27 janeiro 2006

Four Reigns: o monumento

Um monumental afresco que ultrapassa largamente qualquer grande romance de ambiência histórica produzido no Ocidente. De Kukrit Pramoj (lê-se Karkrit Pramoja), o príncipe das letras siamesas, estes quatro reinados para quem quiser transpor os portões do palácio dos Chakri e mergulhar na alma dos tailandeses. A ocidentalização de um estado asiático, da monarquia absoluta nos umbrais de novecentos à emergência do constitucionalismo, a vida na corte, as intrigas, os amores e vinganças e a pressão dos estrangeiros numa interminável sucessão de quadros e vivências em que a procura do verismo não tolda a deslumbrante beleza literária.

Os crioulos portugueses no Oriente

Artigo de Jorge Morbey inserto na edição do jornal Ponto Final (de Macau) de 24 de Janeiro.
CARTA ABERTA AO PRESIDENTE ELEITO DA REPÚBLICA PORTUGUESA, PROF. DOUTOR ANÍBAL CAVACO SILVA

Macau, 23 de Janeiro de 2006

Senhor Presidente,

Acaba Vossa Excelência de ser eleito Presidente da República Portuguesa. Felicito-o e faço os melhores votos de que o desempenho de Vossa Excelência contribua efectivamente para o sucesso de Portugal e dos Portugueses.
Em carta dirigida às Portuguesas e Portugueses da Diáspora, datada de 16 de Janeiro de 2006, Vossa Excelência prometeu criar uma assessoria política para as Comunidades Portuguesas no âmbito dos serviços da Presidência da República.
De entre todos os Portugueses, desejo referir a Vossa Excelência os mais esquecidos ou - melhor dizendo – as excluídas Comunidades Crioulas Lusófonas do Oriente.
O Século XVII foi a época da consolidação de uma nova ordem europeia no domínio do Mundo cujo exclusivo - ditado em Tordesilhas - deixou de pertencer aos países ibéricos e, em várias partes, foi derrubado e substituído pelo domínio de holandeses, ingleses e franceses.
A abertura dos mares à navegação de outros países europeus, além de Portugal e de Espanha, foi o resultado da perda do exercício do poder central europeu pela autoridade pontifícia - que vigorava desde a queda do Império Romano - por acção da Reforma iniciada com Martim Lutero.
A transferência de domínios entre países europeus – de Portugal católico para a Holanda protestante, principalmente - constituiu o pano de fundo em que emergiram as Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente.
Com a substituição da dominação portuguesa pela holandesa, permanecendo nas terras que as viram nascer, deportadas para outras paragens, ou forçadas à emigração, essas comunidades mestiças talharam a sua identidade própria que perdurou até aos nossos dias, assente em dois pilares principais: a religião católica e a língua crioula.
A religião católica fora trazida pelos portugueses, directamente de Portugal ou através de Goa – a Roma do Oriente. Convertidos ou nascidos nela, com ela haveriam de morrer, geração após geração.
A sua língua – o crioulo - era a língua portuguesa na formulação que lhe garantira o estatuto de língua franca no litoral da Ásia e da Oceania, desde o Século XVI até à sua substituição pelo inglês, no Século XIX. Holandeses, ingleses, dinamarqueses e franceses não podiam prescindir de um “língoa” [intérprete] a bordo para poderem comerciar nos portos do Oriente, na língua que era - nada mais, nada menos – aquela que as Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente falavam e, muitas delas, ainda falam. Tratados, entre esses países europeus e poderes locais, foram firmados nessa mesma língua, por ser a única a que os europeus podiam recorrer para comunicar no Oriente, ainda que contra os interesses portugueses.
Ainda hoje, em muitas partes deste lado do Mundo, “Cristão” [Kristang] e “Português” [Portugis] são sinónimos.
A forte identidade das Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente cimentou-se em grande parte na adversidade. O conflito religioso nascido na Europa, entre católicos e protestantes, ramificou-se por todas as paragens do Oriente onde o poderio holandês se firmou. A profanação e a destruição de igrejas e mosteiros, a expulsão dos padres, a proibição de qualquer acto de culto católico, as deportações maciças, a redução de muitos à condição de escravos, compeliram os membros dessas cristandades à clandestinidade e à emigração: Macau, Índia, Insulíndia, Sião e Indochina foram os seus destinos principais.
