03 fevereiro 2006

Só no Je Maintiendrai

Não querendo imitar o Marcelo-dá-notas, dou-lhe um 20.

Os portugueses vistos por um zoólogo alemão


Quentíssimo, ferve-me as mãos pois só entrará no circuito comercial dentro de dias. Trata-se de Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha, da autoria de Heinrich Friedrich Link, professor de Zoologia, Botânica e Química na Universidade de Rostock, que por aqui esteve em viagem de estudo entre 1798 e 1799. Com o rigor de um Kant, o eminente cientista produziu um retrato vigoroso, por vezes demasiado incómodo, das nossas instituições e do nosso povo, sem jamais cair na caricatura maldosa praticada por ingleses, nem no exagero desdenhoso de franceses.
Aqui ficam, para criar água na boca, breves transcrições.
Dos homens e mulheres portugueses:
"Em Portugal o sexo masculino não é bonito, raramente se vêem pessoas de estatura alta, mas mais corpos volumosos, gordos, baixos e atarracados. Os seus rostos são do mesmo modo raramente regulares, um nariz arqueado para cima, lábios salientes são tão vulgares que se poderia ser levado a pensar terem os portugueses misturado um pouco de sangue negro. (...) Em termos gerais, o sexo feminino tem os mesmos defeitos do masculino: uma estatura demasiado baixa e uma tendência para uma figura forte e rude. (...) Conhecedores elogiaram-me ainda confidencialmente muitas outras coisas que eu não posso repetir publicamente [a respeito das mulheres].
Do asseio dos portugueses:
" Assim que se deixa a Inglaterra e se pisa o solo de França, a falta de asseio torna-se progressivamente maior à medida que se avança em direcção ao sul. Os aposentos tornam-se cada vez mais sujos, as latrinas ou não existem ou são execráveis, uma horda de bichos de toda a espécie perturba o sono do viajante. (...) A verdade é que [em Portugal] a gente nobre não se envergonha de matar ou mandar matar em público estes bichinhos. Conta-se que a esposa de um ministro faz isso, não raro, quando joga às cartas na presença de muita gente Isso, com efeito, não vi. Mas quando estávamos nas Caldas no Gerês, onde se encontram banhos quentes, vi a irmã do bispo e do governador do Porto, uma jovem e atraente viúva da antiga nobreza, pela tarde, em frente da porta, deitar a cabeça no regaço da sua criada para que esta lhe catasse os piolhos. Sei de fonte segura que as jovens donzelas, quando se visitam, se catam mutuamente os piolhos como passatempo".
Dos negros de Lisboa:
"Uma grande parte dos ladrões são negros, que existem aqui em grande número, talvez mais que em qualquer outra cidade da Europa, sem exceptuar Londres. Muitos têm já aqui ocupações burguesas, não sendo raro ver negros serem apresentados como bons e honestos cidadãos; há casos em que eles, como artesãos, alcançaram um alto grau de destreza e habilidade. No entanto uma grande parte são pedintes, ladrões, alcoviteiros e alcoviteiras".
Da ralé de Lisboa e do vício do tabaco:
"Há uma grande quantidade de ralé em Lisboa, pois todas as gentes inúteis das províncias afluem para a capital, e podem sair-se bem com facilidade na cidade aberta. Daí o enorme número de pedintes. Em parte vadiam pela cidade. (...) Na Calçada da Estrela havia um mendigo que me pedia sempre rapé pelas almas. O rapé é uma grande necessidade da nação inteira, de todas as classes, de ambos os sexos e de todas as idades. Pode-se ficar muito bem relacionado com um português comum e vulgar oferecendo-lhe uma pitada de bom tabaco. Vi uma pedinte atascar de tabaco o nariz da criança que trazia ainda ao colo. Numa excursão botânica pelos arredores de Lisboa, encontrei uma mulher muito bem vestida que me pediu uma pitada de rapé porque tinha perdido a sua caixa de tabaco. Quando lhe disse que nunca trazia tabaco comigo, respondeu-me com a expressão da mais violenta dor: estou desesperada."
Não conto mais. Leiam e deliciem-se com este portento de sociologia empírica.
LINK, Heinrich Friedrich. Notas de uma viagem a Portugal e através da França e Espanha. Lisboa: BN, 2006

