17 fevereiro 2006

Máquina de pensar para todos


Tenho por ele uma imensa admiração. O Ocidente, mau grado o lugar-comum da "decadência" - uma coisa que ninguém consegue explicar, mas que todos repetem ad nauseam - continua a ser um farol de lucidez, produzindo homens de curiosidade inexcedível. Felipe Fernández-Armesto é um deles. O autor de Milénio, The Americas e Civilizations , que ensina em Oxford, é uma daquelas mentes luminosas que, assistida por uma ciclópica cultura, alia conhecimento, sabedoria e a uma genuína vontade pedagógica que cativam o leitor da primeira à última página. Descobre a gramática oculta, desvela as relações, reduz ao evidente sem manipular e sem reducionismos. Diz-se que Leibniz terá sido o último homem vivo a abarcar todo o conhecimento. Atrevo-me sugerir que FAF é um émulo à altura do criador do cálculo infinitesimal e do teorema binário.

16 fevereiro 2006

Os adesivos


Sempre tive a máxima reserva em relação a dois tipos de pessoas: aquelas que mudam incessantemente e aquelas que nunca mudam. Quem muda permanentemente, jamais fixando uma identidade para si e para os outros, ou é privado de vida interior ou não passa de um vulgar oportunista. Quem nunca muda, ou é um fanático ou sofre de défice de inteligência.
É lícito que o curso da vida de um homem o induza a sofrer metamorfoses ou modulações - pequenas correcções - e mesmo profundas mudanças de perspectiva. Como confirmam os psicólogos, a vida individual é multidireccional, multidimensional, contextual e semeada de ganhos e perdas, pelo que aquilo a que hoje tanta importância damos, pode sofrer uma desvalorização crescente e amanhã deixar de merecer qualquer afecto e atenção.
Encontrei ontem um velho colega de liceu e faculdade. Vinte anos passaram. Ele era, na altura, um marxista-leninista agarrado ao credo dos amanhãs ridentes, do Homem Novo, da leitura "científica" do real e não deixava de censurar-me pela perspectiva "alienante" da minhas convicções espiritualistas. Então, o que fazes ? "Sou jurista e desenvolvo actividade política no PSD. Em 1991 dei-me conta do fracasso do comunismo, andei pela Plataforma, depois pelo PS e estabeleci-me no PSD. Agora sou um liberal".
O camaleonismo é isto. A República chamou-lhe adesivismo. Chamo-lhe parasitismo. Há criaturas que se dispõem servir todos os sistemas, todos os regimes, todos os partidos, igrejas e agremiações maçónicas para deles retirarem o quinhão de lucro pessoal inacessível por outros meios honestos.
Acredito na mudança de Dionisio Ridruejo, que foi falangista, amigo de José António Primo de Rivera e combatente na Divisão Azul, mas que depois se converteu à Social Democracia durante o regime de Franco, por isso pagando pesada factura. Acredito na sinceridade de uma Cândida Ventura, membro destacado da direcção do PCP, que dele se afastou quando o partido era rico, poderoso e influente. Acredito na genuína mudança operada em tantos fascistas e nacional-socialistas que não esperaram pela derrocada para se afastarem dos seus ideais de juventude. Aceito, quia absurdum, que um fervoroso católico se converta ao marxismo, facto corrente entre ex-seminaristas. Não posso aceitar, porém, que um homem mude ao sabor dos acontecimentos. A política, uma das coisas mais sujas a que a humanidade se dedica, é convidativa para os Proteus. Pela sua amoralidade, a actividade política é, assim, o grande teatro da tartufice, da impostura e do logro. Ah, como admiro o velho Ezra Pound ! Mas esse não era político. Era um génio da literatura que vivia numa dimensão a que não podem aceder os homens da exploração do pathos reles, do sentimentalismo piegas, da demagogia e do ideologismo com se constrói a actividade política.

15 fevereiro 2006

Obrigado, Dinamarca

Muitas casas, arranha-céus e palácios, aeronaves, automóveis e tanques construí com o Lego, esse brinquedo de supina criatividade, típico de um povo engenhoso e civilizado que, mesmo brincando, edifica. Ainda não lhe consigo resistir. Se um dos miúdos abre a mágica caixa de detergente cheia de peças multicolores, sento-me logo no chão e mãos-à-obra. Obrigado, Dinamarca !

Que lástima

Não sei que psicológicas forças misteriosas os terão empurrado para os holofotes e que convicção os manterá. Gabo-lhes a coragem e obstinação: aquela pose de ventríloquo, semeando bocejos, adormecendo plateias como Mesmer; aquele falar para dentro, sem chama nem espírito. Aquilo é o anti-carisma, o cúmulo do aborrecimento, o dobre de finados de um parlamentarismo que afastou a inteligência, matou os émuloss dos Catões e dos Demóstenes, deixando-se alienar até ao autismo. Não que tenha algo contra os senhores. Não, pelo contrário: um deve ser organizadinho, metódico, honesto - um bom homem - mas aquele lugar não era para ele; o outro, vejo-o num banco ou numa repartição pública folheando o Diário da República, atendendo telefonemas, colando selos.
Um bijuteiro não é um Cellini, um desenhador industrial não faz um Leonardo e um arrumador de cinemas não deve ser confundido com um general. Aqueles foram as maiores prendas jamais oferecidas a um governo: ter como um líderes da oposição dois homens invisíveis.

13 fevereiro 2006

"libertinagem" e Liberdade

Não há argumento ou autoridade - secular, religiosa, carismática, tradicional, científica - que se possa sobrepor àquela inegociável liberdade com que todos os seres humanos nascem. A inteligência em acto decorre dessa potência de liberdade que está inscrita como Direito Natural inseparável da ideia de homem, pelo que qualquer limitação à faculdade de pensar, interrogar e questionar, bem como à insubmissão perante instituições morais, políticas e sociais que se afirmem como indiscutíveis é, mais que um atentado às pessoas, uma flagrante atentado aos direitos humanos. Estes direitos não precisam de ser codificados para existirem. Da sua intuição nasceram as leis, pelo que as leis só reflectem de forma medíocre e pálida aquele conjunto de consignas infusas no espírito humano. A liberdade positiva é limitada; a liberdade humana é total. Os tratadistas políticos têm abordado vezes sem conta o problema de liberdade, mas são unânimes no reconhecimento de que os homens só devem obedecer a qualquer legalidade, conquanto esta não atropele esses direitos [naturais]. Temos assistido, contudo, à inversão desta tradição intelectual do Ocidente. Parte-se do princípio que a maioria faz a verdade. Ora, em abono da verdade, passe o trocadilho, podemos verificar que a maioria, absorvida na dimensão psicossocial - a mais chã e a mais animal, porque gregária - troca o conforto da inserção e protecção pela liberdade de dispor da inteligência.
Na "batalha dos cartoons", em curso, verifica-se o choque entre a ideia negativa de liberdade (aquela que delegamos às leis positivas, aos institutos morais e às instituições políticas) se está a sobrepor à liberdade acima referida. Os governos europeus, com o medo - sentimento animal - de represálias terroristas, estáo a "moralizar" sobre a liberdade de criar, faculdade inerente ao espírito. A reintrodução da perigosa expressão "liberdade e não libertinagem" é uma contraditio in terminis. A "libertinagem" não é outra coisa que a canga moralizadora, eterna domesticadora da Liberdade. Sempre que os políticos fazem tal destrinça, lá vem mais censura, mais vigilância, mais polícia.