberal, em parte herdeiros de Oliveira Martins - a prioridade era dada à reforma do sistema, mercê da democratização e desarticulação do caciquismo. Os interesses instalados - desses que em Portugal servem todos os regimes, todos os partidos e o correspondente como infame tráfico de influências - reagiram. No fundo, Franco sempre o disse, queria governar à inglesa; por outras palavras, queria um Portugal mais europeu, mais liberal, mais aprumado. Sabia-se que se João Franco triunfasse, muitos interesses seriam postos em causa, a começar por aqueles que mais ganhavam com a ingovernabilidade: os repúblicanos. Os republicanos mandaram matar o Rei e o Príncipe da Beira (uma infâmia que jamais conseguirão lavar), e os monárquicos hostilizaram-no. Franco saiu sem glória da ribalta. O país não compreendeu que mais tarde ou mais cedo os acontecimentos dar-lhe-iam razão. A República Velha falhou estrepitosamente e veio Sidónio; a Nova República Velha caiu de pobre e dela saiu Salazar.

05 junho 2006

Há 60 anos: a trapaça do referendo italiano

Passaram 60 anos sobre o golpe de De Gasperi, Neni e Togliatti para impor a república no imediato pós-guerra. Foi um referendo manipulado, teledirigido e falsificado desde o primeiro dia em que os novos senhores do país chegaram ao poder. A partilha da bota pelos poderes que haviam triunfado - EUA, URSS - fez-se com toda a sorte de atropelos a direitos civis em que as proscritas organizações criminosas (Máfia, Camorra) tiveram, pela primeira vez em décadas, uma acção tutelada pelas autoridades. Os Sabóia tinham contra si muitos antigos fascistas, muitos autonomistas e regionalistas, mas, sobretudo, os democratas-cristãos, os comunistas e os socialistas. Em Junho de 1946, a votação alcançada pelos monárquicos foi cerrada, partindo oficialmente o país em dois; oficialmente, posto que é hoje argumento de toda a evidência que os senhores da nova situação recorrem a chapeladas eleitorais em todos os rincões de Itália: mortos votantes, eleitores-fantasmas, votos por procuração, votantes inscritos em 3, 4 e 5 cadernos eleitorais distintos. A monarquia triunfou, de facto. Temendo uma reviravolta, fez-se votar uma infame lei de banimento, obrigando toda a família real a sair do país. Hoje, depois de 50 anos de poder corrupto e dez de exotismos populistas, muitos olharão com nostalgia o tempo em que a Itália era una da Sicília ao Alto Adige.

04 junho 2006

O caminho do meio


Olhando para o século trágico que nos precedeu, serenos, apaziguados, sem contas a ajustar com o passado, podemos afirmar sem grande escândalo que tudo teria sido melhor se o bom senso, a razão e a via intermédia tivessem imperado. A política é, obviamente, um jogo em que a intercecção da irracional vontade de poder acaba por predominar sobre todas os outros factores. Porém, se atentarmos, a possibilidade de escolher entre o mal menor e o que se lhe opoõe, está sempre em cima da mesa. Habitualmente, a paixão, o ódio, a casmurrice e as questões menores acabam por prevalecer na decisão de quem, julgando servir uma causa, uma comunidade ou um grupo de pessoas, acaba por se servir da liderança para dar vazão a motivos de mesquinha subjectividade. Tenho andado ocupado com uma obra, que estimo recomendável para a compreensão desse tremendo cataclismo que foi a revolução bolchevista na Rússia. Da autoria de Alexis Wrangel, filho do Barão General Wrangel, Wrangel 1878-1929: Russia's White Crusader , vem comprovar que, afinal, entre o inconsequente sonho do retorno da autocracia czarista e o flagelo comunista, entre a reacção e o totalitarismo, havia um líder, um corpo de ideias, um programa e gente capaz de oferecer à Rússia um destino bem diferente. Sob a direcção de Wrangel, os Brancos detiveram e fizeram retroceder momentaneamente o Exército Vermelho de Trotsky, acolhendo e tratando milhões de fugidos ao Terror Vermelho. No exército de Wrangel não havia discriminação religiosa, fossem os combatentes ortodoxos, católicos, judeus ou muçulmanos, nem políticas, fossem os soldados monárquicos, liberais ou socialistas. A justiça funcionava, e como o grande problema da sociedade Russa era a questão da terra, Wrangel concebeu e aplicou uma reforma agrária bem sucedida, reparando os latifundiários e centuriando propriedades pelos famintos camponeses. Quando abandonou a Crimeia, em finais de 1920, esta era a única região do país onde não se morria à fome. Tradicionalista e eslavófilo, reconheceu que uma Rússia Branca vencedora devia curar as causas que haviam deflagrado a revolução, sem lançar mão às teorias conspirativas que, cómodas, são sempre redutoras. Foi uma pena, como o foram também, noutras paragens, o fracasso de Chiang Kai-shek na China, do Partido do Centro Católico de Von Papen na Alemanha, de Calvo Sotelo em Espanha de de João Franco em Portugal.