25 março 2006

Fanatismos

O fanatismo saído da racionalidade, que rima com ideologia, é tão letal como o fanatismo saído da irracionalidade, que rima com religião. Se o Corão - o livro que mais livros queimou, de Alexandria a Córdova - mais a Bíblia e a Torah se têm encarniçado desde há 2500 anos por demonstrar ao homem a sua insignificância - e disso já Nietzsche falou porfiadamente, escavando até ao osso - a tara ideológica assume a empresa da alienação socorrendo-se da racionalidade para justificar a pequenez, a relatividade dos indivíduos e a justificação para todas as agressões, mutilações e infelicidades executadas contra os homens concretos. Custa-me viver em meios ideologizados, pois não sei se estou a falar com pessoas, se me relaciono com tipos, médiuns e mandatários de abstracções. Dei comigo a pensar no assunto (que faria as delícias de Voltaire, de Rudolf Gellner e Vaneigem) enquanto ontem, num jantar, se esgrimiam um liberal e um marxista. Tudo teoria, frases feitas, citações. Aqueles dois borrachos só leram, nunca viveram. Vivem obcecados com a coerência. No dia em que acordarem do sono ideológico viverão mais livremente. Por enquanto, não passam de médiuns.

24 março 2006

Lembrando um dos maiores luso-indianos


Passam este mês 140 anos sobre a publicação da mais exuberante obra literária escrita na Índia Portuguesa, Os Brâmanes, da autoria do infelizmente tão pouco lido e quase não estudado Francisco Luís Gomes. Tenho a sorte de possuir um exemplar da obra, que só conheceria reedição em 1996 e que constitui, para além da trama romanesca, uma tese e uma reflexão interessantíssima sobre o regime de castas na India. Recomendo vivamente a leitura, pois ultrapassa largamente todas as expectativas, para além de emular a literatura britânica vertida sobre o "exotismo" colonial do Raj britânico. Médico, político e tratadista reconhecido como dos mais relevantes do seu tempo - Stuart Mill rendeu-lhe público reconhecimento - Luís Gomes é mais um exemplo dessa estirpe de grandes portugueses originários das parcelas do império - entre António Sérgio e Almada Negreiros - que importa lembrar para manter viva a ideia de um Portugal derramado pelas sete partidas do mundo.

217 anos de guerra civil ou os malefícios da politização

A "crise francesa" é um estado crónico e agónico. Os franceses malbarataram mil uma oportunidades históricas, esbanjando energia em lutas fratricidas enquanto a Grã-Bretanha e a Germânia se iam reforçando. Povo dotado de uma hiper-excitação nervosa quase histérica, faladores inveterados e polemistas fervorosos, os franceses estão em guerra civil larvar desde 1789: revolução, monarquia de Julho (1830), barricadas de 1848, comuna de Paris (1871), dreyfusards v. anti-dreyfusards, camelots du roi v. metecos, "collabos" v. "resistentes, pró-Argélia Francesa v. pró-independentistas, gaulistas v. soissante-huitards, lepenistas v. emigracionistas e agora chupistas v. anti-estatistas. A coisa não encontra remédio. Não se trata de discutir, é claro, o "modelo social francês", coisa que não existe nem nunca existiu senão na cabeça dos franceses, que ainda se julgam o centro do mundo. Não, a questão é outra. A politização extrema transforma as pessoas, irracionaliza-as. Quando a paixão toma de assalto a inteligência, cai-se na balbúrdia francesa. A França, para curar o mal, socorre-se de espadas: Napoleão Bonaparte, Luís Bonaparte, Bazaine, Mac-Mahon, Boulanger, Philippe Pétain, De Gaulle. Creio que a espada está, neste momento, nas mãos de Sarcossi. O nome soa a italiano (ou a Corso). Como disse Gustave Thibon, a França fez a revolução com as ideias de um genebrino (Rosseau) e salvou-se com a energia de um corso.

23 março 2006

Akira Kurosawa

Um dos meus criadores favoritos nasceu faz hoje 96 anos. Pouco amado pelos nipónicos - que lhe censuravam a extrema xenofilia - Kurosawa nunca foi, ao contrário do que dizem as más-línguas nacionalistas do Japão, "um japonês com alma de ocidental". Para quem teve a oportunidade de ver Sanshiro Sugata (1943), A Mais Bela e Saga do Judo - peças de encomenda do esforço de propaganda dos anos de guerra, é certo, mas obras-primas reveladoras do potencial do mestre - não lhe poderá negar a genuinidade do carácter retintamente japonês, o amor profundo e comunhão com a alma do Dai Nippon ameaçada de morte pelo triunfo anunciado do americanismo. A minha paixão por Kurosawa é alimentada, sobretudo, por uma aspiração estética e moral que não se encontra senão com extremos de decifração na filmografia europeia. A serenidade aristocrática, pintalgada pelo sangue de uns quantos bravos, é o retrato da estirpe superior desse povo que só sorri na dor e só chora na alegria.

