17 março 2006

Inspiração para o "endireita" Oliveira Martins

Lembrando Otto von Bismarck, o menos bem-vindo dos turistas que em Versallhes pernoitou.

"Kaisersjager Marsch"

40 anos

Lembro-me ver aquela sardenta a saltar de um lado para o outro com uns malotes pavorosos, seguida por uma multidão de crianças vestidas com cortinados e um marujo dos Alpes (?) babado. Agora ouço, e gosto. É um "clássico".

Estado emprega-todos: coragem governamental

Está a dar as últimas a piedosa ideia segundo a qual cabe ao Estado dar emprego a quem não consegue emprego. O governo teve a coragem de meter o dedo na ferida purulenta do mito empregacionista. Há desemprego ? Há conventos para demolir ? O governo contrata 3000 camarteleiros e destrói-se Santarém, Beja e Tomar. Foi assim no século XIX. Coimbra tem problemas crónicos de desocupação ? Destruindo os coleginhos renascentistas, para sobre eles erigir o mamarracho universitário conimbricense, deu-se emprego a uns centos. Foi assim o século XX. O Estado deve fiscalizar, deve zelar pelo cumprimento das leis, deve ser agente subsidiário em tudo o que implica segurança e direitos, mas não deve ser o hospital, a central telefónica, a água da torneira, a gasolina do autocarro, o bate-chapas da viatura amolgada, a fotocopiadora, o padeiro ou a farmácia. Dar liberdade às pessoas implica que estas se libertem do Estado e este da pedinchice.

Carácter e opções políticas


Sou um intuitivo e sempre cismei que as pessoas vão à procura daquilo que são. As opções políticas - como as filosóficas e as religiosas - estão no carácter antes de estarem no tempo, nas experiências e nos tratados. Tenho travado conhecimento com milhares de pessoas e tomo por adquirido o facto de um comunista, um nazi, um liberal ou um conservador o serem, não por acidente, mas por essência, ou seja, por algo sem o qual não poderiam deixar de ser o que são. Na decantação desta certeza deixei-me de sociologices à Fromm ou W. Reich - a velha ladainha freudo-marxista - e tentei compreender o demónio (na acepção grega) que cada pessoa transporta. Fiquei varado quando encontrei a resposta. É a John Gray - mais que Konrad Lorenz, que situava o problema numa ancestralidade animal - que devo a ousadia de trespassar a velha arrogância filosófica de pensar o tema das ideias para o homem e não vice-versa. O mundo não tem remédio pois os homens são os mesmos desde Lascaux do sílex lascado. Estamos condenados a repetir as tragédias, os erros e violências porque estas estão dentro de nós antes de dominarem a atmosfera em que vivemos.
Um comunista de hoje teria sido um jacobino sob o Terror, um lolardo no século XV, um seguidor dos irmãos Gracos na Roma do século II a.C. ou um sequaz de Akenathon. O paraíso ao alcance da mão, o culto da violência justa e necessária, a aversão pela superioridade, o despeito pela propriedade alheia e pelas diferenças, a anulação da individualidade e o refúgio aconchegante na responsabilidade partilhada caracterizam a psique desta gente. Naturalmente que o enquadramento civilizacional e epocal exercem grande influência no partejamento das mundivisões (um "comunista" polinésio será diferente de um "lolardo" khmer ou de um Graco iraniano) mas a matéria prima é a mesma. Afinal, a personalidade dita as opções, aclimata-as e introduz a necessária racionalidade situada. Há, nas várias tipologias tentadas pelos psicólogos, a percepção da universalidade dos tipos psicológicos que têm origem nos quatro elementos presentes em todas as culturas (ar, água, fogo e terra). Dos Gregos a Jung adaptou-se a fórmula e distribuiu-se a espécie entre coléricos, fleumáticos, biliosos e sanguíneos.
O que faz um menino rico, educado e ocioso impacientar-se e transformar-se num Che, num Fidel, num Cunhal ou num Berlinguer ? O carácter. O que faz um pobre rapaz, marginalizado e subnutrido transformar-se em liberal ou conservador ? O carácter. Em breve voltaremos ao problema.