Os que teimavam em ficar, escondidos em suas casas ou refugiados nas florestas, celebravam como podiam os actos de culto da religião católica. Sem padres e sem igrejas, organizaram-se em irmandades clandestinas que, ao fim de décadas, produziram fenómenos de cristalização cultural, de natureza religiosa - e linguística – que impediriam, por séculos, a sua plena integração nas paróquias criadas posteriormente. Tais irmandades permaneceram até aos nossos dias e conservam determinadas prerrogativas que limitam a autoridade dos párocos, o que é visível em algumas celebrações onde os sacerdotes se limitam à Eucaristia e à Confissão dos fiéis porque, em tudo o mais, quem manda é a Irmandade.
À medida que a dominação holandesa foi sendo substituída pela inglesa, as Comunidades Crioulas Lusófonas do Oriente foram ficando menos oprimidas e, em alguns casos, foram as próprias autoridades coloniais britânicas a tomar a iniciativa de lhes facultar padres portugueses.
Perdida a confiança que a Santa Sé depositara desde o Século XV em Sua Magestade Fidelíssima o Rei de Portugal, na sequência do corte de relações diplomáticas por iniciativa do Governo liberal em 1833 e a extinção das ordens religiosas por decreto de 31 de Maio de 1834, o Padroado Português do Oriente sofreu um golpe mortal, na Índia, no Ceilão - hoje Sri-Lanka -, no Sudeste Asiático, na China e na Oceania. Permanecendo - os que podiam - nas suas missões, os missionários religiosos do Padroado não seriam substituídos pelos seus confrades. O clero secular de Goa, numeroso e bem preparado, acorria em socorro das Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente que iam ficando sem religiosos. Quase sempre em vão. Os missionários da Propaganda Fidae e das Missions Étrangères de Paris já as ocupavam e os respectivos vigários apostólicos impediam-lhes o exercício do seu múnus. A expansão missionária francesa no Oriente começara ainda no século XVII.
As Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente - gente simples e temente a Deus - mantidas na ignorância dos conflitos entre Portugal e a Santa Sé, lutaram anos sem fim contra as novas autoridades eclesiásticas com quem conflituavam abertamente e às quais consideravam estrangeiras. Durante décadas pagaram o elevado preço de lhes serem recusados os sacramentos a que só esporadicamente tinham acesso quando aportava um navio com um sacerdote, ainda que espanhol. Clamaram sempre pelo envio de clero. De Portugal, de Goa ou de Macau. Em vão.
A firme identidade das Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente, ainda hoje, evita o casamento dos seus membros com indivíduos exteriores a elas e prefere que os futuros cônjuges provenham do seu seio ou de outras cristandades, ainda que distantes. Quando assim não acontece e o casamento une um membro da Comunidade a alguém que a ela não pertence, a regra é a conversão deste à religião católica e a aprendizagem da língua crioula.
Algumas dessas comunidades desfrutam de um status social positivo nos países onde vivem. Outras, porém, são socialmente desqualificadas e os seus membros são depreciativamente designados por “negros”, apesar da sua côr mais clara - da pele, do cabelo e dos olhos - relativamente aos naturais com outras origens étnicas.
A nível individual, nos países onde vivem, podem encontrar-se membros originários destas comunidades nos mais elevados estratos da sociedade: do mundo da política à actividade empresarial próspera, nas mais elevadas funções da hierarquia eclesiástica ou simples párocos de aldeia. Onde se verifique a existência de uma significativa percentagem de membros destas comunidades no clero católico, isso parece resultar da intensa discriminação de que são objecto no acesso ao ensino público e ao mercado de trabalho – público e privado. Em geral, dedicam-se a actividades modestas. São pequenos proprietários, simples trabalhadores agrícolas ou pescadores.
Embora omitindo algumas - que se acrescentam entre parêntesis - Leite de Vasconcelos, em 1901, como ensina Baltasar Lopes da Silva no seu “Dialecto Crioulo de Cabo Verde”, estabeleceu um quadro do que chamou “dialectos ultramarinos do português”:

Em África: Cabo Verde, Guiné-Bissau, S. Tomé, Príncipe e Ano Bom.