As brumas e a voz

Agora vejo lampejos na escuridão. Uma trovoada, uma aurora boreal, uns meteoritos riscando o negrume. Mas as vozes parecem-me diferentes: são ecos do carácter. Uma voz metálica e nervosa, exprimindo a acidez, impaciência e irritabilidade de um fura-vidas. Uma voz quente e pausada, sopro de uma vida interior e da sabedoria de quem já nada espera. Uma voz insinuante e erótica, como a da sereia. Uma voz fanhosa, enfadada e pretenciosa, que deve rimar com os adamanes de quem serve. A televisão debita programa sobre programa para os meus ouvidos atentos. Hitler grita disparates grosseiros com o encanto de uma flauta mágica: um chorrilho de banalidades de cervejaria com uma maestria de Merlim. A seguir sai-me o Saramago: voz impante, tresandando de falsa modéstia, quase seminarista, passando cheque careca sobre cheque careca de erudição postiça. "Zapingo"meia dúzia de canais e ouço Soares, numa entrevista que dato dos anos 80. Uma torrente de lugares-comuns num deserto de ideias. Enfastiado, detenho a atenção na locução de uma dessas americanices sobre viagens. A mulher tresanda a estupidez por todos os poros. Ora, se a linguagem serve para isto, melhor seria termos nascido sem língua.

22 março 2006

Imerso na escuridão


A biologia prega-nos grandes partidas. Ontem acordei no escuro, completamente cego. Fui ao médico e foi-me diagnosticada uma doença ocular. Depois de um dia nas trevas, fico com redobrada admiração por Homero, Castilho e Camilo. Como o velho Goethe, só peço... mehr Licht ! Hoje não tenho forças para exercícios de estilo. Volto amanhã, se a bruma se dissipar. Entretanto, resta-me ouvir a boa música que vai correndo pelos blogues nostálgicos.

20 março 2006

Kill, kill, kill

Fontes dignas de crédito informam-me que começou a matança de "espécies perigosas" na cidade de Lisboa. O novo bode expiatório são as aves, encaradas como ameaça para a sobrevivência da adorável espécie humana, feita à imagem do Criador. Lá se foram as poetices e eis que se revela o predador que vive sob a película da civilização. É tudo uma questão de tempo, local e oportunidade. A histeria colectiva que se apoderou de alguns países faz esquecer que os carros, o álcool e as drogas matam um milhão de vezes mais pessoas por ano que a "gripe das aves", mas para essas não há alarme: são estudadas por sociólogos, médicos, juristas e por uma vasta panóplia de ONG's bem subsidiadas.

Vésperas sicilianas

As guerras no CDS - agora pudicamente menos PP, não vá o Desejado querer voltar - estão a assumir proporções dignas de crónica PDC anos 80. Ali não há ideias: há azedumes, rixas, caprichos e birras. Ali não há desinteligências estratégicas: há campanários, cepas a defender, enxadas e gadanhas em riste. Excepção feita a Telmo Correia, Anacoreta Correia, Mª José N. Pinto e Pires de Lima, dir-se-ia ter-se o CDS estatelado no amadorismo de um pequeno movimento extra-parlamentar, desses centos que nascem com as primeiras chuvas e não chegam ao verão. A prestação do grupo parlamentar é insignificante, como insignificante é - ou parece ser, pela ausência e vacuidade - a direcção nacional. É pena. Sabemos que não há Adrianos Moreira e Paulos Portas em todas as esquinas. O CDS desperdiçou-os. Eram maiores que o partido. Se Adriano tentou - sabe-se com quanto sacrifício - dar lastro ideológico ao partido do rigorosamente ao centro, Paulo Portas - sem dúvida o melhor orador político das últimas décadas - deu-lhe vida, militância e notoriedade. Encontrei ontem uma velha amiga, militante desde sempre do partido do Caldas. Disse-me, com uma sombra na voz, que tudo "acabou quando Portas decidiu sair". Não, Paulo Portas está em Elba, a poucas milhas da costa. Numa manhã, o Desejado, com meia dúzia de granadeiros, desembarcará e terá a seus pés o exército que tantas lutas travou pela manutenção de uma direita parlamentar aguerrida, aplaudida e detestada. Só que desta vez não haverá mais abdicações.