16 março 2006

Josephine Baker e a Barateira

Evoca hoje Je Maintiendrai a petite tonkinoise, inicialmente cantada por Mistanguette - quem ainda a ouve ? - mas popularizada por Josephine Baker, a diva negra que causou furor pelos palcos europeus nos anos 30, com coleccionadores de sensações fortes literalmente "abananados" pelo furor genésico e exótico da endiabrada dançarina. Mas o que muitos não sabem é que Josephine era um agente da espionagem de De Gaulle. A coberto das tournées que realizou em 1941 e 42, desenvolveu intensa actividade de pombo-correio, tendo mesmo chegado a encontrar-se em Lisboa com Jean Moulin - coordenador da Resistência francesa - na nossa conhecida Livraria Barateira. Aí, naquela sala do fundo, JB recebeu de Moulin documentação destinada à rede gaulista que operava na África do Norte Francesa. Para quem passar pela velha Barateira, recomendo um momento de recolhimento. Quem sabe se não ouvirá o eco da voz que eternizou o "J'ai deux amours / Mon pays et Paris / Par eux toujours /Mon coeur est ravi / Ma savane est belle, / Mais à quoi bon le nier / Ce qui m'ensorcelle / C'est Paris tout entier / Le voir un jour / C'est mon rêve joli / J'ai deux amours / Mon pays et Paris (...) ".

15 março 2006

Império europeu

Entre o império e o clã, a história das entidades políticas colectivas parece ter fixado na ideia de nação o justo equilíbrio em que massa crítica, cidadania e funções e serviços prestados pelo Estado melhor se adequam às necessidades e interesses dos indivíduos. Finley mostrou-o no que respeita à Antiguidade, Foustel de Coulanges quase o demonstrou na Cidade Antiga - que não era cidade na dimensão urbana actual, mas território dimensionado à escala da prática das liberdades de uma comunidade - e Jaeger exaltou-o como o cânone óptimo. As cidades-estado e respectiva cultura urbana de participação floresceram do Indo (Mohenjodaro) à Babilónia, da Atenas democrática à megálê rhétra (Esparta), da Roma primitiva à Cartago anterior aos Barca. Os impérios antigos trouxeram o autoritarismo, o discricionarismo e o afastamento entre os homens e o poder, cada vez mais enroupado em abstracções, como lembraram, avisados, Cassier e Raymond Boudon.
No mundo moderno, a fórmula mais praticada é (ou foi até há muito pouco tempo), a do Estado-nação. Hoje, muitos tratadistas afirmam que o Estado nação não resiste à dinâmica e necessidades das comunidades interdependentes, nem tão pouco à globalização. Parece haver aqui uma contradição flagrante. Se se pede maior dinamismo e capacidade, optemos pela ideia de Império. Porém, os impérios são liberticidas por necessidade. Se se pede maior autenticidade e aprofundamento da vida pública, optemos pelas entidades micropolíticas. Estas serão, fatalmente, mais pobres. A Europa pretende unir-se ! Mas o que quer dizer, neste particular, a união? A União Europeia apenas trata de se adaptar para sobreviver à concorrência de espaços imperiais consolidados por séculos de acção de Estados codificadores (EUA, China). Para tal, foi ao passado alemão ( a locomotiva do continente) e reeditou a ideia de confederação germânica, imediata antecessora do II Reich alemão. Há uma fatalidade imperial por detrás do projecto europeu. No passado, tais desígnios foram tentados manu militari por Napoleão ou Hitler. Falharam. Hoje, pretende-se unir sem vitória. Tenho para mim que tal união jamais se venha a realizar.

Humberto voltou livre

Assinalo com agrado o regresso do Dr. Humberto Nuno Oliveira à blogosfera, agora mais solto da disciplina partidária, logo mais Humberto Nuno. Mau grado todas as desinteligências e conflitos de perspectiva, não posso deixar de lhe expressar toda a simpatia e êxito na tribuna que acaba de lançar.

Cem mil portugueses "fundamentais": e se Fernando Pessoa não fosse vacinado ?


