22 abril 2006

Cemitério índio

Que raio de terra é esta, onde toda a energia se esbanja na maledicência, na inveja, na coscuvilhice, no abate de pernas alheias, na demolição de reputações e quejandos movimentos subterrâneos ? Vou ao lançamento de um livro ou à inauguração de uma exposição - que tanto trabalho deram a quem a elas dedicou esforço, criatividade e tempo - e todos arquejam em suspenso, esperando uma gaffe, um assomo de ridículo, uma oportuna quebra do autor. Convidam-me para uma reunião de trabalho e metade do tempo útil é desperdiçado em considerações sobre ausentes. Vou a um jantar e o canibalismo escorre pelas bocas, fazendo transbordar os pratos e apodrecendo os alimentos. Isto deve ter sido construído sobre um cemitério índio. A misantropia começa a apoderar-se de mim. É curioso ter resistido tanto tempo até que os olhos se abrissem e visse, sem o estulto manto romântico, a verdadeira realidade das coisas. Vem isto a propósito de tudo e de nada !

21 abril 2006

Ontem morreu "O Livro de Cesário Verde": vivam os Cânticos do Realismo


Ontem fez-se história. Teresa Sobral Cunha arrumou definitivamente um velho tabú da literatura portuguesa. O erroneamente crismado "Livro de Cesário Verde" - título da lavra de Silva Pinto - dado à estampa em 1887, chama-se, afinal, Cânticos do Realismo, conforme vontade expressa do poeta em carta publicada no Diário da Tarde em Novembro de 1883, : "as poesias vão dentro em pouco ser publicadas em volume, sob o título Cânticos do Realismo". Num notável trabalho filológico e interpretativo, marcado pela absoluta racionalidade com que a investigadora devasta mitos e lugares-comuns, mas animada igualmente por uma paixão declarada por Cesário, Teresa Sobral Cunha é a antítese de um meio académico que prefere a mentira canónica à verdade. Ontem fez-se história. A partir de hoje acabou o "Livro de Cesário Verde". Se quiserem referi-lo com propriedade, usem, pf, Cânticos do Realismo.

VERDE, Cesário; CUNHA, Teresa Sobral (edição). Cânticos do Realismo e Outros Poemas [seguidos de] 32 Cartas. Lisboa: Relógio d'Água, 2006

Happy Birthday Your Majesty

80 anos de vida, 54 de trono, 89% de popularidade, inveja profunda para ditadores, anafados presidentes e "pais de nações". A propaganda pelo facto da excelência e superioridade da monarquia.

20 abril 2006

Os colonialistas: a tribo branca da África Oriental (6)

Irlanda e Leontina (193-)

A Sociedade das Nações
Irlanda (a minha avó), Bolívia (1915) Argentina (1917-1992) e Leontina (1919-2003), tias-avós - havia também uma América e uma África nas vizinhanças - nasceram, cresceram e casaram na Lourenço Marques recém-conquistada ao mato. Tiveram uma infância feliz, com as amenidades que o meio proporcionava, os terrores escolares da pedagogia do tempo - foram alunas do Professor Barradas, casado com uma neta de Victor Hugo, conhecido pela impiedade com que chumbava miúdos de 8 ou 9 anos com questões do género: "quantas milhas são da barra de Lourenço Marques à Inhaca* ?. Não sabe ? Está chumbada" - mas, também, pela prática dos desportos (ténis, ginástica sueca), as idas às matinés de domingo no Gil Vicente e no Varietá, com fitas mudas de Pola Negri e Douglas Fairbanks acompanhas a piano. Aprenderam os lavores costumeiros - bordados, carving, pirogravura, pintura - o convívio com a música em brincadeiras de família com piano a quatro mãos, bem como a exigida preparação para biscoitaria e bolaria caseiras, com sorvete feito em casa, requeridos a qualquer rapariga. A leitura seguia a incontornável Condessa de Ségur para, logo depois e às escondidas, se folhearem os iniciáticos como escaldantes dramalhões camilianos da colecção grená. Uma geração despreocupada que, atingida a idade dos namoros - que se limitava a inocente troca de olhares depois do catecismo, ou uma dança nos bailes do Clube Naval - se preparava para o casamento. Outros tempos !


* Inhaca: ilha situada na entrada da barra de Lourenço Marques.

Crime em Monforte


Do meu velho camarada de tropa João Ribeiro, acabo de receber a fotografia-denúncia. A casa de António Sardinha, em Monforte, encontra-se no estado que poderão apreciar. Um ultraje a um dos mais notáveis filhos da terra, um atentado ao património e a prova provada do tendenciosismo com que se vai (des)fazendo a gestão cultural das autarquias. Se o fundador do Integralismo Lusitano tivesse sido estalinista, tarrafalista ou crise-academista dos mais ignotos, estamos certos que no edifício já estaria uma casa-museu, uma Fundação ou uma biblioteca. Coisas da piolheira, como diria D. Carlos.

