13 janeiro 2006

Falar com o coração: intimismo precisa-se

Sei que é um defeito não ser dissimulado, não defender aquilo que recolhe aplauso, aplaudir tudo o que é diabolizado, exprimir sentimentos onde deve haver "seriedade" e não invocar os "valores", mesmo que estes escondam ressabiamento, maldade pura e outras convenções de utilidade social. Li há pouco, já atrasado - sou um recalcitrante retardatário - um comovedor mas digníssimo relato de superação que Saadyroots postou (que raio de neologismo) no passado dia 4 de Janeiro. Confissões como essas são raras numa terra de anjos, querubins e potestades, de "homens de bem" e confiscadores de prelaturas moralonas que encheriam de temor reverencial os mais santificados entre os santos. Um homem faz-se grande quando se liberta da férula das convenções e expande o seu coração. Somos um povo macambúzio, tristonho, envergonhado e emparedado em medos e sanções. Ora, a alegria de se ser autêntico, de ser diferente sem ser criminoso, provocador e obsceno reside, precisamente, no apaziguamento dos nossos fantasmas. Parabéns Saadyroots, V. vale mais que toda a legião de Savonarolas e anjinhos de pau carunchoso que por aí andam, de dedo em riste, sentenciando e apostrofando as Gomorras do tempo presente. Como o sol, a verdade não consegue ser olhada de frente. A generalidade dos homens prefere, pois, a mentira pelo conforto que proporciona. Uma boa mentira recolhe aplausos. Quanto à verdade, é sempre repelida, odiada, vilipendiada. A heroicidade - e todos a ela podemos aspirar - é um caminho íntimo, solitário e penoso a que só chegamos pela assunção da nossa consciência. Sei o que isso é, mas, ao menos, não tenho de pagar tributo de impostura e dissimulação a nada nem a ninguém.

Nem plebiscitarismo nem referendismo, tão pouco participarismo


Um dos cavalos de batalha da demagogia impante e populista, de esquerda como de direita, dá pelo nome de "democracia participativa". Desconfiado de toda e qualquer forma de demolatria, lembro que as ditaduras modernas, cesaristas e populistas - a começar pela de Napoleão pequeno, i.e. Luís Napoleão - sempre tiveram a tentação de interpelar directamente o "povo", furtando-se à mediação da dimensão representativa, a única que atesta com clareza o princípio da soberania popular. Os plebiscitos e os referendos - sejam para questionar o povo-filósofo sobre a existência de Deus, o direito à vida dos fetos ou dos criminosos - emblematizam esse mito roussoniano, infelizmente triunfante, da "vontade geral". Não há, evidentemente, vontade geral alguma que não haja sido induzida. Logo, os plebiscitos e os referendos são formas acabadas da recusa de pensar. Atiram-se uns bofes ao povo-filósofo e este que decida. É fácil, é perigoso e dita, a prazo, o fim da liberdade de todos e de cada um. É uma demissão técnica, uma demissão moral e o fim das elites. Os ditadores, sempre tão eriçados contra a "democracia burguesa", sempre tão ciosos na confiscação das liberdades gerais e da libredade de cada, escolheram, sintomaticamente, os plebiscitos como veículo de legitimação de regimes feridos de nulidade à luz da tradição constitucional. Um dos males que assola o actual regime é, aqui o temos dito e repetido, a baixa extracção intelectual dos detentores dos orgãos de soberania. Aceitando de barato a ideia de que tudo se pode resolver pela auscultação da "vontade geral" envolve riscos acrescidos e resultados catastróficos, julgamos necessária a restauração de um são princípio de representação que preserve a qualidade requerida para o normal funcionamento da vida parlamentar . Restaurar a autenticidade do regime representativo passa, pois, pela restauração da qualidade da classe política. Dar mais classe à classe política é o que se pede !

12 janeiro 2006

O Misantropo tudo sabe

Pediu-me um conhecido do historiador de arte da nossa praça o especial favor de lhe facultar uma imagem da fita de aventuras 55 dias em Pequim, destinada a memórias que tem vindo a publicar. Julguei - como a memória nos trai - que John Wayne havia participado como actor nesse filme de Nicholas Ray. O nosso cinéfilo de serviço - o enciclopédico Misantropo - disse-me, entretanto, que não: John Wayne não fizera parte do elenco, que contou, isso sim, com David Niven, Ava Gardner e Charlton Heston. Desfeito o equívoco, lá desencantei umas imagens e enviei-as, como prometido, ao prestigiado memorialista. É por estas coisas aparentemente pequenas que devemos fazer juízo sobre a cultura e qualidade das pessoas. O mundo está cheio de citações de livros não lidos, de filmes e pinturas não vistos, de sinfonias não ouvidas. O MISANTROPO é dos verdadeiros: não passa cheques sem cobertura. Fiquei a ganhar, não induzi em erro o solicitante e fiquei a dever ao Cunha Porto.

