11 fevereiro 2006

Do meu patriotismo

O Dr. Humberto Nuno de Oliveira, velho amigo dos tempos de universidade, sentiu-se magoado com um texto que aqui produzi sobre as "três taras da direita portuguesa", que Rodrigo Emílio de forma acutilante tão bem caracterizou numa das charlas que animava. O meu propósito não era, evidentemente, o de magoar o Professor Humberto Nuno. Sou amigo dos meus amigos e não é meu timbre afrontar convicções alheias, sobretudo aquelas que são vividas e mantidas em clima de adversidade e hostilidade. Não sou votante, militante e associado de qualquer partido, movimento e associação: política, desportiva, religiosa, cívica e cultural. Não me cabe, pois, meter-me em seara alheia e fazer comentários sobre grupos nos quais não tenho cabimento. Nunca nesta coluna foi produzido, pelo menos de forma escancarada, qualquer comentário insultuoso a respeito de grupos, movimentos e partidos das "direitas", vivos (CDS/PP, PPM, PNR, FN) ou mortos (PDC, MN, MIRN, MAN, ON). Estimo que as pessoas, ao envolverem-se em actividades políticas, o fazem com toda a honestidade, coerência e vontade de bem-fazer, julgando estar a contribuir para o bem comum. Se no plano político-organizativo sou, mais que neutral, indiferente, não se me pode exigir que não pense, não avalie e não opine sobre questões que são nossas, de todos os portugueses. As direitas, como as esquerdas e o centro são portadores de valores, estéticas e antropologias distintas: logo, ao referir-me à persistência do "antigo" nas direitas - ah, como não tenho parado de zurzir no conservadorismo esquerdista ! - queria, de algum modo reflectir em voz alta sobre o peso que a genética exerce sobre tudo o que se faz, diz e opina. O Humberto Nuno conhece tão bem como eu os "problemas" da direita, pelo que só seria importante colocá-los em evidência. A "direita portuguesa" tem sido consecutivamente derrotada em todos os pleitos: 1820, 1834, 1910 e 1974. Porquê? Por não se conseguir adaptar, por fazer da "núvem Juno" e dar prioridade ao sentimento sobre a ideologia (Manuel Azinhal dixit). Sou, manifestamente - por formação e herança - PATRIOTA, PORTUGUÊS, EUROPEU e OCIDENTAL. Amo o meu país e sinto-me tão revoltado como o Humberto por todo o mal que a idiotice criminosa tem feito, ao longo de décadas, a esta comunidade. Temos perspectivas diferentes sobre problemas candentes da vida nacional e internacional ? Temos. Porém, há outras em que nos identificamos. O mais importante, o que tudo sobreleva, é Portugal. Ninguém me pode impedir de amar o meu país e sofrer por ele, como o demonstrei inúmeras vezes no passado. Perguntar-me-á o Humberto Nuno o que sou politicamente "neste momento ?". Pois, é com todo o gosto que o digo: patriota, monárquico e defensor daquele conjunto de valores que fazem as pátrias entidades perduráveis. Os "valores" não têm 20, 30, 50 ou 70 anos. Os valores são transfinitos na ordem nacional: independência, liberdade, orgulho e felicidade. Todos estes se aplicam à esfera individual como colectiva.
O nosso passado e a grandeza do património deixado pelas partidas do mundo pelos nossos maiores absorvem quase totalmente a minha atenção e estudo, mas não quero aqui deixar de dizer - para mágoa de tantos - que se queremos que esta nação sobreviva temos de compreender que vivemos no tempo da participação, da representação, da cidadania e da globalização económica, societária e cultural. Isto não é novo. Enquanto animadores da Nova Monarquia, eu e o Humberto Nuno sempre defendemos uma maior expressão democrática na representação nacional, sempre defendemos a atribuição da cidadania portuguesa a todos os "militares africanos que serviram Portugal", sempre defendemos o alargamento dos laços com o Brasil e os PALOP, a negociação do estatuto de Macau e a libertação de Timor. Estou, em termos de patriotismo, onde sempre estive. Sou português antes de ser europeu, sou patriota e monárquico; logo, em ordem a melhor posicionar o país perante o futuro sou defensor da restauração e do aprofundamento da democracia. Na ordem externa, limito-me a observar que vivemos sob a Pax Americana, como os nossos antepassados viveram e compreenderam que sem respeitar a Pax Britannica Portugal não podia ter sobrevivido. Sou, assim, patrioticamente, pelo aprofundamento das relações com os EUA.

