29 abril 2006

O grande acontecimento do dia

Descontando a saga do Mourinho, o apartamento do Scolari, a eleição do "novo Leão" e as opiniões de dois pé-na-bola Nelson e Oceano, um fragmento de 4 segundos do "míssél" paquistanês (Rodrigues dos Santos dixit) e uma mais que certa falcatrua na Guarda REPUBLICANA, a OVIBEJA foi o grande momento nacional deste sábado. Nada de novo desde o tremor de terra de 1755 !

28 abril 2006

Maluquices editoriais


Lembra um insigne colega a obra A Invasão dos Judeus, de Mário Saa, um repositório delirante de patetices anti-judaicas tão pouco convincente que até serviria, a existir, para dourar e exaltar a "conspiração judaico-bolchevista". Na obrazinha, Almada, Pessoa, Sá Carneiro, Homem Cristo Filho e António Ferro eram expostos como lídimos marranos, incutidores da peçonha moral, das taras, vícios e degenerescência em que decaíra o espírito nacional. Em suma, um sem-número de fantasias paranóicas, tão ao agrado de um certo jornalismo em busca de sedentos do sensacional. Ofereço, como contrapartida, outra obra emblemática do declínio da razão, da pena de um herói africanista e de um fiel monárquico que no fim da vida deitou tudo a perder assinando um "trabalho de investigação" - geológico, arquelógico e antropológico - procurando comprovar a ascendência atlante - sim da Atlântida - dos portugueses. Compreende-se agora que a direita portuguesa não tenha conseguido jamais aquele pingo de respeitabilidade e bom senso que tornam possível a manutenção do poder cultural.
Para gargalhar, entre a bolacha e o chá, respigo quatro curtas passagens:
1- "Entre outros factos que se podem citar como prova da existência da Atlântida, de cujas terras orientais são sobrevivência a Lusitânia e a Mauritânia, foi o do bispo S. Brandão, para fugir ao domínio dos Mouros, ter ido com muitos dos seus paroquianos estabelecer uma colónia de cristãos numa ilha que estava situada ao largo das costas marroquinas, (...) que não podia ser outra senão aquela de que são sobrevivência as Selvagens" (p. 22).
2 - "O tipo de Muge é o representante e descendente directo da casta ophiusae frous da Lusitânia. Tal é o autóctone da raça portuguesa, o protótipo da raça Atlante, o Homo-Atlanticus, em contraposição do Homo-Mediterranium, caracterizado pelo pequeno dolicóide (...)" (p. 67).
3 - "Foi ainda em virtude desses constantes contactos de fraterna amizade entre Portugueses e Mouros que, em 1415, D. João I escolheu Ceuta para início de uma nova expansão (...). (...) Quando pela segunda vez, em 1916, voltámos a Marrocos, levávamos já a suspeita que a raça mauritana tinha também por base um tipo atlante, como a portuguesa" (92).
4 - "Vejamos agora a evolução social e de cultura dos Atlantes (...). Ao fim do paleolítico, os Atlantes tinham a sua religião, da qual era Endovélico o deus supremo, viviam permanentemente em fortalezas denominadas castros, ou em cavernas, e toda a Atlântida estaria densamente povoada, dividida já em tribos (..)"

Acabado de sair do cavalete



Algo arcimboldiano, sem frutos, mas abundante em plásticos, cenários idílicos da mitologia "travel" e à la page no "trend" da moda , o Presidente Mediático (100x100), de Nuno Castelo-Branco (2006). Este vai direitinho para a redacção de um jornal espanhol. Só os espanhóis se podem dar ao luxo da pilhéria anti-republicana. Por cá, muito respeitinho.

26 abril 2006

Do Minho a Timor (1927)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Uma foto que hoje seria arrolada nos crimes contra a humanidade. Contudo, no tempo dos nossos avós, era reveladora de um sonho unificador dos antípodas. Encontrei-a no arquivo de família: a minhota (Palmira Bastos) ostentando a "dignidade racial portuguesa" - grandes olhos mediterrânicos, arrecadas de ouro lembrando a Dama de Elche, tez fenícia - em contraste com as armas de Timor, em foto de Álvaro Fontoura, por ocasião das celebrações do primeiro aniversário da Revolução Nacional.
Quase oitenta anos passaram. As minhotas só sobrevivem em ranchos; os timorenses são os nossos maiores amigos. Tudo mudou, ou não ?