No Oriente: Diu, Damão, Mangalor, Cananor, Mahé, Cochim, [Bombaim e Negappattinam], na Índia; Ceilão [Batticaloa, Trincomalee, Puttalam]; Macau [Hong Kong e Xangai onde se extinguiu em 1949/50]; Java [Tugu e Brestagi], próximo de Jacarta; Malaca [Alor Star, Penang, Perak, Kuala Lumpur, Seremban e Johor Baru, na Malásia] e Singapura.

Mas a língua crioula falou-se também nas Cristandades Crioulas Lusófonas da Tailândia – Ayutia e, posteriormente, Bangkok - até aos anos 50 do Século XX, onde permanecem vocábulos de uso corrente no relacionamento familiar e nas práticas da religião católica. Na Indonésia, além de Java, na ilha das Flores [Larantuka e Sikka], nas ilhas de Ternate e Tidore e em Bali. Em Timor [Lifau e Bidau]. No Bangladesh - Chittagong e Dhaka – até aos anos 20 do século XX era muito viva a presença da língua crioula nas Cristandades locais. Numa breve e recente passagem de poucas horas em Dacca pude certificar-me da existência de vocabulário crioulo entre os católicos locais.
A pequena Cristandade Crioula Lusófona de Korlai [junto a Chaúl], na Índia, somente em 1982 seria revelada ao Mundo pelo etnólogo romeno Laurentiu Theban. O seu crioulo é designado por Kristi.
A Cristandade Crioula Lusófona da Birmânia – Myanmar actualmente – já não usa a língua crioula e, ao contrário das demais, perdeu com o tempo os próprios nomes e apelidos cristãos, apesar de permanecer fiél à religião católica.
Com a descolonização das antigas colónias portuguesas de África foi restituído aos seus povos o direito de decidirem sobre as suas línguas nacionais. Em todas elas o português foi adoptado como língua oficial, ao mesmo tempo que se reconheceu expontânea dignidade às línguas maternas dos seus povos.
As Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente, substituído o domínio português, permaneceram sob domínio colonial europeu que as hostilizava ou, pelo menos, não dignificava. Assim permaneceram até à independência dos países em que se encontram, onde constituem minorias com reputação variável em cada um deles. Por naturais razões de unidade do Estado, esses países mantiveram como língua oficial o inglês – a língua do último colonizador – e privilegiam uma das suas línguas como língua nacional.
O poder colonial inglês não descolonizou as Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente, no sentido de restituir dignidade à sua identidade, de que a língua crioula faz parte integrante, o que, aliás, não era de esperar. Nem é de esperar que os poderes pós-coloniais de motu proprio venham a dedicar-lhes a atenção a que têm direito.
A incapacidade de Portugal nesta matéria tem sido uma evidência secular, filha da ignorância e do preconceito.
Em Janeiro de 1996, teve lugar em Malaca uma Conferência sobre “O Renascimento do Papiá-Cristão e o Desenvolvimento do Património Malaco-Português”, a que tive a honra de presidir na qualidade de Adido Cultural da Embaixada de Portugal, a convite da respectiva Comissão Organizadora.
Entre as comunicações apresentadas, abordaram-se temas da maior importância:

- as dificuldades para os pescadores que representam cerca de 30% da Comunidade, em consequência dos planos de desenvolvimento local prevendo extensos aterros;

- o estudo, então em curso, para avaliação do número de falantes do Crioulo [Kristang] e necessidades para o respectivo ensino;

- o crescente interesse da população estudantil da Malásia, espelhado em teses universitárias versando a influência do Português sobre o Malaio e de docentes universitários daquele país empenhados em trabalhos de investigação sobre o Papiá-Cristão;

- a sumariação dos crioulos existentes no mundo, seus diferentes estatutos, intercâmbio dos seus falantes para troca de experiências, inventário das respectivas necessidades, modos de entreajuda e internacionalização desse património comum espalhado por vários países;

- a complexidade do sistema educativo da Malásia em que coexistem várias línguas e que permite a inclusão de qualquer idioma – incluindo o Papiá-Cristão e o Português padrão – mediante requerimento de quinze pais ou encarregados de educação, etc.

