24 fevereiro 2006

Um dos meus heróis

Conto-os pelos dedos. Já quase não tenho heróis, mas lendo Frederick the Great: the Magnificent Enigma, de Robert Asprey, abro uma excepção ao Rei-Filósofo, melómano, descrente, granadeiro, amigo das crianças e dos animais.

Confissão anti-intelectual: lembrando Kant




Kant adorava-a. Aliás, era o único tipo de música que suportava. Diz-se que um dia, já velho, durante o passeio higiénico que pontualmente fazia pelas ruas de Königsberg, marchou como um verdadeiro granadeiro do rei Friederico Guilherme III enquanto a banda executava o Präsentiermarch .

Nacionalismo


Nacionalismo: polissemia e sentimento
O debate sobre as interpretações várias que se podem fazer do nacionalismo - polémica reveladora de polissemia, ou antes, dos diversos percursos que dão origem à sedimentação do(s) conceito(s) de nacionalismo - tem trazido à blogosfera textos que estimo interessantes, inteligentes e reveladores da permanente actualidade do tema. O nacionalismo, de Herder a Fichte, de Renan a Taine, a Maurras e seus leitores ibéricos (Sardinha, Vázquez de Mella) é, decididamente, uma decorrente do Romantismo, acolá com maior sobrecarga mística, aqui e ali com maior aparato científico de Oitocentos. Sendo, para uns, uma doutrina fundada na evidência de uma realidade concreta, geradora de fortes sentimentos e afectos - o "estar aqui"- constrói-se teoricamente a posteriori sobre a evidência empírica. Ao contrário da tradição intelectual ocidental, o nacionalismo nasce das pequenas coisas quotidianas, consolida-se nas grandes afinidades electivas comuns a um grupo e, só depois, se formaliza ideológica, jurídica e politicamente. É esta, sintomaticamente, a sua grande vulnerabilidade.
Da necessidade humana do mito:
Ora, no debate a que temos assistido ao longo dos últimos dias, julgo que a media res virtuosa nos é facultada pela aproximação do colega do Je Maintiendrai: o nacionalismo é um ponto de chegada histórico, uma certa concepção sobre a "razão de ser desta comunidade" e essa vontade de "a fazer perpetuar".
Daí que as pátrias não se discutam: são o que são, produto do tempo e da mitologia que um grupo foi fabricando. Sei bem que estas afinidades são, quase sempre, produzidas pelo Estado, como lembram Benedict Anderson no seu clássico Comunidades Imaginadas, ou produto de um recitativo historiográfico, cívico e integrador, como Comment on Raconte l'Histoire aux Enfants, de Marc Ferro. Agarrem num grupo de crianças alemãs, digam-lhes deste pequenas que são togolesas e estas sentir-se-ão "naturalmente" togolesas até ao fim das suas vidas. No percurso oitocentista desta maiêutica do nacionalismo, o factor língua+etnicidade+religião encontrou especial valorização em povos sem Estado submetidos a outros povos linguística, étnica e religiosamente distintos (lembro os impérios Austro-Húngaro, russo e otomamo). Noutras paragens (França, Itália), valorizou-se a tríade língua+religião+"fronteiras naturais" para socavar as diferenças irredutíveis com os vizinhos. Para outros, ainda, o nacionalismo foi-se afirmando a partir do nada étnico, do nada linguístico e do quase nada religioso como uma ideia a posteriori saída do facto e da construção jurídica. É esse o caso espanhol, onde "nacionalismo" é sinónimo de "independentismo, separatismo, particularismo" e Espanha um "destino no Universal", fórmula tão cara à oratória de José António.
Nacionalismo português:
No que respeita aos portugueses, cumprimos aparentemente em toda a extensão uma fórmula que encheria de inveja os decantadores do nacionalismo canónico: uma só língua, uma só religião, uma só etnia, um território continental contínuo construído, não a partir de qualquer especificidade geográfica, mas definido pelo elemento humano ao longo de quase um milénio. Contudo, a tradição "nacionalista" e o seu justificativo seguiu outro rumo. A ideia de identidade/diferença da nação portuguesa consolidou-se, não no particularismo, mas numa ideia de Portugal que ultrapassa demarcadores tribais. Na Ásia, até 1820 (Revolução Vintista) eram "portugueses" todos os católicos vivendo na esfera de actuação do Padroado do Oriente, i.e, fora da jurisdição directa da Coroa. No Brasil, aplicava-se a mesma fórmula a todos quantos cumprissem os mesmos requisitos. O Liberalismo feriu essa identidade, reduzindo o universo da comunidade "portuguesa" à cidadania portuguesa. Não deixa de ser ABSOLUTAMENTE contraditório para muitos nacionalistas o facto da ideia de um Portugal homogéneo haver partido dos adeptos do Liberalismo. Um nacionalismo português que repouse no tribalismo deixa de o ser, para passar a regionalismo no quadro do "destino universal" da ideia postiça de Espanha.
Portugal afirmou-se, pois, por uma ideia. Esbateu-se enquanto somatório de características de um pequeno grupo e pretendeu universalizar-se. Prova ? Os timorenses consideram-se portugueses ! Prova? Os católicos asiáticos invocam o seu "portuguesismo" para fundamentar a diferença perante os grupos envolventes. Prova ? No Senegal, em Casamansa, os separatistas reclamam-se de uma genealogia lusa. Prova ? Os judeus na Holanda, em Esmirna, em Istambul e na Crimeia afirmavam-se "portugueses".