02 fevereiro 2006

Acabado de chegar às minhas mãos

Amanhã ninguém celebra a Lepanto do Oriente (1509)

Flor de La Mar, o maior navio do seu tempo (Lisboa, Museu de Marinha)

Amanhã passará mais um aniversário sobre a retumbante vitória naval portuguesa sobre a coligação otomana-gujarate-mameluca, frente a Diu. Feito apenas comparável, pelos efeitos que produziu, a Lepanto, impôs a Pax Portuguesa no Índico e permitiu a definitiva fixação da administração no Oriente. Ninguém a evoca. Decerto que as relações entre Estados se devem pautar pela evocação de tudo o que os une, mas os ingleses não se submeteram a tais pruridos quando, no passado mês de Agosto, marcaram com pompa e circunstância a "sua" vitória em trafalgar, que marcou o domínio mundial dos mares pela Grã-Bretanha. Nós por cá nada comemoramos para além dos futebóis.

Quando a sexualidade se transforma em política

A nova guerra em torno do casamento gay surge com a artificialidade, o despropósito e a superficialidade próprios do calendário político. Os políticos profissionais morrem se os noticiários, os colunistas e os "fazedores de opinião" não ecoarem quotidianamente essas pérolas de amadorismo com que os lídimos representantes do rei-povo se entretêm nos pântanos, nos planaltos e montanhas do Parlamento. Se ontem foi a coincineração, a epidemia Creutzfeldt-Jakob, o BI único, as escutas telefónicas e a fuga ao segredo de justiça, hoje as agulhas apontam para a vida privada - sexual - dos cidadãos. Quando os Estados se envolvem na intimidade, como aceleradores ou como retrogradores, o resultado é sempre nocivo. Os governos que se socorrem de tais engenharias depressa perdem a noção dos ordenamentos jurídico constitucional e jurídico-legal, moral e sociológico que foram anteparo da legitimidade com que estabeleceram o pacto com os cidadãos; logo, ao violarem atribiliariamente o consenso das coisas tidas por estabilizadoras da ordem social, ameaçam o sossego da vida colectiva.
Como bem lembra uma das vozes mais lúcidas deste país, " tudo seria resolúvel pelas simples liberdade contratual, através de fórmulas imaginativas que criassem novas tipicidades, mas sem alterar as tipicidades casamenteiras e familiares clássicas para os que quisessem continuar a integrá-las, mantendo o nome tradicional para o contrato e a instituição, secularmente testadas". O casamento é uma instituição que visa, através de acordo recíproco, a união entre um homem e uma mulher numa relação cuja objectivamente se manifesta na reprodução e consequente responsabilização dos cônjuges na educação dos filhos; logo, a união de facto homossexual fica fora da ideia de casamento. Respeitar a intimidade, não segregar, não perseguir, não insultar quem quer que seja por motivos de ordem religiosa, étnica e sexual, isso está na Constituição, parecendo tão consensual que dispensa discussão. Porém, a questão do casamento gay integra outra problemática, de tão difícil dilucidação como a de aferir onde podem as minorias salvaguardar o seu estatuto, sempre periférico - nunca central - sem se auto-excluirem do universo do corpo de cidadãos a que pertencem. Ora, a orientação sexual não é uma questão central: não vem expressa no BI, não é matéria relevante na avaliação de desempenho profissional e reconhecimento da utilidade social dos indivíduos nem tão pouco é limite para o exercício de faculdades e direitos políticos dos indivíduos. Se maximizada, passa a constituir o elemento central da relação entre o indivíduo e a sociedade, o que é, para além de absurdo, segregador. É de manifesta clareza que a "cultura gay" se inscreve naquilo a que de forma simplista se pode designar de contra-cultura, i.e, fora da gramática de convenções, atitudes e comportamnentos maioritários. Ao mimetizar o casamento (por antonomásia heterossexual), pretende-se uma igualdade não querida e até repelida por motivos de coerência. De fora ficaram, certamente, os milhares de bons pais e mães de família - uns bem conservadores e católicos - que se fizeram ao casamento sem o sentirem e sem reciprocidade afectiva, mantendo uma duplicidade tão dolorosa para os próprios como para os seus/suas cônjuges. Defender o múnus da vida privada ? Defender o património adquirido ? Respeitar o direito à afectividade ? Sim. Salvaguardar o direito à herança ? Sim. Copiar, de grinalda e flor de laranjeira ? Não.
Sabemos que a sexualidade integra um magma de questões que nem moralistas, nem sexólogos, nem filósofos, juristas e legisladores podem, de per se, abordar sem caírem em perigosas ciladas redutoras ou sob pena de voltarmos àquele tipo de legislação barroca de seiscentos que responsabilizava o Estado pela vigilância e punição do "pecado de molicies" (masturbação). Tudo tem o seu lugar, a sua medida, a sua pertinência. Quando os políticos vivem do calendário do maior ou menor escândalo que podem provocar para demonstrar a sua (tantas vezes) inutilidade social, temos detalhes convertidos em parangonas.

