20 janeiro 2006

Nostalgia RDA: paradas, racionamento e volksgemeinschaft



-"Stalin Freund Genosse"

Portugal en bleu


Yvette Giraud-"Avril au Portugal"

-"Bonsoir jolie Madame"

Dormir com a pistola em baixo da almofada


Disse-me ontem um amigo de longa data que na cidade onde vive (Durban) se dorme sempre com uma pistola em baixo da almofada. Famílias há que mandaram erigir verdadeiras muralhas de espigões em torno das suas casas. Em casos extremos, para além das grades nas janelas, há portas gradeadas dentro das casas. Assim, dá-se prioridade a moradias que tenham casa de banho anexa ao quarto de dormir, pois, durante a noite, não corre o incauto morador o risco de ser estrangulado no corredor ou na sala de visitas. Aquilo é um inferno. Nem por todo o ouro do Rand me aventurava por essas paragens, até porque, mesmo tendo sido militar durante cinco anos, fartei-me de praticar em carreiras de tiro e nunca acertei um no alvo. Na minha África de criança, em plena selva, rodeados pelo rugir das feras, dormia-se a sono solto sob um mosquiteiro. As portas eram de rede e os criados entravam e saíam de casa a qualquer hora. A África Minha está, realmente, morta. E tudo o vento levou...

Quando os Europeus entravam no Sião de gatas

O Rei Narai Recebe o Cavaleiro de Chaumont, embaixador de Luís XIV

Cumprem-se hoje 400 sobre a chegada a Ayuthia do Padre Baltasar de Sequeira, grande missionário jesuíta e conselheiro do rei do Sião. Os portugueses encontravam-se então em todos os azimutes da Ásia, comerciando, guerreando, intrigando e evangelizando. A recente publicação da Embaixada ao Sião de Pero Vaz de Sequeira (1684-1686) veio trazer nova luz sobre as relações profundas existentes entre Portugal e os potentados do sudeste-asiático. Ao contrário dos restantes "farang" britânicos, franceses e holandeses, cujas memórias parecem ofuscar o pioneirismo dos nossos aventureiros, a comunidade protuguet no velho Sião foi obra que excedeu largamente o trato comercial. Nas cercanias da antiga capital do vale do Chao Phraya viviam cerca de 2000 mestiços luso-siameses assistidos por uma missão. Os arcabuzeiros e artilheiros portugueses constituiam a força de choque do Senhor do Elefante, os comerciantes de Macau entravam e saíam carregados de mercadorias e os padres da Companhia de Jesus tentavam por todas as artes e manhas trazer à fé de Cristo os seguidores de Phra (Buda). Quanto aos restantes europeus, esses também se acercavam o Grande Rei, mas de gatas.

19 janeiro 2006


Zara Leander-"Eine Frau von Heut'"

Kolossal


Preludes - Liszt

Soares, o povo português e a direita

Não subscrevo grande parte dos comentários de mau gosto diariamente debitados contra a velhice de Soares. As permanentes acusações de caquexia de Macróbio, para além de idiotas, exibem o ódio dos portugueses contra os velhos. Numa terra onde os animais de quatro patas só são queridos no tacho e a natureza só é estimada na salada, os velhos são um problema acrescido: não se podem comer e só dão arrelias.
Dizia ontem um dos seus caudatários que "um dos males de Soares é o de ser bom demais para Portugal". Não concordo. Soares foi o que foi - é o que é - por ser, sem tirar nem por, igual à generalidade dos portugueses: é o cúmulo da mediania nacional, que compagina com ociosidade, ausência de substância, arranjismo, falta de estudo e método, uma habilidade napolitana, um improviso roçando o crime involuntário. Soares é como todos os que o querem e odeiam: não perde oportunidade de opinar sobre o que desconhece, não deixa de favorecer a parentela e julga-se o máximo. Nisto, o que o separa da loura manicure, do advogadozinho impante e do taxista "com quinta lá na terra" é quase nada. Soares é a quinta essência da vulgaridade nacional. É o país que temos. Para não termos Soares era necessário mudar o "bom povo português", que de bucólico não nada tem.
A direita portuguesa tem, desde 74, um ódio de estimação por Soares. Porém, rendeu-se ao inexplicável fascínio de Cunhal. Como sempre, a direita portuguesa - a tal "mais estúpida da Europa" - não compreendeu que com Soares sempre fez e disse o que queria. Alguma até o serviu. Alguns ministros do Estado Novo serviram-no e com ele estabeleceram relações de interesse e vassalagem. Cunhal era diferente. Cunhal era um psicopata político e levá-la-ia [à direita] para as catacumbas, o exílio ou para a prisão. Soares é hoje uma coisa e amanhã outra. É um latino. Um português que podemos encontrar na taberna, na secretaria-geral, na bancada do estádio, na bolsa de valores ou no café. Um português, dos mais representativos, porque é um estereótipo do povo que o ama e detesta.

18 janeiro 2006

Depois do almoço, vou "votar"

Depois do almoço e de fazer uns pesos, casually dressed lá irei pinchar o VIVA O REI no dia 22.

Coisas espantosas de uma campanha republicana

Fiquei elucidado com a campanha que tantas paixões prosaicas tem desencadeado numa terra onde nada de relevante tem acontecido desde o grande sismo. Fiquei a saber que o PCP deixou de ser o partido dos mesteirais e que se rendeu à micro-burguesia poujadista ("pequenos comerciantes", "pequenos proprietários", "pequenos empresários); que o alegrismo substituiu o marialvismo de toiros, fado e tinto por poemismo de melro acádico e prosopopeia de academia; que Soares chegou, finalmente, às portas da Terra Prometida, e como Moisés a ela não chegará; que o inefável sacristanete Louçã até gostaria de ostentar a Torre Espada e pousar para fotografia de repartição pública e que Cavaco, com dicção corrigida e tudo, restaurou em toda a excelência a velha arte oratória e barroca do dizer muito sem nada dizer.
Coisas espantosas, como as da obra homónima de Camilo. Isto é um país de portentos.