09 fevereiro 2006

As três taras da Direita portuguesa: lembrando Rodrigo Emílio

(Emperor Claudius, de George Schmidt)

Rodrigo Emílio, o grande ausente, num daqueles admiráveis solilóquios que garantiam auditório cativo, afirmou:" a Direita portuguesa padece de três taras atávicas: a tara moralona, a tara jurídica e a tara autoritária". Com efeito, o vulgo que se reivindica "de direita" tem uma inclinação incontrolável para o psitacismo dos "valores", uma reverência quase supersticiosa perante a "lei" e uma adoração servil pela autoridade. Daí que se entregue a sacristães, a causídicos e homens de cajado. Não há pensamento e criatividade - não há cultura, só mimésis do banal - onde pontificam o Manual de Apologética, o Código Penal e as hagiologias de falsos santos. Li durante os últimos dias alguns textos colhidos acidentalmente em blogues "das direitas" dos "valores", dos "bons costumes" e da "autoridade". Muita ganga, muitos truísmos, quase total ausência de humor, irreverência e ousadia, a que acresce uma irreprimível inclinação para a metáfora escatológica, um prazer quase brejeiro para ousadias de erotismo escondido por fachadas de lapidar moralismo serôdio. O Rodrigo - o grande ausente - tinha razão. Com esta gente, muitas décadas de PS e PSD passarão ainda !

08 fevereiro 2006

"Internacionalismo" islâmico


O espírito de cruzada, inspirado pelo anti-relativismo e pela soberba etnocêntrica, não cabe, decididamente, nos parâmetros da contemporaneidade. A riqueza e diversidade do mundo estriba-se no reconhecimento da alteridade e da diferença, mas tal não implica uma permanente cedência a valores, práticas e instituições estranhas à nossa civilização. Durante séculos, os europeus viram a diferença como manifestação de incompletude; ou seja, os outros eram tidos e entendidos, exaltados ou repelidos em função do maior número de expressões de similitude com o nosso mundo ocidental. Hoje, caiu-se no extremo oposto, julgando-se os ocidentais obrigados a exprimir - muitas vezes com indisfarçável hipocrisia - mansa adoração por tudo aquilo que colide com a sua [nossa] sensibilidade. O anti-ocidentalismo, produto do próprio Ocidente, desconstruíu, mutilou, ridicularizou e "hermeneutizou" até extremos de auto-flagelação a identidade cultural e espiritual da Europa. Este ódio à Europa satisfez em tempos não muito distantes o programa marxista, dando alento a elites nativas colonizadas argumentos legitimadores para a edificação de requisitórios anti-ocidentais produzidos a partir de formas de pensar nitidamente europeias. O que se passa com a tão propalada colisão entre o Islão e o Ocidente é bem distinto.
O Islão, que tem toda a legitimidade em invocar a sua matriz, a sua genética e a sua visão do mundo, não pode recusar aos ocidentais o direito de produzir opinião sobre a sua [deles] visão do mundo. Um cidadão vivendo no "mundo islâmico" não pode atrever-se, sob duras penas e represálias, a afirmar a descrença. Os europeus podem. O muçulmano não pode invocar a privatização da crença, pois a ideia de sociedade coincide ali com a plena aceitação - e prática - religiosa. Assim, será uma contradição repetir o estafado como tonto argumento de um "laicismo muçulmano". Não há laicismo onde a religião vigora como cânone essencialista. Há uma cultura árabe, uma cultura indiana-muçulmana (Paquistão, Bangladesh), uma cultura javaneza-muçulmana, uma cultura malaia-muçulmana, uma cultura thai-muçulmana, uma cultura vietnamita-muçulmana, uma cultura beduína, uma cultura Tijānī-senegalesa mas não há, OBJECTIVAMENTE, uma cultura islâmica. A ideia de um "mundo islâmico" não passa da grosseira transliteração do nacionalismo europeu para um tipo de sociedade tradicional ordenado a partir do único vínculo da religião. A aplicação deste "nacionalismo sem nação" tem acarretado violências inauditas sobre sociedades em que os muçulmanos eram, maioritários ou minoritários, uma cultura, mas não A CULTURA. A aplicação da Shariah a latitudes onde a divisão entre o secular e o religioso era plenamente aceite só vem demonstrar que a intolerância, nos tempos que correm, não é atributo do Ocidente mas parte de pulsões totalitárias que nascem dentro do Islão.
Sei perfeitamente o papel nocivo que as "desinteressadas" bolsas de estudo facultadas por fundações sauditas e pelo governo iraniano têm na difusão da fanatização e do terrorismo. Sei perfeitamente que a radicalização de pacíficas comunidades muçulmanas no Sudeste-Asiático e na África Oriental nada têm a ver com o substracto cultural dessas comunidades. O terrorismo, o totalitarismo, o espírito de guerra santa que nos ameaça foi fabricado e induzido pelas centrais da uniformização sediadas em países do Médio Oriente. Ali é pregado, dia e noite, um ódio cego ao Ocidente, um desprezo e uma visão pouco mais que homicida contra os fundamentos em que se funda a nossa civilização. Sei que este ódio é, sem disfarce, uma manifestação de medo. Como dizia De Gaulle, "eles têm o petróleo, nós temos as ideias". Se os muçulmanos querem merecer a plena cidadania do mundo ( são ou não são os países muçulmanos signatários daquele conjunto de cartas fundamentais que unem a humanidade contemporânea ? ; são ou não são todos membros titulares das Nações Unidas ?), têm de aceitar as regras universais. Se as recusam, retiram-se voluntariamente, isolando-se e cristalizando. Esse é o desafio que se coloca aos muçulmanos. Serem homens do tempo presente ou declararem guerra ao nosso tempo. Os radicais fizeram-no e estamos perante a sua histeria, a sua raiva e seu terrorismo.