Expressa ou implicitamente os oradores apelaram ao apoio de Portugal e das Fundações Portuguesas. Estávamos no início do ano de 1996. Uma das dez conclusões da Conferência consistiu no pedido de avaliação das possibilidades de ligação das Comunidades Crioulas Lusófonas do Oriente à Comunidade de Povos de Língua Portuguesa (CPLP). Outra propunha que Portugal viabilizasse a organização de um pavilhão das Comunidades Crioulas Lusófonas do Oriente na EXPO 98.
Tudo foi transmitido ao Governo português pelos canais habituais. A primeira resposta recebida enviava o preçário para arrendamento dos pavilhões! Insistiu-se através de nova diligência procurando explicar melhor o sentido e alcance do que se pretendia. A resposta foi a de que cada Comunidade deveria diligenciar a sua inclusão nas representações dos respectivos países à EXPO 98, o que encerrou definitivamente o assunto.
Como me referiu o Arcebispo Emérito de Mandalay, na Birmânia, U Than Aung - descendente de portugueses - onde a maioria do clero católico é de origem portuguesa e cuja Comunidade tem as suas origens na cidade de Pegú no ano de 1600, quem nunca recebeu a mais ténue manifestação de solidariedade de Portugal nada tem a esperar daí.
Na verdade, o que poderão as Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente esperar de Portugal? Reflectindo um pouco, parece poder concluir-se que:
Não rendendo votos aos partidos políticos, nem remessas de divisas como as dos lucrativos emigrantes portugueses no estrangeiro, não existe para tais cristandades um departamento governamental como existe para aqueles.
Não proporcionando negócios, nem representando quota significativa de mercado nas exportações portuguesas, não existe para elas lugar num departamento governamental semelhante aos que se dedicam à cooperação com a África ou a Europa.
Não gerando receitas para o Fisco e para a Segurança Social portuguesa, nem estando a sua força de trabalho à disposição de empresários portugueses, nada existe para elas semelhante a um Alto Comissariado para as Minorias Étnicas e Imigração.
Na estrutura do Governo e da Administração em Portugal não existe espaço nem atenção para as Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente, porque elas não são lucrativas para os cofres do Estado Português.
Ricas e poderosas instituições privadas que obtiveram o estatuto de utilidade pública, criadas com muito dinheiro levado de Macau para Portugal - em condições que não dignificaram o País - e que, em princípio, deveriam prestar atenção às Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente – não sabem onde estão, quantos são, que carências têm e as potencialidades que nelas existem.
As Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente são, assim, comunidades de portugueses excluídos, apesar do seu forte sentimento de pertença a Portugal.

Senhor Presidente,

No cumprimento da promessa de Vossa Excelência, na carta acima referida, de criar uma assessoria política para as Comunidades Portuguesas no âmbito dos serviços da Presidência da República, venho sugerir-lhe vivamente a inclusão das Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente!

Bem haja!

Jorge Morbey

26 janeiro 2006

Egoísmos trágicos


Vivemos há quase dois séculos marcados por essa trágica fractura que foi a guerra civil que opôs liberais e tradicionalistas. Não sendo propriamente um amante da história à André Castelot, à Mário Domingues, Rocha Martins ou Elaine Sanceau, não podemos deixar de assinalar a marca dos homens singulares no curso dos acontecimentos. Não que a úlcera de Napoleão, a demência homicida de Estaline ou as tremendas bebedeiras de Alexandre possam ser ponderadas no quadro, esse sim relevante, dos factores materiais, culturais e geopolíticos de momentos particularmente "interessantes" da história mundial, glosando a equívoca expressão de Hobsbawm. Contudo, a estupidez humana - apenas comparável ao heroísmo, que a sobrepuja - é capaz de interferir, marginal mas inelutavelmente, no resultado imediato de uma batalha, de uma guerra ou até de um caso sentimental.
Levanta um tribuno (arcádico) da nossa comunidade o problema, aliás nunca resolvido, da responsabilidade dos manos Miguel e Pedro nessa estúpida guerra que enlutou, desgovernou, empobreceu e talhou o futuro de Portugal. Sim, foram o egoísmo, a vaidade, a casmurrice caprichosa de dois homens que tornaram possível a justificação de dois "partidos" que, mesmo existindo com ou sem o protagonismo daqueles, jamais teriam fixado tantas dedicações e justificado tantos crimes se os senhores príncipes a eles não tivessem emprestado liderança simbólica. D. Miguel e D. Pedro interferiram funestamente. Invocando valores e ideais políticos antitéticos, deram-lhes rosto, justificaram o fratricídio, empenharam toda a riqueza do país e semearam a geografia portuguesa de crispações e cemitérios. Tivessem sido mais comedidos e menos arrogantes, Portugal teria conseguido evitar uma guerra civil. Sei que por detrás de D. Pedro andavam, espicaçando, os Mendizábal, as maçonarias e os tratantes do Port Wine, como atrás de D. Miguel - exclusão feita a essas duas enormes inteligências que foram o Visconde de Santarém e José Acúrcio das Neves - vinha a fradalhada ignorante, o marialvismo boçal e muita canalhice plebeia. Mas se o bom senso, a meridiana sensatez que tanta falta faz a esta nação, houvessem prevalecido, ter-nos-iam poupado décadas de imobilidade que se revelariam fatais para o lento apagamento do país no quadro mundial.

