10 março 2006

Lusotopias

"Eles têm uma grande vontade de terem os portugueses junto deles. A par das imagens religiosas, a bandeira portuguesa para eles é uma coisa sagrada. Nem a sombra da bandeira portuguesa eles pisam."
(Daniel Catalão, jornalista da RTP, in A Voz do Nordeste)

Pátria

Para O Portas do Cerco, o Euro-Ultramarino , o Último Reduto , Je Maintiendrai e todos aqueles que entendem Portugal como uma Potência Histórica e o patriotismo como expressão de generosidade.

"Pátria"

Converseta de selvagens

Converseta entre um catedrático de economia e um intelectual negociante com direito a coluna na imprensa diária. O registo involuntário fi-lo no decurso de um acto público:
- Então, pá, já lincaste o site que anuncia aquele cash flow fantástico para a nossa linha de investigação ?
- Sim, o cash flow statement do ano passado também lá estava. Tá tudo ok. Ok, não é ?
- Porreiro, os gajos abriram-se finalmente a agora vamos pedir uma joint venture com os americanos da [...] . O net income é brutal. Vai haver massa para todos.
Desliguei. Não sei do que falavam. Pela forma pareceu-me mais um diálogo de mafiosos. É a gente desta que estamos, infelizmente, entregues.

09 março 2006

Lourenço Marques e Maputo

Fui ontem entrevistado por uma estação de rádio a propósito da profissão que exerço. A jornalista, que me pareceu excelente, competente e bem informada, mostrou-se algo perplexa quando, por duas ocasiões, referindo-me às origens coloniais que orgulhosamente cultivo, chamei Lourenço Marques a Maputo. "Lourenço Marques ? Ah, sim, Maputo", a que respondi, "não, Lourenço Marques". Tenho amigos alemães, cujas famílias foram expulsas da capital da Prússia Oriental, que insistem em chamar Königsberg a "Kaliningrad". Outros alemães haverá que, com propriedade e razões que só o coração conhece, chamarão Dantzig a Gdańsk, Stettin a Szczecin, Karlsbad a Karlovy Vary. Italianos, na mesma condição de refugiados, persistem em chamar Fiume a Rijeka, Zara a Zadar e Pola a Pula. As cidades não são as mesmas quando o povo que nelas habita se muda por força das tragédias da história. Lourenço Marques era a capital da África Oriental Portuguesa, uma cidade colonial dotada de uma memória, de ritmos e estruturas sociais, políticas, culturais e económicas bem definidas. Depois, subitamente, tudo aluiu. Perdemos a nossa cidade, as nossas casas e monumentos, as ruas mudaram de nome, os antigos moradores esfumaram-se, desagregaram-se as malhas familiares, os amigos, os vizinhos perderam-se. Até os meus queridos cães e gatos tiveram de ser abandonados. Aquela Maputo a que se referia a simpática jornalista não existe: é-me tão familiar como Bujumbura, Kigali, Menongue, Ondjiva, Pemba ou Lichinga...
Lourenço Marques ainda existe, mas no recesso da nossa memória de espoliados. Vive na saudade, nas conversas e na dor de uma terra que era nossa - onde nasceram três gerações dos nossos - e que se eclipsou. Sei que poucos compreenderão o que estou a dizer. Talvez se um dia Lisboa mudasse de nome e de habitantes pudessem sentir o que sinto há 30 anos ! Ontem, a estátua de Mouzinho dominava a grande praça central. Hoje deve lá estar talvez o Gungunhana. Tudo mudou. Não devo voltar.

08 março 2006

"Imperador" NAT


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Du bist nicht die Erste



Du bist nicht die Erste, du mußt schon verzeih'n. Aber meine Letzte, die könntest Du sein. Du hast den gewissen Zauber, der ins Blut geht wie der Sekt - den geheimnisvollen Zauber, der die tollsten Wünsche weckt. Du bist nicht dier Erste, du mußt schon verzeih'n. Aber meine Letzte, die koenntest Du sein. Mit den andern Frau'n war mein Herz nie vermählt. Da bist Du die Erste, die Erste die zählt. Die Erste, die zählt!