O fim do buiçismo

O descerramento da lápide que homenageia o rei D. Carlos I e o príncipe Luís Filipe consistiu num acto sumamente relevante. Relevante porque é o culminar da total reabilitação daquele que caíu cobardemente alvejado pelas costas, provavelmente a mando dos beneficiários directos do crime. Relevante porque pela primeira vez a vereação de Lisboa - a tal que o PRP gulosamente reivindicava como cabouco do nascente regime - veio ao Terreiro do Paço ferretear de ignomínia os sinistros progenitores da república, os tais Buiça e Costa. Mais relevante ainda, porque o presidente Carmona Rodrigues declarou que o regicídio colocou em causa o regime legítimo que vigorava em Portugal. Ficamos todos de consciência mais aliviada. Podemos sentir orgulho por esta reparação ter sido feita durante as nossas vidas. Houve coragem e dignidade. Quem por lá passar, decerto questionar-se-á sobre a verdadeira importância, afinal tão transitória e efémera, dos consecutivos e dispendiosos inquilinos de Belém. É assim mesmo. Dez anos se passam e os portugueses olham para o lado. O esquecimento é uma coisa terrível. Mas as centenas de portugueses que hoje lá estiveram - muitos mais do que em alguns comícios da finada campanha presidencial de jantaradas e cachimbadas pagas - emocionaram-se pela presença de elementos das forças armadas. Uniformizados, os corneteiros saudaram o rei e o prícipe assassinados, assim como a bandeira azul e branca e o legítimo descendente dos reis de Portugal.

01 fevereiro 2006

Inquérito das cinco manias a pedido do BOS


Induzido pelo BOS, eventualmente o mais renascentista dos bloguers - o homem é verdadeiramente faustiano: viajante, cronista, cinéfilo, poeta, literato, frequentador de museus, melómano e de uma franqueza política temerária - aqui deixo cinco das mil manias que me escravizam. Por nada evidenciarem que exceda a monotonia da vidinha que vou preenchendo com migalhas de banalidade, aproveito e associo à corveia o Pedro Guedes, o confrade Je Mantiendrai, o misterioso Jansenista, a perfumadíssima Miss Pearls (como é bom ter uma senhora no convívio) e o irredutível Luso-Ultramarino.
1) Nunca entro de sapatos numa casa civilizada;
2) Passo horas, como o Marat, enfiado numa banheira escaldante;
3) Se não fizer 300 abdominais por dia fico doente;
4) Nunca ouvi uma "peça" de rock mais de 3 minutos (sou, decididamente, pelos oldies);
5) Não como carne de vaca nem bebo alcool desde 1997;
e....
6) Nunca discusto política com amigos;
7) Em minha casa, o maior inimigo (tê-los-ei ?) é recebido como um amigo;
8) Acendo todas as noites uma vela.

