01 abril 2006

Portugal vai ser potência energética em 2040

O National Renewable Energy Laboratory, de Washington, acaba de emitir um estudo prospectivo que aponta Portugal como o grande beneficiário da nova vaga de tecnologias renováveis. Segundo estudo de 1200 páginas, o nosso país produzirá, por volta de 2040, 40 a 50% de toda a energia eólica do continente, bem como 35 a 40% da energia eléctrica captada por grandes centrais de captação solar. Lá vem um novo ciclo de riqueza para todos, depois dos ciclos das especiarias do Oriente, do ouro do Brasil, do café e diamantes das áfricas e dos fundos estruturais europeus. Já não vale a pena trabalhar. Vai ser um fartote de apartamentos no Algarve, de jeeps, croissanterias, cafés de bairro e catedrais da bola. Daqui a 60 anos estaremos, de novo, na penúria.

31 março 2006

Literatura-lixo


Andava a Margarida Rebelo Pinto incomodada pelo facto da crítica literária não se pronunciar sobre aquilo a que chama "a sua obra". Pois bem, João Pedro George fez-lhe o favor e disse que todo aquele papel não vale as desgraçadas árvores imoladas ao ego da frioleira da Guida-vende-vende. Aquilo não é literatura: é lixo quimicamente puro. Esta proeza de George - que comparo à hercúlea façanha da limpeza das cavalariças de Áugias - desencadeou um coro de virgens indignadas, as sempiternas tontas agarradas às redes do compadrio, do amiguismo e da crítica encomendada. Parabéns George, fez um belíssimo trabalho. Da próxima não use lixívia: recorra ao lança-chamas.

Falar do mundo sem o conhecer


Certezas e paixões assolam a blogosfera. Parecem testemunhas de Jeová armados de frases-feitas, condenando e açoitando, incensando e santificando povos por atacado, repetindo migalhas de sub-cultura ideológica. Há ódios e paixões suficientes para fundar três infernos de geenas, meia dúzia de paraísos e, porque não, uma centena de purgatórios de reciclagem. Da esquerda para a direita, os mesmos autores, os mesmos títulos, as mesmas fixações rotulantes. Não interessa se Céline era um bandalho como homem e um génio como escritor: o que interessa é ter sido fascista; se Jean-Jacques Rousseau era um escroque como pessoa e uma inteligência luminosa: o importante é ser um dos ídolos da esquerda; se Leni Riefensthal marcou ou não a fotografia e a filmografia europeias do século XX: o relevante são os acidentes da sua danação nazista; se Pessoa abriu ou não um sulco impressivo na relação dos portugueses com a sua língua: o importante, para os facciosos de um lado, é o ter escrito a Mensagem (uma obra fraca, quase insignificante no mapa da sua produção) e para os facciosos do outro lado ter sido agraciado com um prémio dado pelo amigo e protector António Ferro. Apercebemo-nos, finalmente, que quem fala de Israel, da China, das Alemanhas e das Rússias, dos Bilderbergs e das "shoas", de S. Tomás e de Marx, das mães-de-aluguer e do buraco do ozono, da CIA e de cabalas, nunca saiu da sua rua, nunca viajou nem confrontou culturas. O saneamento para tal apego a teorias está à mão, ali no Governo Civil. É requerer um passaporte e viajar, seja pé, de bicicleta, de triciclo, autocarro ou avião. Nas bibliotecas está tudo, mas nem tudo está nas bibliotecas. Viajar é preciso, não como turista, mas como viajante.

Alerta o Último Reduto para a maldade dos bípedes implumes. Um povo revela-se na forma como trata os seus animais. Em Portugal, os animais são expostos às mais vis torturas. Ninguém se pronuncia. Há lóbis a funcionar e o mais poderoso é o lóbi da estupidez e da grosseria. Já não basta o flagelo da caça - esses 500.000 pândegos roliços e etilizados que nos fins-de-semana se furtam ao controlo das matronas para, em campos, charnecas e bosques, varejarem a tiro tudo o que mexe - mais o flagelo da insensibilidade tauromáquica, mais as matanças do porco e demais brincadeiras com animais. Que selvagens, estes portugueses.