Democracia e dinheiro: um email que exige resposta


A propósito do último post, recebi um email, aliás aducadíssimo, de alguém que contesta o que escrevi afirmando: "seria impossível pensar a Inglaterra e os EUA dominados por governos totalitários". Permita-me, Dr. AFM, plena discordância. Lembro - reforçando a minha opinião - que nos anos 30 os EUA terão estado à beira de aceitar soluções contrárias ao "espírito americano". Em depressão profunda - tão bem evidenciada por Steinbeck e Dos Passos - proliferaram soluções expeditas protagonizadas por franjas significativas da sociedade norte-americana: o católico-fascizante padre Coughlin , os camisas prateadas de William Pelley, o German-American Bund de Fritz Kuhn, mas também os comunistas de Foster , que se aliaram aos nazis após o pacto Hitler-Estaline (1939). Quanto à Grã-Bretanha, lembro um texto hoje quase desconhecido de Orwell - England Your England - no qual se recolhem afirmações do género: "o fascismo é menos pernicioso que o comunismo, a menos que se seja judeu, comunista ou social-democrata".
Não há sociedades cuja genética predisponha a esta ou àquela forma de governo. A Rússia de 1913 caminhava para o regime parlamentar quando uma catástrofe (Grande Guerra) a atirou para a revolução. A Alemanha dos anos 20 era uma sociedade aberta quando, subitamente, sobre ela se abateu a crise económica. Lembro que Hitler não passaria de um político de terceiro plano se as circunstâncias favoráveis da desagregação precipitada pela depressão o não tivessem favorecido. O mesmo se passa com a Europa de hoje. Sabemos lá o que se passaria se sobreviesse algo análogo a 1929, mas tenho para mim que é sempre de prever o pior das mais santas criaturas com quem nos cruzamos diariamente. Quando acaba o dinheiro, começa a revolução.

Democracia e dinheiro

Não há democracia sem dinheiro e sem abundância. O velho e sempre jovem Walter Lippmann deixou-o claro: o limiar que separa sociedades e indivíduos é aferido pela riqueza que possuem. A riqueza proporciona educação, ponderação, fruição e ociosidade: só as sociedades livres possuem dinheiro para a recreação, para a opacidade e para a intimidade. Sociedades pobres/indivíduos pobres pedem protecção, favorecimento, intromissão e controlo. Não teremos democracia enquanto não houver riqueza. A democracia não se funda no ressentimento mas na emulação. Logo, o extremismo - doença infantil da elite cultural sem dinheiro em busca de explicações para o seu insucesso - que aduba o extremismo dos pobres de espírito - o ódio de classe, o ódio racial, o ódio religioso - termina logo que debelada a indigência e a pelintrice. É tão difícil implantar a democracia no Afeganistão como nas circunvoluções de um analfabeto. A democracia não é um credo: é um método e uma atitude. Como tal, prefiro os democráticos aos "democratas"; a liberdade à demolatria; a demofilia à demagogia. Uma sociedade rica cria uma nova aristocracia: não apenas a dos negociantes, mas também a dos mecenas, dos investigadores e dos criadores. Não há vida espiritual sem estômagos reconfortados; não há dignidade, leis e liberdade com cidadãos submetidos ao Estado. Em suma, não há soberania do povo sem a riqueza necessária à abertura de horizontes. Tudo o mais é retórica partidocrática, clubismo e empregadorismo.

Inquisição, Gestapo e GPU


Uma discussão oportuna, num tempo de equívocos, anacronismos e revivalismos. Sobrelevando a defesa que nesta tribuna se faz do respeito devido à dignidade humana e de todos os valores de civilização, mas sem cedências à lacrimejante deseducação, à amálgama e à propaganda. Um debate em aberto, em que não cabe, decididamente, a manipulação e os desvairados facciosismos analfabetos. O sempre atento e avisado Jansenista atenuou o branqueamento de Gonzaga, Je Maintiandrai deu-lhe moldura de discussão séria, fundamento de toda a luz.