11 janeiro 2006

O nosso HINO, o de tudo o que é Portugal

Venero o hino nacional, como respeito profundamente a nossa bandeira. Levantou-se por aí um clamor motivado pelo "indevido" uso destes símbolos nacionais pela Telecom num anúncio televisivo ainda em exibição nas pantalhas. Não compreeendo, sinceramente, que insulto ou que aproveitamento estará a fazer essa companhia a algo que é de todos. Tenho para mim que o hino e a bandeira deviam estar em todo o lado, conquanto respeitados. Nós todos somos o hino e a bandeira, pelo que a sua presença deveria ser tão natural como as árvores, as montanhas, as casas e monumentos, a língua e a memória deste povo que quer manter a sua independência e liberdade. O hino e a bandeira não são propriedade de ninguém, não são de esquerda ou de direita, de partidos, empresários ou trabalhadores. São de todos e a todos obrigam a exibi-las. Mais, julgo que a entoação do hino e a exibição da bandeira deviam estar presentes em todos os espectáculos públicos, tal como acontece nos países onde o patriotismo é incentivado como elemento essencial da cidadania. A defesa da memória e do orgulho nacionais está para os Estados como a missa para a Igreja: há que os lembrar todos os dias, em todas as circunstâncias. Quando se deu a balsemização das tv's, o hino e a bandeira foram envergonhadamente retirados do fim das emissões diárias da RTP. Há que os restituir aos portugueses.
Fiquem para trás as discussões bizantinas sobre a bandeira: se deve ser verde-rubra, branca ou azul e branca. A nossa bandeira é esta e nela nos devemos, todos, identificar. Quando por esse mundo viajo, sempre que lobrigo as nossas cores enche-se-me o coração de emoção e embarga-se-me a voz. Ai de qualquer estrangeiro que faça algum reparo de gosto duvidoso. Gosto dela porque é a minha bandeira. A NOSSA BANDEIRA !

10 janeiro 2006

As "presidentas"


Pior que o presidente são as "presidentas". As sortes eleitorais, os golpes de Estado ou os colégios eleitorais têm-nos oferecido, desde 1911, um copioso catálogo de "primeiras-damas" dignas dessa pantomima de sangue e mau gosto que o foi a corte do "imperador" Napoleão: ex-criadas de servir, ex-lavadeiras, ex-meretrizes feitas marechalas, princesas e arqui-duquesas. O que nos está reservado ? Não sei, sinceramente, se ainda há uma réstia de bom humor para soltar uma valente gargalhada.

09 janeiro 2006

Os fantásticos nomes brasileiros


Tenho, entre os meus empregados, alguns brasileiros. Confesso que a minha costela multicultural derrapa ao pronunciar nomes directamente saídos das minhas brincadeiras de infância ou da velha série Espaço 1999, vista ainda a preto e branco. Lembro que nas minhas brincadeiras de miúdo inventava nomes estranhíssimos para emprestar um toque fantástico a lutas intergalácticas. O meu inglês era, aos 11 anos, uma lástima. Bastava-me dizer "I'm Zarvok" ou "I'm Karvok" para criar uma personagem terrível, de pistola de raios cósmicos em riste e lutas com dragões e demais monstruosidades. Há dias apresentaram-me a Josifela, uma moça (não se diz rapariga no Brasil). Sorridente e fazendo esforço para conseguir o emprego, estendeu-me a mão e apresentou-se: "Josifela Vivi de Souza". Fiquei espantado !
Quer dar um nome original a um filho ? Escolha:
Ademir; Adenir; Adirson; Adilânio; Alcemir; Aldrwin; Aleandro; Alecsandro; Alysson; Astrobaldo; Aylson; Claudiney; Cleide; Clivanir; Deisy; Divair; Elisângela; Elisberto; Edizaldo
Emanoela; Esmael; Evandro; Evilson; Geandry; Geson; Gleyson; Graciely; Hilariani; Irom; Izabel; Jailson; Janaina; Joisenir; Jomar, Jovaldo; Jucimara; Karlla; Kenia; Ladigénia; Lianara (...); Rosalinda; Rosângela; Rosibela; Shandra; Sidinei; Taihanês; Vanete; Vilson; Volney, etc, etc.

A Socialite e o Fidalgo

Nuno Castelo-Branco. A Socialite e o Fidalgo. Óleo sobre tela70 x 100 cm, 2003

Não o queria...nem vivo !

Andam por aí sarcófilos a disputar a herança de Cunhal. Só num país intelectualmente inferior, cívicamente boçal e culturalmente subdesenvolvido se terçam armas pela memória de tal candidato a ditador. Depois do último volume de Pacheco Pereira, arrumo Cunhal na ala dos celerados. Ponto final.

08 janeiro 2006

Maltez, jardineiro sábio; Manuel, ressabiado

Assisti ontem ao debate "a Relevância e Modelos de Chefia de Estado", que contou com as presenças de João Soares, Nandim de Carvalho e Manuel Monteiro - defensores das excelências republicanas - e Ribeiro Telles e Adelino Maltez como partidários da Restauração. Tenho de dar o braço a torcer: Ribeiro Telles portou-se excelentemente e mostrou estar ainda em grande forma, não obstante com ele não concordar em muito do que diz. O debate foi marcado por dois protagonistas, ou antes, por um protagonista e um tritagonista: José Adelino Maltez e Manuel Monteiro. Monteiro, afundou-se. Não concitou qualquer aplauso e mostrou aquilo que tenho vindo repetidamente afirmando: só quer a república quem tem aspirações presidenciais. O ressabiamento é notório, como o são a ambição cega e a egolatria desvairadas. Quanto a Maltez, um dos mais pujantes cálamos portugueses da actualidade, mostrou grandeza, autoridade, conhecimento e inteligência afiada. Este grande português - que fez questão em referir a sua humilde pedatura, lembrando o senhor seu avô, que foi jardineiro - mostrou-se como é: um sábio. A jardinagem está-lhe no sangue, e como uma figura retirada dos textos sapienciais chineses, o podar, o trabalho árduo dos campos, o alinhamento das sebes e poesia convivem sem disfarce, sem fingimento e sem subtilezas. O que é verdadeiro dispensa oratória. Maltez venceu absolutamente a logomaquia. Até João Soares, filho e neto de republicanos, se rendeu a Maltez. Parabéns Professor Maltez.