O dia da vergonha ou o trono vazio

98 anos passaram. O esquecimento dos homens e a cobardia da memória - sempre hemiplégica, sempre selectiva - permitiu que se escrevesse junto o nome de vítimas e assassinos. D. Carlos e o Príncipe Real foram ultrajados mesmo depois de mortos; o Buiça e cúmplices, justiçados ali mesmo, mereceram apoteóticas cerimónias fúnebres. Com D. Carlos morreu o que de melhor tinha Portugal. Com a sua morte entrou o país no turbilhão de que ainda não conseguiu sair: balbúrdia seguida de ditatura, ditadura seguida de balbúrdia. Com o passamento de D. Carlos ficámos mais periféricos, mais encurralados, mais expostos à tirania dos grupos, dos clubes e das curibecas do dinheiro e da ambição.
Não é preciso ler Vasco Pulido Valente ou Rui Ramos, nem mesmo Ramalho para compreender os efeitos imediatos do regicídio. Basta folhear a revista por excelência da belle époque portuguesa - a Ilustração Portuguesa - para comparar a distinção dos tempos e dos modos: o Portugal monárquico, elegante, moderno e europeu; o Portugal primo-republicano pelintra, eriçado de fanatismo jacobino e desligado do gosto e da cultura internacional do tempo.
Precisamos, decididamente, de estudos revisionistas que tratem de demonstrar o fracasso clamoroso da república, que se anunciou a tiros (Porto, 1891), se colocou nos umbrais do poder com um massacre (1908) e se impôs com um golpe (1910) ante a impossibilidade de vencer eleições.
Desde então, o trono vazio aguarda pelo dia em que os Portugueses - sem ameaças nem bombas, sem lojas e sem conspiradores - se pronunciem.

31 janeiro 2006

O Espectro

Está a dar os primeiros passos o Espectro, cuja forma e conteúdo fazem jus àquela homónima publicação animada por Mariano Pina em finais de Oitocentos e que transportava acoplada um ameaçador complemento de título: castigo semanal da política.
Confesso que gosto muito de quase tudo o que Vasco Pulido Valente escreve. O homem escreve com um lança-chamas, é rebarbativo, ácido e impenitente em arranjar inimigos. Como polemista, só o Camilo, o Agostinho Macedo ou o Manuel Maria Múrias. E como já não é de direita, nem de esquerda, tão pouco centrista, dá-lhe um gozo extraordinário ser, sempre, do contra.

A ignorância sai cara

Os estudos coloniais e pós-coloniais estão na moda. Infelizmente, só um punhado de portugueses, grandes leitores e atentos aos escaparates das editoras transelvenses - aquelas que estão para lá da fronteira, pois aqui não se publica, vai-se publicando - se dá conta das novidades. Se os estudos africanos ainda se sustêm graças à torrencial produção conseguida pelos exaustivos levantamentos antropológicos realizados ao longo da década de 60 pelos saudosos Instituto Superior de Estudos Ultramarinos e Junta de Investigação do Ultramar, os estudos orientais nunca tiveram grande tradição em Portugal. Se nos séculos XVI e XVII fomos pioneiros no domínio das línguas e culturas orientais, como o atestam as Cartas Ânuas, os trabalhos de Francisco de Pina na romanização do vietnamita, a Arte breve da lingoa japoa, de João Rodrigues, ou ainda nessas figuras heróicas de António de Andrade, Francisco de Azevedo, Bento de Góis e João Cabral, que da Índia partiram rumo ao Tibete, perdemos todo o interesse pela matéria oriental. Do colégio de Évora saíam missionários com conhecimentos elementares de Guóy (mandarim clássico) e do Seminário Maior de Macau exímios tradutores de japonês e calígrafos de sinogramas. Depois, com os Brasis e as Áfricas em primeiro plano, esquecemo-nos. Em finais de Oitocentos, Vasconcelos Abreu reabriu brevemente a tradição, sendo o último dos portugueses a poder ler o Sutta-pitaka, o Tripitaca, o Ramayana ou o Mahabharata. Tornamo-nos ágrafos na matéria. Ignorantes, também, todos os quadros coloniais e diplomáticos que aportavam a Goa, a Macau, embaixadas e consulados sem saber balbuciar uma palavra e decifrar um caracter. Este afastamento da realidade asiática teve os seus efeitos perniciosos, hoje bem evidentes, no desinteresse, que estimo suicida, da diplomacia portuguesa em relação ao Oriente.
Sem um Instituto de Estudos Orientais, sem um curso superior em línguas, culturas e história orientais, como poderemos ambicionar ao tráfico comercial, à penetração nos mercados, à cooperação cultural, científica e tecnológica com as potências emergentes da Ásia do Sul e do Extremo-Oriente ? A vastidão bibliográfica dos temas relacionados com o Oriente seria motivo sobejo de interrogação, inquietação e espanto se fossemos conscientes do que tal representa. Mas não, ninguém quer saber. Continuamos agarrados à Guiné-Bissau e a Estrasburgo. A qualquer momento a Ásia cai-nos em cima. Não faz mal, não será amanhã: talvez depois de amanhã.