25 abril 2006

o bunquer


Ouvi a frase duas, três, dez vezes ao longo do dia. Sei que as palavras, à força de tanto serem repetidas, perdem o seu significado. São mera liturgia para crentes, os poucos que vão sobrevivendo à força da biologia. "25 de Abril outra vez" grita uma destentada no cortejo de anciãos que desce a Avenida atrás da carripana blindada. Outra vez ? Desta seria a morte definitiva do paciente - todos nós - entregues ao experimentalismo de uns senhores que mal cabiam nas fardas e que, por fim, só a custo empurrados para fora da governança, ainda pedem tenças, estátuas e condecorações. É o bunquer !

Imobilidade


Viver para o passado, paralizar o calendário, imobilizar o sol, adubar o jardim com paixões e ódios fossilizados, tiranizar os jovens com feitos&factos, memórias e erros de gente banal elevada a panteões de duvidosa exemplaridade. Cansado da tirania de velhos artríticos; nauseado pela demissão dos jovens caquéticos; emparedado vivo numa nesga sem horizontes - de onde as naus da Carreira da Índia já não mais partem - restam-me mergulhar na fantasia de experimentar um sonho cansado.

Lembrar

"Coimbra, 8 de Julho de 1974 - É trágico ter de assumir este quotidiano pátrio condicionado por meia dúzia de primários. Morrer nas mãos de uns tantos que sacrificam o destino de todos a uma pirueta do seu pretenso destino".
(Miguel Torga, Diário XII)

24 abril 2006

Inquisição: mito e realidade


Se os temas "revisionistas" me interessam de algum modo, esses têm a ver com a matéria portuguesa. Dei por mim a folhear a obra A Inquisição e seu mundo, de João Bernardino Gonzaga, um extenso, vivo e profundo quadro dessa temível instituição que deteve ao longo de séculos um poder impressionante sobre o mundo católico. O ilustre académico brasileiro desmonta e refuta um a um os argumentos da lenda negra que imputam à famigerada toda a sorte de malfeitorias, ao ponto de a associarem - por processo subliminar - à GESTAPO, ao NKVD e outras polícias políticas de regimes totalitários do século XX. Esquecem-se os acusadores que a Inquisição não praticava a tortura física, pelo que muitos preferiam processos instruídos por inquisidores a outros dependentes do foro civil judicial. O direito à defesa sobrepunha-se às acusações e os prisioneiros acusados detinham privilégios de saída precária, assistência à família, bem como apoio médico e pecuniário vedados a outros detidos cuja natureza dos crimes imputados não era matéria para infracções recobertas pelo Santo Ofício. Acresce que a Inquisição era dirigida por homens de grande cultura, o que atenuava os efeitos perversos inerentes a qualquer polícia do espírito. Com excepção de Torquemada, um extremista que acabou vítima do seu carácter intempestivo e persecutório, as inquisições espanhola e portuguesa encontraram nos cardeais Cisneros e D. Henrique, mas também em D. Francisco de Mascarenhas, figuras cimeiras da cultura do seu tempo, sempre abertos, se bem que não ao "diálogo", pelo menos, à relativização. Quando comparada ao furor calvinista - responsável pela imolação de milhares e milhares de pessoas - a Inquisição era, no quadro do seu tempo, uma instituição quase benigna. Contudo - o reparo é meu - a Inquisição deixou marcas bem impressivas e perduráveis. Com medo de represálias, muitos cientistas, escritores, teólogos, filósofos e artistas auto-censuraram-se, deixaram de escrever e de questionar; logo, matando a prazo sociedades submetidas ao jugo. Esta repressão invisível criou, entre nós, mazelas irrecuperáveis : medo de criar, temor reverencial pelo poder, inibição na acção social/acomodação, seguidismo cego, espírito acrítico e difamação. Esta prática não foi encerrada nem pelo Marquês - elevado pelo republicanismo oitocentista a anunciador de amanhãs cantantes -, que instituíu a Real Mesa Censória, nem pelos governos liberais, que lançaram mão da Comissão da Censura dos papéis volantes e escritos periódicos (1826), da Lei da Rolha (1850) e de uma profusão de decretos e manigâncias que passaram a justificar, depois da implantação da República, todas as arbitrariedades de regime jamais submetido a sufrágio dos Portugueses. A história da Inquisição portuguesa não se encerrou, decididamente, em 1821. Há por aí tanto inquisidor e tanta vítima das atitudes semeadas pelo santo ofício !