17 janeiro 2006

A traição

(Alma Tadema. O novo César)

O nosso confrade do Je Maintiendrai - que no curto prazo de algumas semanas se impôs como uma das minhas predilecções, pela excelência da forma e caudaloso conteúdo erudito que apõe a tudo o que escreve - dedica hoje uma inteligente reflexão ao tema da traição. A traição é tão misteriosa, poderosa e omnipresente como a morte, associando-se de forma rude e violenta à génese da nossa civilização, que começou com a crucifixação e morte do seu fundado, traído e vendido por um dos seus.
O tema da traição foi brilhantemente abordado por André Thérive (1891-1967) - companheiro de Robert Brasillac e crítico literário do Action Française - num ensaio infelizmente muito pouco lido (Essai sur les Trahisons). É evidente que, depois de Maquiavel e Hobbes, a traição perdeu a ressonância metafísica que a sustentava - o mal como manifestação de privação da verdade - e deslocou-se para a esfera mundana da etiologia da privação moral e física. A traição é um dado do jogo humano e só se desencadeia e manifesta quando a vigilância e desatenção psicológica de quem a sofre torna possível tal atropelo à saudável expectativa de retribuição do bem (moral) pelo bem. Ou seja, só somos traídos por aqueles em quem depositamos a maior confiança. Os grandes traidores estão sempre muito próximos, partilham dos nossos segredos, das nossas fraquezas, dos nossos lamentos. O traidor não é o inimigo. O traidor vive intramuros, pelo que a sua eclosão nos destrói ou magoa profundamente. Nos nossos provérbios, locuções e frases feitas abundam as alusões ao "morder a mão que nos alimenta", à ingratidão e à traição. Porém, a traição política desenvolve-se num outro patamar. É uma traição pública e inscreve-se num programa de acção que não coloca frente-a-frente dois seres humanos singulares, mas desvela uma inteligência e uma finalidade em que os homens não são mais que instrumentos. O assustador de tudo isto é que, com propriedade, em política a traição é um recurso tão aceitável como a aliança, a protecção e a honestidade. Dizia Thérive que, em política, "a traição é uma questão de tempo". Como muito bem lembra Je Maintiendrai, a traição exige inteligência, pelo que aqueles a quem chamamos de traidores não são, por ausência de inteligência, merecedores desse apodo. São, as mais das vezes, oportunistas, arranjistas e medíocres esperando amoedar uns sestércios. O carácter deslavado da actividade política obriga a mais honesta das criaturas a trair, a desdizer-se, a gorar expectativas. Os grandes profissionais da política são, assim, excelentes traidores. Se as repercussões da traição política ultrapassam o patamar da lealdade para com os companheiros de ideal e passam para um nível superior de deslealdade para com o Estado e a sociedade, então a traição - se vitoriosa - passa a patriotismo. Fazer fé-comum com o inimigo, abrir-lhe as portas, deixá-lo tomar a nossa fortaleza, pode transformar a mais abjecta figura num patriota. De exemplos como este está a nossa história cheia ! Acode-me à memória o pobre feitor do latifúndio siciliano do Leopardo. Continuava fiel aos Bourbons, à monarquia de direito divino. Esquecera-se que a nova Itália era Liberal e maçónica. O seu senhor, cioso das vastas propriedade e de um nome de família lembrou-lhe que "os tempos eram outros e que agora o rei estava no norte". É a traição política em todo o esplendor.

16 janeiro 2006

O voto desintoxicado


Chega de almirantes, generais, banqueiros e parvenus
Vote VIVA O REI

O único voto útil


CAIA NA REAL, ANULE O SEU VOTO COM UM SONORO
VIVA O REI

Cruzada contra a Ministra da Cultura

A recente fronda contra a titular do Ministério da Cultura, com os costumeiros abaixo-assinados, proclamações públicas, textos de encomenda nos jornais e manifestações de "intelectuais, artistas e pessoas ligadas à cultura" - como a expressão é vaga, tresandando a arrogância e furor exclusivista ! - vem demonstrar à saciedade aquilo que teimamos em repetir: o pior que há em Portugal são os intelectuais encartados. Vivendo de subsídios, de sinecuras e demais munificências do Estado, os "intelectuais e pessoas ligadas à cultura" habituaram-se a tenças e privilégios verdadeiramente escandalosos que não se justificam pelas pessoas que as recebem, muito menos pela obra que produzem. Esse parasitismo versalhesco esgota os parcos meios que o orçamento destina ao Ministério e eterniza as mesmas tertúlias de amiguismo que se apossou da "cultura". É um verdadeiro complot de primos, primas, amigos e compadres. De mão em concha, mas atrevidos, inimputáveis e vorazes, julgam-se donos dos museus, dos arquivos, das bibliotecas, das editoras, dos prémios literários e do colunismo jornalístico. É uma lepra com assomos quase mafiosos que condiciona e teledirige a criatividade, a inovação e a democratização do conhecimento e da informação. Queriam mais. A ministra disse-lhes que não. Fizeram uma revoluçãozinha. Desta vez não passaram. Amanhã lá estarão no ministério, de chapéu na mão. Podem correr com eles, pontapeá-los, fechar-lhes a porta na cara. Não interessa. Voltarão no dia seguinte. É a "cultura" !