07 fevereiro 2006

Réplicas

Recebi 29 reacções a um texto aqui ontem publicado sobre a guerra entre o Ocidente e o Islão. Como é meu timbre, digo o que penso, escrevendo-o. Logo, exponho-me à crítica e à sensibilidade daqueles que de alguma forma se sentem agredidos nas suas posições. Transcrevo duas dessas mensagens, atestando a diversidade daquelas reacções. Respeitando integralmente a coerência e a inteligência dos autores, não farei senão dois curtos comentários aos mesmos.
O Dr. Anatol Waschke estima-me xenófobo, intolerante e demagógico, desfiando um rosário de acusações ao "Ocidente" que se integra perfeitamente numa visão criminalizadora muito em voga no imediato pós-Bandung, e ultimamente recuperada pelos inefáveis Samir e Ramonet. Sou ocidental, com muito orgulho, mas não comparo nem produzo juízos valorativos sobre outras civilizações. Ora, no momento actual, o ódio islâmico estriba-se sobre a inveja e a impotência. O Islão está a morrer e estas demonstrações de fúria demonstram a incapacidade para emular o Ocidente.
Ao Dr. Luís Canavarro, a quem agradeço as amáveis palavras, tenho a dizer que a questão do Holocausto, que de todo desconheço na sua vertente historiográfica, é de natureza diversa. Lamento que David Irving seja objecto de tal tratamento, pois é minha convicção profunda que teses e perspectivas historiográficas consideradas "heréticas" não devem ser caladas mas desmontadas no plano académico. Se, porém, se verificar serem produto evidente de má-fé, manipulação, omissão de fontes e grosseira tentativa de falsificação ( como o foram, lembro, os célebres "Protocolos dos Sábios de Sião"), induzindo ao ódio, devem perder, ipso facto, qualquer cobertura científica e integrar a categoria de abusos de liberdade.
1)
Olá:
Lendo o seu blog em combustoes.blogspot.pt fiquei chocado pela ignorância e o profundo desconhecimento da história religiosa do autor. Todas as guerras e atrocidades semelhantes foram durante toda história da humanidade realizadas com forte apoio na falta de instrucção e informação imparcial de grande parte do povo. Olhando para o seu blog, tenho que reconhecer que, embora disponibilizado pelos meios modernos de comunicação e óbviamente ao seu dispôr, a situação não melhorou. Continua a mesma situação tão "bem" aproveitada por Goebbels, Al Gore, Saddam e outros semelhantes. São publicações como a sua que continuamente fomentam o crescimento da ignorância fornecendo informações distorcidas e incompletas. Devo, na minha opinião, lembrar-lhe que as desinformações da igreja católica como de todos os governos "democráticos" e bastante semelhante ao método de propaganda dos extremistas do islão, com interesses opostos: uns estão no caminho dos outros. Nós, os "ocidentais", perfazendo ca. 20% da população mundial, consumimos ca. 80% dos recursos da produção mundial, e assim somos indirectamente responsáveis por grande parte de miséria neste mundo. Olhando com alguma atenção podemos comparar o 11/9 com os inícios - ou "causas" - das duas guerras mundiais e tirar conclusões bastante assustadoras.http://www.pentagonstrike.co.uk/pentagon_sp.htm#Main