23 fevereiro 2006

Lição sobre diplomacia cultural

Assisti hoje à soberba palestra que o Professor António Vasconcellos de Saldanha proferiu no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa ante um selecto auditório (Adriano Moreira, João Carlos Espada, Manuel Braga da Cruz, os confrades das Portas do Cerco e do Insurgente) em que este V. criado pecava por defeito. Uma lição de concisão, de clareza e erudição, daquelas que tanta falta fazem num tempo de desvairado amadorismo, improviso e falta de ética intelectual. Foi verdadeiramente brilhante a prestação do ilustre académico. Pena é que outros responsáveis pela gestão da máquina diplomática do Estado não estivessem presentes, pois terão perdido preciosa informação sobre o estado e oportunidades que a Portugal se oferecem no Oriente. Somos, no avisado parecer de Vasconcellos de Saldanha, uma "potência histórica" com um capital de memória e afectos que ultrapassa largamente o peso económico e político do país na arena mundial. Tal capital colocar-nos-ia em clara vantagem para desenvolver outras parcerias se aqui houvesse percepção das potencialidades da Ásia emergente. Estou certo que o tempo do Professor Saldanha chegará. É justo e importante para o passado e o futuro da afirmação de Portugal no mundo.

22 fevereiro 2006

Semeadura de medalhas


Como lembrou Cassirer nesse monumento póstumo que dá pelo nome de O Mito do Estado, o homem é um animal simbólico ancorado em formas e conteúdos aparentemente racionais que escondem um poço de irracionalidade sem fim. As pessoas, glosando a cançoneta de Casablanca, não vivem sem essa dose de amor e glória que garante um sentido às suas vidas e uma identidade/identificação com coisas convencionais que se lhes impuseram como ficções dirigentes. A desvalorização do simbólico, se acarreta dissabores para esses raros indivíduos que se foram desfazendo do sentimentalismo, levando-os a um lúcido cepticismo e a um cinismo libertador, assume proporções de perigo quando aplicado a toda a sociedade. A recente vaga de medalhados - numa iniciativa sem precedentes de um Presidente da República nas vascas do mandato - desvaloriza, vulgariza, banaliza e empobrece as ordens portuguesas. Espero que tal munificente gesta distributiva seja aquilo que parece ser: um acto gratuito. Se o não for, não sei o que lhe chamar ...



21 fevereiro 2006

Conferência de António Vasconcellos de Saldanha


António Vasconcellos de Saldanha profere na próxima quinta-feira, dia 23 de Fevereiro, pelas 13 horas, na Sala D. Henrique, o Navegador (Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa) uma conferência subordinada ao tema "Tem Portugal uma Política Cultural para a Ásia?"
Atendendo à actualidade do tema e à grande craveira do orador, recomendo vivamente a todos os interessados que se informem junto do secretariado da organização do evento (tel. 217214129).