Nobres censores

Agradecido ao João Garcia/João Ribeiro pela oportuna denúncia de uma gralha desasada que aterrou num post aqui ontem colocado. Imperdoável, pelo que me ofereço à polé para reparar o atentado. Ainda ontem, ao assistir a uma discussão parlamentar transmitida pelo Canal da AR, fui confrontado com dois "hadem ver", uma "plantaforma", umas "fraldas da montanha", dois "forums" e "um media". A "comunicação", quando excedentária, é proporcional aos erros que transporta. Se graves são as quebras à ordem do pensamento - paralogismos, contradições -imperdoável será o estupro da língua. Obrigado, pois, às duas sentinelas da língua.

30 janeiro 2006

Lembrar a infâmia


A Real Associação de Lisboa assinala com uma missa no próximo dia 1 de Fevereiro, pelas 19 horas, na Igreja de São Vicente de Fora, o assassínio do Rei D. Carlos e do Príncipe Luís Filipe de Orleans e Bragança. Depois da celebração, terá lugar uma romagem ao Panteão Real, onde SS.AA.RR os Duques de Bragança depositarão uma coroa de flores junto aos túmulos dos dois martirizados.
Acto fundador do advento da república, o regicídio anunciou o trágico século XX português que se saldou pelo corte com a Europa progressiva, o isolamento internacional e a radicalização extrema da vida política nacional, desde então oscilando entre o caos e soluções autoritárias de vária índole. O revolverismo e o dinamitismo que caracterizaram o assalto ao poder do ultra-minoritário Partido Republicano colaram-se depois a um regime que, não tendo jamais auscultado a vontade nacional, ferido por ilegitimidade e marcado por absusos atribiliários, tem sido factor de desunião entre os portugueses.
A figura de D. Carlos, quaisquer que sejam as opiniões que a paixão e o sectarismo possam toldar, é merecedora de atenção. Artista, cientista, cosmopolita, moderno e interventor - filho de um rei melómano, sobrinho de um rei letrado, neto de um rei-artista - D. Carlos foi injustiçado por um país lôbrego e recalcado. Não tivesse sido assassinado e Portugal não se teria envolvido nessa estúpida guerra mundial que consumiu vidas e a riqueza nacionais e não teria, depois, resvalado para uma ditadura que só se legitimou na evocação do fracasso do tonto jacobinismo primo-republicano. A reforma profunda do Estado e da classe política que pretendia eram tão acertadas quanto temerárias. Hoje, volvidos quase 100 anos sobre o vergonhoso acto terrorista do Terreiro do Paço, mantém-se, intocada, a grandeza desse que foi um dos grandes monarcas portugueses.

Cavaco e os dossiers

Cavaco Silva vai hoje a Belém buscar os dossiers que Sampaio acumulou ao longo de dez anos. Esperemos que se mantenha fiel à palavra de ordem da austeridade orçamental e não volte a permitir que informação relevante se misture com ganga de terapia ocupacional de assessorias perfeitamente ridículas com que o seu predecessor entreteve os gabinetes do palácio. Aquelas dúzias de "conselheiros" nulos foram um escândalo para a inteligência e o decoro. A república, se quer copiar a monarquia, que se interesse por coisas mais importantes.

29 janeiro 2006

Quando lá residia 70% da riqueza mundial

Leio, com um indesculpável atraso de nove anos, o Victoires et déboires, de Paul Bairoch. Uma revelação escaldante, que nos enche de espanto e relativiza todos os truísmos com que havíamos construído certezas da superioridade que proporcionara a arrancada imperialista da Europa nos séculos XVI e XVII. Bairoch, cujos estudos assentam num impressionante aparato documental, demonstra o contrário. No século XVIII, 70% das riquezas do mundo eram repartidas entre a Índia Mogol e a China Ching. Mutatis mutandis, a China e a Índia da altura faziam três américas e cinco europas de hoje. A economia mundial é marcada por estas errâncias. Se as condições mudam, a riqueza transforma-se em miséria e a miséria devém opulência.