Levantou-se esperado alvoroço público com o anúncio da existência de uma relação de 100.000 portugueses tidos por "fundamentais"; logo, merecedores de cuidados profiláticos em iminência de surto epidémico. Invoca-se, com assomos de indignação, a igualdade constitucional no cortejo de argumentos metafísicos e jusnaturalistas para exprobar a decisão da Direcção Geral de Saúde. Fiel às minhas convicções, não posso deixar de aplaudir a decisão in abstracto, porquanto não conheço por ora a que categorias se refere tal adjectivo. Se por "fundamental" entende-se futebolistas, classe política, jornalistas e entertainers da tv, mais vip's das revistas do coração, recuso a bondade da decisão. As pessoas são iguais perante a lei, mas não são iguais em talante, mérito e utilidade social. Para acalmar os mais desavisados tenho a informar que não sou adepto da eutanásia para deficientes profundos, doentes terminais, idosos e demais grupos improdutivos, nem julgo que seja obrigação do Estado tratar de instâncias que remetem para a dedifração de problemas ontológicos que encontram sede apropriada na Filosofia e na religião. Agora, é-me impossível aceitar o argumento de que, em situação de tragédia, as pessoas são todas iguais. Discordo. Se Maquiavel, Miguel Ângelo, Leonardo, Descartes, Hobbes ou Galileu tivessem sido colhido pela peste, o curso da história teria sido o mesmo ? Se Fernando Pessoa tivesse morrido em 1918, vítima da Gripe Espanhola, seria a nossa literatura a mesma ? Nestas coisas de escolher entre amigos e desconhecidos, temos sempre a tentação de optar pelos ditames do Teodoro de O Mandarim: uma perna partida no segundo andar esquerdo é bem mais trágica que um sismo na distante China. Salvem, por favor, os cientistas, os escritores, os músicos, os artistas plásticos, os médicos, enfermeiros, bombeiros e polícias e deixem-me morrer descansado.

14 março 2006

NIMM UNS MIT KAPITÄN AUF DIE REISE

Budismo e capitalismo

A contestação sobe no país dos sorrisos. O primeiro-ministro tailandês Taksin Shinawatra, o homem mais rico do sudeste-asiático, pertencente à opulenta minoria chinesa e apostado em introduzir profundas reformas no sistema económico, trouxe hoje às ruas de Banguecoque uma mole humana descontente com o curso das políticas da sua governação, um misto contraditório de ultraliberalismo desejado com neo-keynesianismo de processo. Taksin apresenta contradições claras, somente compreensíveis no quadro da sociedade tailandesa. Por um lado, ensaia políticas de protecção social aos mais desfavorecidos - comparticipação do Estado na prestação de cuidados médicos, aplicação do regime de reformas e aposentação, investimentos infraestruturais e política de rendas - enfatizando a responsabilização dos cidadãos no cumprimento das suas obrigações fiscais, facto inédito num país em que a fuga aos impostos assume proporções inimagináveis para a sensibilidade ocidental. Os grandes interesses e os detentores de fortunas nunca tributadas acusam-no de "demagogia" e "populismo". Por outro lado, estruturou uma vasta rede de clientes e favoreceu notoriamente a sua vasta parentela em negócios e concursos públicos de adjudicação de obras públicas. A corrupção, um flagelo na Ásia, vive com Taksin em plena concordância com as características do meio. Como multimilionário, tende a confundir o Estado com os seus interesses patrimoniais, mas não o move um intuito claro de enriquecer à custa da função que ocupa, dado ser o maior contribuinte e o maior empregador do país; logo, o mais prejudicado pelas políticas que está a implementar. Taksim tem um sonho: o de transformar a Tailândia numa nova Coreia do Sul, um país industrail, moderno, high tech e respeitado na arena internacional. Lembra, mutatis mutandis, o discurso desenvolvimentista de Cavaco nos anos 80: primazia aos negócios, iniciativa privada, captação de capitais estrangeiros, mudança de mentalidades e modernização.
Porém, a revolução que está a liderar encontra grandes resistências. Os tailandeses querem ser tailandeses e não americanos. País profundamente alicerçado sobre o budismo, onde a família, a tradição e a hierarquia são acatados tão naturalmente como o ar que se respira, a Tailândia recusa o ar americano do bilionário. A tradição recente do país compatibiliza-se mais com proteccionismo, paternalismo, poder militar e acomodação. A democracia, nos termos em que o budismo envolvente predica, é um misto de suave reformismo e manutenção das arquitraves de uma sociedade autoritária. Os partidos políticos são clubes fechados de familias, homens ricos e aristocratas que acharam por bem acompanhar, não abusando, o culto universal do regime representativo. Estou certo que Taksin não poderá resistir por muito mais tempo no poder. Os tailandeses querem continuar tailandeses.