25 janeiro 2006

Tremenda saudade dos trópicos



Audrey Hepburn-"Moon River"

Que pena não os compreender e ir atrás


Uns falam apaixonadamente da bola; outros exibem genuíno encantamento pelos "ideais", "valores" e "tradições"; outros ainda dizem comungar da verdade com o "Deus verdadeiro"; outros sentem-se instrumentos da "revolução redentora", determinados a salvar o mundo do caos, vingar os pobres e os explorados. Como invejo o estádio adolescente. Como tudo é mais fácil quando a vontade de ser iludido se sobrepõe à bolha de lama onde se entredevoram os fugazes micro-organismos aspirando à eternidade. Os livros são verdadeiramente perigosos. A idade e a sabedoria são execráveis. Queimassem as bibliotecas, não deixassem um homem passar dos 30 e tudo seriam ideais inquebrantáveis, fidelidades couraçadas, amores eternos, lutas com sentido, matanças desculpáveis, cruzadas justificáveis. Aos 18 julgava possível a conquista do mundo. Aos 25 reduzi a escala, contentando-me com Portugal. Aos 35 pensava uma carreira. Hoje só quero a solidão. Descobri finalmente, que o único sentido das coisas é não terem sentido algum.
E esta, ó Misantropo ?

800 anos de Gengis Khan


A Mongólia prepara com grande entusiasmo os oito séculos da criação do império que um dia se estendeu da Coreia à Ucrânia, da tundra russa à Birmânia. Foi o último grito extravagante do nomadismo, esse outro caminho paralelo à civilização, que rima com urbanização, domesticação e sedentarismo. Com Temüjin, um insignificante povo fintou a duvidosa linearidade e racionalidade da história, desfez impérios, diluíu etnias, apagou culturas e línguas, estatelou santuários e impôs a ferro e fogo o diálogo entre a Europa e a Ásia, que havia sido interrompido pela ascensão dessa detestável civilização autista que dá pelo nome de Islão. Não fosse a morte prematura do Grande Cão e Roma teria sido conquistada pelas hordas e talvez Karakorum se tivesse convertido ao cristianismo. Diziam os gregos que quem conquista é habitualmente conquistado. Os mongóis perderam o fôlego e deixaram-se conquistar pela pacatez das hortas e pomares, pelo dinheiro e abundância que corre nos bazares, pele tremendo poder encerrado nas bibliotecas e arquivos. Burocratizados, fartos e rotundos, amolecidos por três refeições e pelos haréns, desapareceram de cena. Hoje, nostálgicos dessa maravilhosa lenda de conquistas a tropel, olham o passado como nós as caravelas.