19 abril 2006

Revolucionários liberais


Soa a contradição, mas não é. No mar de revivalismos, receituários esgotados e fixações que só apontam o rumo do passado, o pensamento liberal - ou seja, aquele que trata de pensar o indivíduo, não como prolongamento da sociedade e instrumento do "interesse superior do Estado", mas como origem da vida social e fonte da ordem política e jurídica - surge-nos como a maior provocação a um século de crenças holísticas e servidão estatocrática. A generalidade das pessoas tem medo da liberdade. A liberdade exige independência e luta pela demarcação. A liberdade pede responsabilidade, competência e emulação; em suma, exige qualidades, mérito, iniciativa, criatividade. Assisti ontem à apresentação do livro de André Azevedo Alves, Ordem, Liberdade e Estado. O autor, jovem de enorme potencial e provas dadas (e publicadas) é uma das grandes revelações desta década. Espero que consiga firmar-se como autor de referência e que do doutoramento que está a preparar no Reino Unido venha ainda mais radical na defesa daquele conjunto de ideias heréticas que fazem sacudir nos seus sarcófagos os detentores dos monopólios do "bem-comum", das "conquistas sociais" e do chupismo em que se precipitou a Europa ex-rica, ex-colonial e ex-capitalista. Nunca fui adepto do liberalismo, mas não posso deixar de concordar com muito do que afirmam. Aliás, se há revolucionários nesta Europa, serão com certeza os liberais.

18 abril 2006

Os Colonialistas: a tribo branca da África Oriental (5)

A filha do mato
Ana Plácido, a minha mãe (1933), nascida em Ile, na Zambézia, no dia em que entrou em vigor a Constituição de Salazar. Cresceu à beira da selva, educada entre livros de arte da biblioteca do pai, foi sempre a "menina" das localidades por onde foi vivendo ao longo da infância e adolescência.
Teve por companhia estranhos animais de estimação: leões-crias, macacos e até um elefante por desmamar. O tan-tan dos batuques, as queimadas nocturnas e as caçadas - que outros brancos coloriam como adereços do "feitiço de África", que nunca sentiu, por ser africana - serviram de motivo para as primeiras aventuras pictóricas. Doravante, jamais abandonou o cavalete, os pincéis e os óleos. Autodidacta, recebeu lições no atelier de Frederico Aires, sendo hoje considerada, por aqueles que conhecem a sua obra - infelizmente pouco divulgada e raramente exposta - uma das mais expressivas captadoras das ambiências sociedade moçambicana colonial dos anos 50 e 60.
A relação permanente com os povos e culturas do mato permitiu-lhe dominar dialectos e subtilezas a que só a muito custo etnólogos e antropólogos puderam aceder. Os contactos sociais restringiam-se nessas paragens a uns quantos fazendeiros brancos e membros do quadro administrativo colonial, mais uns monhés* cantineiros endinheirados e, sobretudo, à afável criadagem: uma atmosfera de grandes silêncios convidativa à introspecção e à vida interior. Pontualmente, a nostalgia da civilização convidava a rituais de memória: bailes com orquestra, chás dançantes e debutantes do patriciado colonial. Após a precoce morte do meu avô (1955), radicou-se em Lourenço Marques.
* O termo monhé não era pejorativo. Servia, tão só, para identificar indianos de religião maometana. Os banianos eram hindús e os canecos indianos católicos.

Gloriosos patifes

Sempre tive atracção pela literatura latina clássica, em especial por essas irrepetíveis obras-primas de história romana saídas das tabuínhas de Tácito, Cícero, Políbio e Suetónio. Como leitura de entretenimento, sugiro um velho livrinho acabado de devorar, comprado por tuta e meia num alfarrabista. Os Césares: apogeu e loucura, de Ivar Lissner, publicado em português nos anos 50. Uma catadupa de envenenamentos por poções de Locusta, mais estrangulamentos, lutas na arena, defenestrações, parricídios, matricídios, incesto, golpes palacianos, crucificações, infanticídio, corrupção, traições e algum heroísmo à mistura. De César, mulherengo mas "raparigo" de poderosos, a Augusto vingador e coleccionador de moças, mais Tibério pedófilo e forreta, Calígula zoófilo e deslumbrado, Cláudio imbecil, cruel e dissimulado, Nero super-star perdulário, Galba-Otão-Vitélio criminosos comuns e locupletadores de pouca dura, Vespasiano burguês, Tito "delícia da humanidade", Domiciano ante-estalinista, Nerva senil mas sensato, Trajano digníssimo e Adriano, que para além da loucura por Antínoo foi um um exemplo de grandeza...uma galeria de monstros de rosto humano que não excede nem diminui esse longo momento da história ocidental, matriz de tudo o que de respeitável persiste, que foi o Império Romano. Uma obra desaconselhável a cultores de leituras edificantes.