a existência de empresas como a Ali Burton e o enredo de interesses económicos por elas representados retira qualquer fundamento ao blog acima referido. Não consigo achar piada alguma na sua visão macrobiótica do "somos o que comemos" que mostra bastante arrogância no que toca a compreensão de outras culturas e seres humanos. De facto, o mundo ocidental continua a dar todas as razões ao resto do mundo para ser odiado. Resumindo: não estamos em guerra, estamos a fazer tudo para que estas atrocidades continuem com consequências cada vez piores.e pessoas como o autor deste blog continuam a fazer a sua parte da ovelinha activista. A internet e os seus meios não têm nada de virtual, antes pelo contrário: são uma ferramenta de comunicação e informação bem real e poderosa. O uso de ferramentas implica responsabilidade, embora isto tende a ser esquecido muitas vezes em terras ocidentais.
Anatol Waschke
2)
Caro Miguel Castelo Branco:
Não creio conhecê-lo pessoalmente o que seria uma honra e, julgo, um prazer, a ajuizar pelo conteúdo do seu blog, que hoje conheci, por correio de um amigo comum.Mas, por que o seu texto "Estamos em Guerra", para além da admiração pela sua lucidez e pertinência me suscitou uma réplica a quem mo enviou, sem querer criar polémica nem esperar resposta, julgo meu dever dela lhe dar conhecimento.Com cumprimentos cordiais.Perfeitamente de acordo com o texto, sem subterfúgios nem reserva mental. Mas...Não é verdade que está preso na Áustria um historiador inglês, David Irving, pela única razão de pôr em dúvida a exactidão do cantado e recantado "Holocausto"? É que, sendo assim a referência ao "direito da descrença" (sic) é algo relativo e hipócrita. Que recorde, desde a Santa Inquisição que ninguém era preso por se recusar a acreditar. E nem sequer é matéria de Fé mas tão somente história, escrita pelos vencedores.Não me sinto obrigado a colher tempestades de ventos que outros semearam.Mas, uma vez mais, se necessário, lutarei por aquilo em que já não acredito mas que é, porventura, um mal menor.Luis Canavarro

06 fevereiro 2006

Compre produtos d'Annemarc

Compre dinamarquês, de preferência salpicões, chouriços, salsichas e todas as porcinas iguarias que repilam a mafomética praga.

05 fevereiro 2006

MISANTROPO ou morte !

O Paulo Cunha Porto NÃO PODE terminar seu blogue. Julgo que se trata de uma provocação literária, pois, caso contrário, advirto solenemente que dinamitarei o meu Combustões e pedirei a mais meia dúzia de "mártires" que se suicidem ritualmente. A presença do Misantropo é um grão de sal nesta blogosfera. Dá-lhe o gosto, a elevação e uma serena simpatia . Sem ele, bem como de outras 3 ou 4 presenças lúcidas, isto ameaça transformar-se numa colecção de pagelinhas da sãozinha. Admiro a liberdade, o despojamento das ficções dirigentes redutoras - o ideologismo estreito, o fanatismo que rima sempre com incultura - pelo que o Misantropo enjaulado deve ser estimado, lido e aplaudido. Numa terra que vive derrancada na inveja, na cegueira fundibulária, no pensar pequeno e em fogueiras de estúpida vaidade, o Misantropo marca a diferença.