24 janeiro 2006

Ó Jansenista, que excelente provocação mediática


O Jansenista lançou um carnudo isco e lançou a confusão. Como admiro os praticantes da "propaganda pelo facto", com Ravachol à cabeça, pressuponho que uma das mais notórias presenças da blogosfera tenha querido espicaçar com panache e aristocrática irreverência os monárquicos, obrigando-os a uma psicanálise involuntária.
Julgo, porém, que uma réplica exige fogos de preparação que amaciem o "contraditor".
1) Em primeiro lugar, declara-se-me evidente que o Jansenista preserva uma memória erudita bem escorada nos clássicos sobre a "decadência" romana, nomeadamente, as Considérations sur les causes de la grandeur des Romains et de leur décadence, de Montesquieu, e a notabilíssima History of the Decline and Fall of the Roman Empire, de Gibbon. São esses textos de referência que inauguram a "lenda negra" da monarquia primitiva da Roma pré-republicana, bem como a igualmente bem urdida lenda da conversão da república numa outra variante monárquica a que chamaram de cesarismo. Ora, e sempre antecipadamente atento à ilustração do Jansenista, socorro-me de uma tipologia "antiga" dos regimes políticos. Parece-me pacífico o arranjo do Estagirita, segundo o qual tirania e monarquia seriam fórmulas absolutamente opostas de legitimação do poder, uma por via da força, outra da tradição. Se o despotismo era a forma "asiática" do exercício do poder real, a tirania só se realizaria depois de alcançada e decaída a república.
As tiranias modernas, com Cromewll à cabeça, nasceram de repúblicas. Quanto às monarquias "absolutas", como a historiografia contemporânea finalmente deduz, abriram passo à indiferenciação dos súbditos relativamente ao rei. Logo, as monarquias absolutas abriram as portas à igualdade jurídicam e anunciaram o advento da forma específica democracia liberal a que os britânicos chegaram sem vão derramamento de sangue.
2) A gravitas republicana e patricia que Jansenista invoca - a tal ética republicana - foi mutilada por Sula e enterrada definitivamente por Augusto, nada tem a ver com o republicanismo moderno. Aliás, da Antiguidade nada chegou até nós que não fosse sob a forma de caricatura renascentista ou Iluminista. A monarquia, como a entende o Jansenista, parece saída de um dos estádios intermédios do Sr. Comte, pois corresponderia, na leitura que faço do texto, a uma necessidade ingente de deslumbramento irracional e da presença paternal. Ora, e sem querer voltar ao cansado filão de Maurras - que abomino pela ligeireza com que pretendeu "demonstrar" a "cientificidade" da monarquia - deduzo que essa prodigiosa máquina de imagens que é a nossa inteligência tenha empurrado o preclaro Jansenista para a mesma galeria de referências pictóricas com que se nutriu o republicanismo Oitocentista para abater a monarquia. Não deixa de ser revelador o facto do mais profundo teórico do republicanismo português, Basílio Teles, haver proposto uma ditadura como partejadora do civismo. Contudo, BasílioTeles escreveu num tempo em que a ditadura ainda não atingira a perigosa tentação de eternização. O grande escopo de reflexão da filosofia política hodierna gravita em torno da liberdade. Depois dos totalitarismos, compreende-se, finalmente, que foram a democracia igualitária - a democracia totalitária (vide Paulo Otero) - e uma ideia falseada de república que justificaram os maiores excessos do século XX. As monarquias tradicionais foram mais "respublicanas", mais consensuais, mais preservadoras das liberdades e mais respeitadoras das diferenças e "opacidades" (Julien Freund) que as repúblicas de signo iluminista e positivista. Nas monarquias constitucionais, o pacto realiza-se sob o patrocínio de um poder não-democrático, dinástico e hereditário, que garante o jogo político. Aliás, em qualquer circunstância da vida social, o árbitro é sempre imposto aos jogadores, sendo por estes precisamente respeitado pelo desinteresse em relação ao objecto em disputa: o poder. É precisamente por isso que 90% das monarquias oferecem índices de maior respeito pela liberdade individual e colectiva. É precisamente por tal motivo que as monarquias são, como poder não-democrático, uma salvaguarda para a lisura do processo democrático de competição. Salvo duas ou três excepções (aponto o Nepal, onde o rei-ditador parece ser emanação da tradição do culto do deva-rajá, rei-divino), foram as repúblicas que reinventaram, colando-os, a associação entre o poder executivo e o poder simbólico. Ou seja, a república é legitimadora do poder pessoal, poder carismático, PATERNAL e autoritário. As monarquias constitucionais, retirando-se do jogo pelo poder operativo (aquele que interfere directamente), passaram a ser a ultima ratio populis, quando o povo sente a arbitrariedade e a violação das regras que anteparam a sua liberdade.
Eis, grosseiramente, as razões que me levam a ser monárquico. Ficaria muito satisfeito se Pedro Guedes , Manuel Azinhal , Geraldo e o Corcunda dessem uma mãozinha, ajudando a alimentar a lareira, posto que o amigo Misantropo já contribuiu para a oferenda.