17 abril 2006

Ataques repetidos ao Vaticano


Hoje, a não perder: Jornalista de Referência, no Pasquim do Corcunda, uma valente surra no jornalismo analfabeto. Não sendo católico nem adepto das teorias da conspiração, não posso deixar de registar como insólito e revelador o ataque permanente movido contra o Vaticano. A invenção de um Judas heróico é o último episódio deste seriado interminável que encheu os bolsos de Dan Brown e outros fabricantes de historietas. Cristo fugiu para o sul de França na companhia de Maria Madalena, de quem teve um filho; Cristo buscou com afã o suicídio; Cristo cumpriu uma agenda para acertar com as profecias que anunciavam a vinda do Messias; Cristo terá sido, apenas, um rabi judeu heterodoxo.
Esta catadupa de "revelações" pretende manipular, confundir e lançar o descrédito sobre um dos pilares mais sólidos da identidade europeia. O Evangelho segundo Judas não altera nem retira nada à génese do movimento cristão. Para além dos Evangelhos canónicos há, como é sabido, uma centena de Evangelhos Apócrifos e Evangelhos Gnósticos. Deles se pode fazer um Cristo à medida de cada um, até um Cristo homicida, que em criança matava passarinhos. Qualquer dia Cristo aparece como mulher, como consumidor de alucinogénios ou como extraterrestre !

16 abril 2006

24 de Abril e 24 de Novembro


Comemoram-se no próximo dia 25 três décadas mais dois anos sobre o golpe de Estado que levou para o exílio Marcelo e Tomás, que restituíu à tropa o poder que detivera até à institucionalização do Estado Novo (1933) e abriu a porta a uma das mais dramáticas mudanças da história nacional. À distância, sem paixão, sem facciosismo nem nostalgia, podemos começar a libertar-nos desse tempo, como do tempo que precedeu o início da "revolução". A melhor tisana para nos libertarmos das correias da memória e paixões passadas encontramo-la, não na ideologia, nas proclamações, nos mitos mobilizadores e na abundante bibliografia disponível sobre o assunto no mercado livreiro, mas nas fotografias, nos jornais e revistas do interim que medeia entre o 24 de Abril de 74 e o 24 de Novembro de 75.
Em 24 de Abril de 74, o país estava farto do regime autoritário. A sociedade portuguesa estava mais rica, mais solta e menos dependente do Estado, pelo que pedia mais liberdade: 10% de crescimento económico/ano, 500.000 accionistas na bolsa, poder de compra 100% superior ao de 1960, investimento estrangeiro em larga escala, 60% do poder de compra europeu. As ditaduras morrem sempre que a sociedade civil se independentiza e sente o Estado como um estorvo para a afirmação das liberdades reclamadas pelos indivíduos, pelas classes e pelos grupos económicos. As ditaduras, se não perecem de aventuras desastradas, fenecem pela riqueza de uma nova classe média. Assim morreria o Estado Novo, se não tivesse havido o golpe, como assim morreram o franquismo - doença do enriquecimento - e o regime dos coronéis da Grécia, por uma derrota militar no Chipre.
Em 24 de Novembro de 75, o país estava farto de balbúrdia. A sociedade portuguesa estava mais pobre, mais carente de governação e autoridade: 20% de desempregados, colapso da produção industrial, falta de liquidez das empresas, fuga do capital internacional e êxodo das classes operantes, 5.000 presos políticos, inflação galopante, chegada de meio milhão de refugiados de África.
Folheamos meia dúzia de periódicos desse ano e meio. Em 24 de Abril, a sociedade portuguesa era mais europeia, mais à la page com o mundo ocidental e capitalista. O regime era velho e atípico, mas Portugal era tido pela insuspeita Time Magazine como o "próximo milagre económico", a seguir à Itália e Espanha. Minissaias à Mary Quant , óculos escuros pop, música ligeira interpretada em inglês, casinos, automóveis espalhafatosos, vida nocturna pujante, gosto pelo consumo, pelas viagens, forte influxo de turistas europeus. Portugal estava a caminho da Europa: pertencia à OTAN, à EFTA e assinara o acordo de pré-adesão à CEE.
Passou um ano. Em Novembro de 75, os portugueses eram mais subdesenvolvidos, mais terceiro-mundistas, mais Estado-dependentes, mais pelintras: música de intervenção, vestimentas andrajosas, pinchagens vandalizando a quase totalidade dos edifícios públicos e privados das cidades. Portugal estava a caminho de Cuba: nacionalizações, colectivização, racionamento. Valeu a pena a revolução ? Não. Outra solução se perfilara, mas ninguém teve coragem de cortar o caminho a Cunhal.