Os gloriosos dias do Polana

Foi lá, em finais da década de 60, aos 5 anos de idade, levado pela mão do Manuel Luís Lorena Pombal, que me fotografaram com Amália Rodrigues. A Diva virou-se para mim e lançou uma frase misteriosa que ainda hoje me persegue: "o Miguel parece um miúdo de Alfama; o seu irmão um menino do Restelo". Cumprimento ? Não sei. Talvez Amália fosse impelida pelo contraste entre minha fisionomia marrana e os traços "arianos" do meu irmão. Na gloriosa África colonial tudo cabia. No Polana, um ex-ministro de Mussolini (Tullio Cianetti), um barão da Werhmacht e um rico comerciante judeu almoçavam juntos opíparos camarões da Catembe !

O fim da era axial


Depois da era das trevas, desse misterioso cataclismo que por volta de 1200 a.C. assolou todas as grandes civilizações, da Europa meridional ao Indo e à China, surgiram as grandes escolas de cujos textos temos vivido ao longo de 2800 anos: os Upanixades, as Sutras budistas, as Tábuas da Lei e o Antigo Testamento, os Analectos de Confúcio, os textos de Dao De Jing e a obra de Platão. Karl Jaspers crismou esse momento de renascimento de "era axial". Hoje, esgotou-se a Filosofia, decaída e quase um género literário; o veio monoteísta já só consegue sobreviver da "pistis"da intransigência; o confucionismo hodierno não passa de um substituto para o fanado comunismo chinês; o budismo sente-se ameaçado pela cupidez de Mara. Só o Taoísmo parece caber num tempo de turbulência, vazio e individualismo.

20 fevereiro 2006

Ambrósia do Sião

(Tom Youm Talay = sopa de marisco)

Saudades do Sião

(Stupa dourada no Palácio Real de Banguecoque)

Relicário (stupa= chedi) em que os elementos formais exprimem os cinco elementos da ordem cósmica: base rectangular (terra), abóbada hemisférica (água), cone esférico (ar), crescente lunar (espaço) e disco circular (fogo).
Local: กรุงเทพมหานคร อมรรัตนโกสินทร์ มหินทรายุธยามหาดิลก ภพนพรัตน์ ราชธานีบุรีรมย์ อุดมราชนิเวศน์ มหาสถาน อมรพิมาน อวตารสถิต สักกะทัตติยะ วิษณุกรรมประสิทธิ์ ,i.e, Krung Thep Mahanakhon Amon Rattanakosin (vulgo Banguecoque).

Um povo selvagem

Quem teve a desventura de se colar aos noticiários das televisões nacionais durante o fim de semana - cada vez mais futebolizadas, cada vez mais derrancadas em questiúnculas de paróquia rural e nessa tentação quase obscena de dar voz a velhotas monomaníacas discorrendo sobre remédios, operações e doenças - terá colhido, a quente, cabal resposta para a incapacidade portuguesa em adaptar-se a um mundo trepidante de mudanças. O paizinho da criança raptada parecia um modelo retirado das tela de Bosch e Bruegel e a mãe uma gárgula de catedral gótica. Vivendo numa gruta enfarruscada, a prolífica família faculta-nos uma safra de ricos indícios sobre o alcoolismo, promiscuidade, pedofilia, abandono escolar e violência doméstica que julgamos imputar à "decadência e queda do bom povo português". Sei que muitos, em nome do ethos tradicional, preferem o povo analfabeto, supersticioso e esfarrapado. Outros, por se sentirem inseguros no assumido papel de "elite", querem eternizar a diferença entre um povo bárbaro, quase neolítico, e a burguesia citadina. Depois, mudei para o banho de Fátima. Uma multidão em nada diferente: gente miserável, com a fome colada à cara, animada por padres saídos do políptico de S. Vicente e um locutor com assomos de poética de pagelinha afirmando convictamente que o "céu chorara" desalmadamente pela vidente. Tenho para mim que aquilo não é o povo português e isto não é a religião. São sintomas inquietantes da marginalidade em que nos situamos perante a Europa. Povo quase selvagem, mal governado, sem auto-estima, entregue a volições irracionais e a fatalismos, só por milagre poderemos abandonar a cauda, quase balcânica, do séquito europeu.