30 março 2006

Exotismos nipónicos


"Nós usamos barretes de cantos ou redondos de pano; os japões usam barretes de seda, uns agudos e outros feitos à feição de sacos"[e não só].
(Luís Fróis, Tratado das Contradições e Diferenças de Costumes entre a Europa e o Japão)

Berlusconi


A Itália é adorável. Detém 60% do património museológico e arquitectónico europeu, transporta infuso o bom gosto, o equilíbrio formal e a magia das subtilezas que só espíritos duramente exercitados conseguem produzir. Os italianos são montras dessa porfiada decantação. Ao contrário dos franceses, que trabalham para o refinamento e para a elegância - e disso têm consciência - os italianos realizam sem aparente fadiga a arte de viver, estar e permanecer como italianos. Contudo, por detrás da sedutora imagem, esconde-se algo muito antigo, perturbador e doentio no carácter desses faladores inveterados, desses artistas genéticos, desses cantores e esbracejadores arrebatados. A violência, alguma crueldade e gosto pelo sangue perpassam pela vida deste povo desde as mais remotas origens. A história de Itália - como expressão geográfica, nacional e política - é um desfiar de rivalidades, lutas civis, ajustes de contas e frustrações colectivas que não encontram par em nenhuma outra nação europeia. A atmosfera de opereta que envolve a vida pública italiana - o toque de ridículo que ressuma das peripécias da vida interna, mais o ridículo e o fiasco das intervenções do país na cena internacional - transformam o país em mote para o anedotário universal e para a irrisão. Os alemães diziam em 1914, não sem alguma piada, que a Itália - ainda aliada das Potências Centrais - forneceria as marchas militares, a Alemanha os soldados e a Áustria a comida. Ainda. Outra provelbial tendência italiana: mudar de campo, desdizer compromissos, trair os amigos. Aquele povo, demasiado envolvido nas artes cénicas, não consegue distinguir o ilusório do real. Tudo são cascatas de palavras, sonoridades, gestos dramáticos, juras de morte e de paixão, mas mal o pano cai, o actor sai disparado, com o pão em baixo do braço, a garrafa de vinho e o queijo ralado em busca de um lar com uma mesa onde um monte de raviolli lhe provoca o esquecimento.
Berlusconi é o retrato da Itália, como o foram no passado Andreotti, Mussolini e Cavour. Se estes foram, qualquer que seja o juízo que deles se possa produzir, dois grandes políticos, Berlusconi não pode ser mais Andreotti, nem Mussolini, nem Cavour. Não pode ser Andreotti, pois a Mafia já não governa o país como nos tempos da Democracia Cristã. A Europa não deixa. Não pode ser Mussolini, pois nos tempos em que se vive ninguém aceita que um homem queira dominar e confiscar o poder em nome de uma nação que não confia em Roma. Et pour cause, não pode ser Cavour, pois esse uniu o colectivo. Hoje, cada um quer ganhar dinheiro, cada região quer mais para si, cada "país" da manta de retalhos da bota quer desprender-se de obrigações perante o todo. De facto, a Itália de hoje é mais 1850 que 1940. De facto, Sabóia-Piemonte-milanado existe separado do país, Veneza para um lado, Roma para outro e Nápoles-Sicília, no outro extremo. De facto, os "estados papais" lá estão, a mandar nas paróquias, nos baptizados, nos casamentos, nas confissões, romarias e procissões. É a Itália. Nunca mudará. Berlusconi é mais um de passagem numa crónica infindável. Não posso esconder que até simpatizo com o homem. Ao menos não é mais um burocrata saído das salas de jogo da corruptíssima administração pública. Com as suas empresas, dá trabalho a dezenas de milhares de italianos e é o maior contribuinte do país. Os italianos sabem-no. Mas não sabemos para que lado acordarão no dia das eleições, ou se trocam as urnas por um teatro, seguido de uma garrafa de vinho e um pratalhão de massa.