13 março 2006

A piolheirice


Garrafões desgrenhados, camisolões listados cheios de borboto até meio das pernas, brincos, piercings e tatuagens, crinas pintadas, chinelas e sapatilhas surradas pedindo bicarbonato de sódio, barba de cadastrados a monte, mulheres arrafeiradas envoltas em Kefia comprados nas tendas de Hand Craft, pedras, matracas, cocktails molotov, boinas bascas com o inefável Che, odor fétido a axilas não depiladas e halitose metífica constroem o retrato-robot dessa turbamulta impune que queima, vandaliza e agride os policias, os verdadeiros filhos do povo. A extrema-esquerda, com aquele culto da violência adubado com o incentivo de uma cultura de "legitima indignação", está em franca ascensão na Europa. Anteontem em Paris e Milão, amanhã talvez em Lisboa. Não há um governante decidido que faça cumprir a lei, a segurança e o respeito pelos cidadãos e pela propriedade ? Quanto tempo mais terão os nossos governantes para decidir o tratamento correspondente a quem faz das leis tábua-rasa, semeia o caos e convida a "maioria silenciosa" a exigir medidas securitárias ? É assim que morrem as democracias e surgem os candidatos a ditadores.

Ângulos mortos da história

O tema, quase proibitivo, aflora envergonhado de quando em vez nas milhares de obras consagradas a essa guerra civil que marcou a refundação dos EUA. Pondo de parte a mitologia sulista que encontramos no Birth of a Nation (1915), de DW Griffith, ou no Gone with the Wind (1939), de Victor Fleming, a luta entre o Sul e o Norte não foi, decididamente, o choque entre o esclavagismo e a democracia, mas o embate entre dois mundos irreconciliáveis, duas ideias opostas de soberania e dois futuríveis do destino da América do Norte. O petit détail da libertação dos escravos negros nunca marcou a agenda federal e Lincoln, hoje quase um santo laico, tinha sobre os negros opiniões impublicáveis, que contrastam com a negrofilia de muitos líderes sulistas. Acabo de ler Civil War High Commands, de John e David Eicher e fico a saber que o Sul decretou em Março de 1865 - pouco antes do desenlace da guerra - a criação de um "exército negro da Confederação". Espantoso, não é ? Habituada a dicotomias - luz-trevas; bem-mal; belo-feio - a nossa inteligência sente-se ridicularizada e enganada quando confrontada com contradições destas. Lembro, contrariando a bela mentira, os 800.000 portugueses "continentais" que terão lutado em África em defesa da soberania portuguesa. Ora, desses 800.000, metade dos efectivos eram de conscrição local: negros, mulatos e brancos naturais de Angola e Moçambique. Ainda me lembro do Augusto Matavele, empregado em minha casa, quando um dia apareceu-nos fardado e orgulhoso dizendo que era um "soldado de Portugal".

Decadência da ideia de decadência

Para os que persistem na estafadíssima tese da "decadência" das artes, Ron Mueck encarrega-se de demonstrar o triunfo da criatividade sem esbanjar o talento no anartismo, na banal provocação ou no capitalismo galerista.

12 março 2006

Je m'en fou

Quero lá saber que o cidadão Sampaio tenha voltado ontem à faena dos futebóis; quero lá saber que na Madeira se tenha propagado uma jacquerie pelo mau resultado dos futebóis locais; quero lá saber que uma carrinha com futebolistas de "15 anos" tenha tido um percalço que terminou nas urgências, com o habitual estendal de gritos e voyeurismo sopeiral; quero lá saber que numa paróquia das berças o pároco seja alvo da ira divina do povo-sábio; quero lá saber que uma junta de freguesia tenha iniciado uma campanha de prevenção contra o perigo da gripe das aves. Abri a televisão às 13, esperando algo de relevante. 13.10, 13.20, 13.35, nada. Futebol, acidentes, pontes e postes com fissuras, bigodudos e matronas com a lágrima no canto do olho, uma incursão a um almoço do CDS/PP lembrando as guerrinhas do defunto PDC, um almoço de velhotes do PC e nada. Mudei para a TVE: crise nuclear do Irão, morte de Milosevic, Milão a ferro-e-fogo, evocação do 11 de Março - não nosso, que foi mais uma palhaçada trágica que um acontecimento - e um interesante apontamento sobre receptação de obras de arte no circuitos dos antiquários. Estamos cada vez mais regionalizados, cada vez mais rendidos à tentação localista de uma provincia de Espanha.