Três leituras indispensáveis

A série Genealogia do Matadouro, no Dragoscópio. Ler, também, a deliciosa conta-corrente de José Adelino Maltez no Sobre o Tempo que Passa e, ainda, Dos Livros e das Mulheres, no BOS, onde se prova o divórcio entre a vida e a Filosofia.

07 março 2006

Lembrando Alçada Baptista

"Cada um é, a partir dos 30 anos, responsável pela cara que tem"
(António Alçada Baptista)

A galeria dos ilustríssimos presidentes acrescentou ontem mais uma retrato ao friso de genialidades com que a República tem brindado o país desde 1910. A Paula Rego é uma grande artista, provocadora, excessiva, incómoda e brutal. É um verdadeiro Freud de paleta em riste. Ontem ganhou mais pontos na minha consideração. Aquele retrato é um instantâneo. Palavras para quê ? Nem Goya se sairia tão bem.

Kino



"Was eine Frau im Frühling träumt
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1942, "Wenn ein Junger Mann kommt"

06 março 2006

Ondas hertzianas



"J'attendrai", Rina Ketty
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Um ano de Sócrates

Ninguém dava nada por ele. Era o homem da coincineração e dos duelos com Santana Lopes na arena televisiva. O PS era de Soares e parentela, mais uns velhotes endinheirados, uns soixante-huitards e meia-dúzia de soldados práticos de Macau. Num ano, Sócrates atirou Soares para o limbo, o filho-Soares para as masmorras de If, os baronetes mafiosos do norte para o esquecimento e o pesporrente consorte de Bárbara de volta para a Avenida de Berna. Com um discurso duro, pôs na ordem os alarves do jornalismo, domesticou os mesteirais do sindicalismo demagógico, silenciou as potestades corporativas de bata branca e coagiu os arrecadadores de impostos a trabalhar. O governo tem trabalhado bem: diz-me uma amiga envolvida na política de difusão dos produtos nacionais no estrangeiro que temos participado em todas as grandes feiras internacionais. Resultado automático: as exportações aumentaram. A atracção de investimentos está a ter sucesso. Ora, se tudo continuar assim, Sócrates vai ficar por mais 4 anos. Sorte tremenda a de encontrar um ciclo económico auspicioso, sorte por ter como líderes da oposição Mendes & Castro. Mas, o mais importante, o de ter assumido integralmente as funções e, sem titubeios, dizer que não recebe ordens. O homem é autoritário, casmurro, desagradável por vezes, fala aos berros e não ouve, mas ninguém pode recusar a evidência de ser o primeiro primeiro-ministro que temos desde Cavaco.

Silone informador da OVRA fascista


Sabe-se hoje, com pormenores que ultrapassam quaisquer dúvidas, que Secondo Tranquilli - conhecido literariamente por Ignazio Silone - foi informador da OVRA, a polícia política de Mussolini. Confesso, sem grande euforia, que da leitura de uma das suas últimas obras - L'avventura di un povero cristiano - havia pressentido uma dor pessoal (autobiográfica)que se alojara no recesso da consciência do escritor. Agora, com a leitura de Silone: la doppia vita di un italiano , de Dario Biocca, fica tudo claro. O autor de La scuola dei dittatori, Una manciata di more e Severina era um colaborador da Organizzazione di Vigilanza Repressione dell'Antifascismo. Quando um dia tivermos pleno acesso aos ficheiros da ex-PIDE/DGS sobreviventes ao sintomático roubo de que foram alvo nos dias que se seguiram ao 25 A, talvez se nos deparem similares revelações. Por outras palavras, os intelectuais são referência do que de pior e mais inteligente a conduta humana pode oferecer.