29 março 2006

Permanência de Portugal


Quaisquer que sejam os juízos produzidos a respeito dos tempos que correm, há um diagnóstico marcadamente reservado que abraça todas as perspectivas e observadores atentos no evoluir da sociedade portuguesa. Há, no ar, uma percepção clara de perda, de inautenticidade e figuração geradoras ou de mal-estar, resignação e apatia, ou de cólera e agitação inconsequentes.
O problema português está nas elites, no povo chão, nas instituições, nas práticas, mentalidades e atitudes. Não exagerando, arriscaríamos dizer que Portugal, tal como se pensou enquanto identidade e comunidade de valores com um sentido na história da Europa e do mundo, entrou em colapso. Dele sobrevivem réstias arquitectónicas, crónicas, vultos e memórias inactuais, ou seja, incapazes de exercerem qualquer referência exemplar sobre os portugueses de hoje. País pobre, vivendo de favores da UE, com a mais elevada taxa de analfabetismo e iliteracia do continente, impenitente pelo conservadorismo serôdio, esbanjador das verdadeiras tradições que o fizeram distinto das demais nações, mal governado, privado de um projecto colectivo agregador das remanescentes energias, está, tudo o indica, a viver os últimos anos de uma certa ideia de nação, pátria, Estado e soberania legados pelo século XIX.
A alteração mágica, ditada pela mudança do regime ou sistema – ou do regime e do sistema – não alteraria significativamente o quadro recessivo, antes o poderia precipitar. Os republicanos de 1910 tentaram-no e fracassaram. O regime que sobreveio ao 28 de Maio tampouco o conseguiu, dado o fim trágico que demonstrou a sua notória falta de vontade. O regime actual, esse vai arrastando a penosa incapacidade – a que se juntam, em grotesco frenesim de corrupção, demissão cívica e cobardia – por veredas de clara perdição colectiva.
Não há Universidade ? Não há Forças Armadas ? Não há corpos intermédios ? Não há agentes de reacção ao esboroamento e ao cerrar de horizontes ? Onde estão os empresários, os banqueiros e os sindicatos ? E essa tão invocada reacção da “sociedade civil” ? A nosso ver, nada acontecerá até que, conscientes da iminência do desfecho fatal, os portugueses libertem essa energia escondida que sacode os povos ameaçados de desaparição.
Não tenhamos dúvidas. As mudanças, se não se fazem a partir dos homens singulares, nunca acontecerão. Quanto muito, as mudanças violentas da ordem institucional criam a ficção de um novo renascimento. As elites chegadas ao poder por via de levantamentos e revoluções geram mitos e terminam vítimas do aplauso, da retórica e da ilusão que criaram. As pessoas comuns, por seu turno – aquelas que não falam, não exprimem, não ousam pensar – guardam no recesso da sua inofensiva cobardia o prazer compensatório de ver subir e precipitarem-se os regimes e os sistemas que vivem, sempre, para além da sua cabeça.
Que soluções se poderão descortinar ? Que meios e que ideias estarão ainda vivos para permitir um renovo ? Difícil a resposta, porquanto, por mais que tentemos, as respostas surgem-nos contraditórias. Este povo é um verdadeiro prodígio de sobrevivência. Temos uma cultura teimosa e uma visão do mundo que persiste, mau grado o flagelamento, a desconstrução dos mitos mobilizadores e a acção persistente de tudo o que nos faz esquecer o passado. Temos a terceira língua mais falada no hemisfério ocidental, temos no Brasil a 5ª potência económica mundial, países lusófonos espalhados pelos 5 continentes. Persiste, entre os portugueses, uma feroz desconfiança em relação ao espanhol, o único adversário físico que contivemos e vencemos à custa da nossa riqueza passada. O Iberismo é claramente negado pelo português comum. Estamos na Europa, integrados nas principais instituições, onde ainda o nosso voto conta. Vencemos há dois anos a batalha pelo reconhecimento no seio da aliança ocidental, que os espanhóis cobardemente abandonaram. Temos, ainda, esse incontido sentimento de sermos maiores que a geografia que ocupamos. O nosso erro tem sido, precisamente, o de compararmos Portugal com a França, a Espanha, a Grã-Bretanha ou a Alemanha. Entre os pequenos, somos os maiores. O que deixaram a Dinamarca, a Holanda, a Bélgica, a Suécia, a Finlândia, a Irlanda ou a Suíça na história mundial ? Língua ? Literatura universalmente reconhecida ? Figuras marcantes na acção política, artística, no conhecimento ?
A grande pergunta – a decisiva e mais difícil, que Lenine apôs a um dos seus mais notáveis escritos – “o que fazer ?”, respondemos: aceitarmos o que ainda nos faz diferentes, deitar fora o que nos marca com o estigma do desajustamento.
Sigo com a maior aflição a escalada da irracionalidade que vai destruir os vestígios da dimensão universal da ideia de Portugal. Se sou sem rebuço inimigo do melting pot, da invasão migrante e da bantustização do país – Portugal europeu, lembra António Barreto, sempre foi quase homogéneo étnica, religiosa e linguisticamente – não posso deixar de avisar que a adopção de uma acção política inteiramente obcecada pelo problema da imigração transformará os portugueses noutros sérvios, noutros croatas ou noutros albaneses. A minha ideia de Portugal é bem maior.Nas múltiplas viagens que tenho feito pelo grande continente asiático, encontro marcas perduráveis da teimosia portuguesa em permanecer. O nosso nome, a nossa memória, as nossas fortalezas, igrejas, vilas e aldeias continuam a ser proferidos com respeito. Ir a Goa, a Malaca, à Ilha de Moçambique ou à Tailândia dá-me a esperança da permanência de Portugal.