Couto Viana: lançamento

É lançado hoje o novo livro de António Manuel Couto Viana, "Restos de quase nada e outras poesias", editado pela Averno, no dia mesmo em que o autor perfaz 83 anos de idade. Poeta, contista, ensaísta, actor, dramaturgo, encenador e figurinista, Couto Viana é, sem discussão, uma das mais importantes figuras vivas da cultura portuguesa. Ao cabo de sessenta anos de exemplar actividade criadora dá a lume este novo livro, com apresentação de Pedro Mexia e declamação a cargo da actriz Cecília Guimarães. Hoje,terça-feira, pelas 18.30 horas, no Círculo Eça de Queirós, sito no LargoRafael Bordalo Pinheiro, n.º 4, em Lisboa.

23 janeiro 2006

Latidos, uivos e venenos

Dou uma volta pelos blogues das direitas e das esquerdas. Mais uma vez, em toda a sua sombria mediocridade, os insultos de quem tem medo de dar a cara, os despeitados, os difamadores, os ressabiados, as eternas e cobardes hienas debicando, latindo e intrigando. Este país dá vontade de morrer. Tudo tão pequeno, tudo tão liliputiano. O português médio só se compraz com a ironia, o despedaçar, o difamar. Cavaco ganhou ontem [sem o meu voto, pois sou monárquico], mas não alimento, com uma só vela que seja, o altar das missas negras e do vodu que por aí vai. Se ele quer ser "o Presidente de Todos os Portugueses", que seja. O princípio de honestidade - que só lhe fica bem - é prontamente repelido pelos que votaram nos outros e não tiveram terminação no bilhete, pelos que não tiveram candidato pois não há candidatos de "direita", pois estúpida é a nossa direita, e pelos sempiternos adeptos do quanto pior melhor. É por isso que sou cada vez mais apolítico, cada vez mais menos cidadão, cada vez mais ansiando ser súbdito.
Como sou, resolutamente, partidário da terapia pela música ( e pela pintura, e pela literatura), sugiro uma tisana que insufle grandeza às almas carpideiras, às bocas maledicentes e aos dedos farruscados.
-"Eroica"

Um cego a guiar cegos: apostila ao silêncio


A república deu mostras de quão uma instituição pode dividir a nação, de quão impulsivos e sebásticos são os nossos concidadãos e quão inútil e fugaz é a vertigem da actividade política. Soares morreu politicamente, Alegre nada poderá fazer com os votos que recebeu, Anacleto não pegou e o PC cristalizou-se num voto geracional e suburbano que desaparecerá dentro de 5 a 10 anos. Cavaco triunfou, aliás merecidamente, pois não havia alternativa.
O fair-play de Soares foi tardio e soou a mau perder, a inaudita sobreposição do primeiro-ministro à intervenção de Alegre foi um instantâneo de mau gosto, a discursata de Louçã foi pa-té-ti-ca e a "sedada" de Sousesco(versão intramuros das "arruadas") um digestivo pouco convincente. Com as eleições de ontem despediu-se, sem honra nem glória, o fundador de um regime. Dir-se-ia que uma insondável pulsão suicidária o obrigara a trepar pela Rocha Tarpeia e lançar-se no vazio. Ninguém lhe pediu o suicídio, mas a verdade é que ninguém o impediu. Um cego a guiar centos de cegos à beira do abismo. Não eram notórias a sua diminuição, a total desadequação às circunstâncias e a confrangedora fixação, sintomas que qualquer médico, sem grande dificuldade indiciaria ?
Os partidos, a gente da política e suas cortes, grandes e pequenas, vivem em aquários. Vivem noutro mundo, imersos em fantasias e ambições de mando e lucro, pelo que, ante uma derrota clamorosa, desencadeiam mecanismos de fuga e desresponsabilização próprios de crianças, de autistas ou de jogadores viciados nos paraísos artificiais do poker.