Exotismos nipónicos

Kit Kat de chá verde

Palitos de melão

"Quanto em Europa são os homens amigos do doce, tanto os japões o são do salgado"
(Luís Fróis, Tratado das Contradições e Diferenças de Costumes entre a Europa e o Japão)

Falar de blogues ao jantar

Ontem tive a honra de receber dois grandes senhores pela hora de jantar. Entre camarões e satay, veio a propósito o bloguismo em que estamos envolvidos e do qual já apanhámos tiques, como quem fala de um vício escondido. É certo que nos deixamos emaranhar nesse compromisso involuntário, e quando damos por isso é-nos tão tirânico como o café e o cigarro após a refeição. Fiz as minhas escolhas, dizendo que sigo o Je Maintiandrai por afinidades electivas, não perco a saborosa prosa e erudição do Jansenista (que muitas vezes se deixa enervar desnecessariamente e até fica mauzinho), o Pasquim da Reacção pela inteligência e precocidade (caramba, ainda faz surf), o Portas do Cerco (outra afinidade electiva), o Sexo dos Anjos pela austeridade o Misantropo Enjaulado (que soa a periódico do séc. XIX e até oferece uma pinacoteca diária) e o Insurgente, o meu jornal diário. De mais não tivemos oportunidade de falar, pois a hora ia adiantada e os dois visiteurs du soir tinham de preparar as malas para uma viagem ao hemisfério das mangas, do leite de coco e das raparigas de cabelos luzidios. Resta-me olhar para a minha coluna de preferidos e saber o que vão escrevendo. O Pedro Guedes anda ausente, a Miss Pearls etérea, a Arte da Fuga mais silenciosa, A Corneta do Diabo muda, o Portugal Contemporâneo intermitente e o Buiça pouco comunicador. Acordem e produzam, sff...

28 março 2006

Outro irmão exíguo: S. Tomé e Príncipe


Área: 1.001 km2 ( metade do distrito de Lisboa)
População: 180.000 habitantes (metade da população de Odivelas)
Ajuda portuguesa: formação de quadros (militares, policiais, jurídicos, saúde, informação, documentação, gestão e administração), comunicação social e telecomunicações, rede sanitária, turismo, forças armadas e ordem pública, rede portuária e aeroportuária...
Um Estado em tais condições - vivendo quase exclusivamente da cooperação, mais algumas receitas da emigração, do turismo, das monoculturas do cacau e café e do pagamento do favor de reconhecer Taiwan como estado soberano - muito lucraria com a integração. Questões para a diplomacia portuguesa !

Ainda a propósito da união Portugal / Cabo-Verde

Perdoe-me o Dr. Olindo Iglésias o abuso da transcrição integral do mail que teve a gentileza de enviar, pois exprime com limpidez aquilo que se me tornaria dispendioso dizer por outras palavras. Resume, com toda a frontalidade aquilo que muitos aceitam e do qual pouco falam. Agora, chegou a altura de repetir, repetir, repetir até que alguém nos ouça.
MCB
"Caro Miguel Castelo-Branco,
Achei muito interessante o seu breve texto sobre a proposta de fazer de Cabo Verde um Estado associado de Portugal, tornando assim este país numa região ultra-periférica da UE. Bem negociado seria uma situação win-win para ambos os países. Esta ideia já existe há alguns anos, mas que eu saiba, ainda não foi seriamente comentada por ninguém. Talvez alguns por complexos ou fantasmas do passado, outros (talvez a maioria) por não estarem ao serviço da Nação, mas do seu próprio bolso. Com a devida licença vou introduzir no nosso blogue um link para o seu escrito. Como exercício interessante fica o desafio para que em conjunto possamos procurar mais referências sobre este assunto e escrever mais sobreo mesmo. Se outra coisa não conseguirmos pelo menos fica a tentativa e a esperança que as pessoas se apercebam que na vida dos países, como na vida das pessoas, nada está predestinado e que há caminhos alternativos. Tudo depende de nós. Cumprimentos,
Olindo Iglesias"

O papá almirante


"O pai acaba de passar à reserva. Um verdadeiro herói, carregado de medalhas. Olhe para esta: Cruz de Guerra. Olhe para esta: Medalha de Valor Militar. Olhe, outra: Medalha de Mério Militar. Está a ver, um grande homem. Fica para a história". Olhei para a fotografia: um barrigudinho, três queixos, mãos pequenas, com umas salsichinhas como dedos, olhar inexpressivo em pose de Nelson. Entra a figurinha e pergunta, sem me cumprimentar: "Ó filha, onde puseram a última C[...], onde estou com os almirantes Silva Pereira, Pereira da Silva e Silva Carvalho ?". A filha virou-se para mim e disse: "está a ver, uma figura nacional". Ao sair, perguntei-lhe. Diga-me, como se chama o seu pai ? Um olhar furibundo fulminou-me de cima a baixo. "Então não sabe ? Silva Melo." Um almirante de secretária, que nunca pôs os pés numa lancha, habituado a batalhas de secretaria e ao jogo do Risko. Mais um herói candidato à Comissão Municipal de Toponímia.

27 março 2006

Ela

Só temos Odetes Santos, Ildas Figueiredos e Dragos no gineceu das politiquices ? Mandem vir mais imigrantes do Leste, por favor. Júlia Timochenko daria um bom cartaz para campanhas habituadas a mulheres tractoristas e barbudas à Brites de Almeida (padeira de Aljubarrota), que da heroína só mantêm os 8 dedos.

Alguém pode parar a estupidez dos políticos ?


Chegou-me às mãos o CD da Trégua de Natal, que narra o insólito episódio que no Natal de 1914 interrompeu as hostilidades na Frente Ocidental e permitiu a britânicos, franceses e belgas sair das trincheiras e conviver com os soldados alemães. Prova da estupidez daquela guerra maldita que destruíu a Europa, um aborto evitável que se iniciou por um acaso idiota e terminou em tragédia para uma geração, vem demonstrar que a unidade da Europa se edificara há muito, não obstante o reducionismo nacionalista alimentado por políticos irresponsáveis. A Grande Guerra desfez os impérios aquietadores dos conflitos (Habsburgos, Romanov, Hohenzollern, Sublime Porta), trouxe a praga comunista, o poder da rua dos saltimbancos demagogos, desfez hierarquias e certezas e preparou a Segunda Guerra ao humilhar estupidamente a Alemanha. Depois dela, a Europa perdeu a inocência. Responsáveis ? Todos os decisores, políticos, militares e diplomatas. Vítimas ? 13 milhões de europeus mortos e 20 milhões de estropiados. Razão para a guerra ? O romantismo da acção, a riqueza e a rotina. Chega para compreender a dimensão dessa loucura ? Sim, se tivermos pelos políticos menor reverência.

Cabo Verde: reunião com Portugal


Foi sem assombro que ontem, à volta da mesa, fui confrontado com uma certeza que alimento há mais de duas décadas: os caboverdianos - com exclusão de um pequeno grupo de privilegiados barricados na lei de ouro do monopólio dos cargos públicos - aceitam, sem grande emoção, a ideia de uma ligação constitucional a Portugal. Quando, em 1985, fiz tal proposta em nome da Nova Monarquia, fui liminarmente tomado por neo-colonialista, nostálgico, "pretista" e outros mimos habitualmente atirados pelos ultras do abrilismo descolonizador e pelo "bunker" da direita tribalista. Ao longo dos anos tal possibilidade voltar-se-ia a colocar em conversas com o Professor Adriano Moreira, com o embaixador José Aparecido de Oliveira (mentor da CPLP) e com quadros portugueses com experiência na cooperação e longas estadias na Praia. Cabo-Verde só geograficamente pertence ao continente africano. É integralmente um produto português, com origem matricial nas experiências colonizadoras da Madeira e Açores e antecedente imediato da construção do Brasil colonial. Habituámo-nos à ideia peregrina dos idos de 70 da irreversibilidade do processo histórico da descolonização. Hoje, pensa-se de forma diversa, tanto mais que o velho modelo colonial morreu e surgem formas novas de soberania partilhada que carreiam esperanças para estados exíguos. Cabo Verde, dotado de governo e assembleia representativa - e até mesmo de chefe de Estado - poderia constituir-se em Estado associado a Portugal com o invejável estatuto de região ultraperiférica da União. Haverá por aí um partido político com coragem para avançar com a proposta ?