07 janeiro 2006

Luxo e conforto: aristocracia e capitalismo

Esta afirmação soará a heresia para os ouvidos burgueses. A burguesia não a entendemos propriamente um grupo social, mas uma atitude envolta em códigos éticos [condutas] e expectativas de vida. Indissociavelmente ligada ao capitalismo, concebe o jogo social e o protagonismo dos indivíduos e das sociedades como um permanente concurso pela diferenciação de status aferido pela riqueza, pela propriedade e influência; logo, todo o comportamento burguês é, sem tirar nem por, um "negócio" permanente. Os clássicos Amor, Luxo e Capitalismo, de Werner Sombart, e a monumental Sociedade de Corte, de Elias, caracterizam-no eloquentemente. Para a aristocracia - aqui também entendida como uma estética moral - uma taça de champanhe, uma refeição extraordinária, uma noite numa suite de palácio são luxos, experiências únicas, ritualizadas, que não devem exceder o momento da fruição e perduram como momentos excepcionais. Para o burguês, passa-se o inverso. Dessa viciação no conforto nasce uma ética para o consumo excedente, para o permanente ludíbrio dos sentidos e a submissão aos ditames do organismo. Se a burguesia tem realizado excepcionais obras, se tem sido, nos últimos duzentos anos, o motor das sociedades ocidentais, carreia consigo os defeitos dessa qualidade: cultiva o egoísmo, produz despeito, ressentimento e exclusão. A aristocracia era, ao invés, bem mais acolhedora da diferença, inculcando deveres para os outros que se revelaram bem mais saudáveis pela ética de serviço e entrega. A civilização que temos, parece não ser, pois, a civilização Ocidental, mas a civilização do capitalismo. Tudo se compra, tudo se vende e regateia. Onde tudo tem um preço, aquilo que não se vende é menos que inútil: é gratuito. Houve um tempo em que o burguês quis ser aristocrata. De tão repetida a tese de Max Weber, habitualmente mal interpretada, julgou-se que a burguesia produzira uma "ideologia burguesa". Mas não. A velha burguesia julgou possível, pelo mérito, ascender à aristocracia, usurpando-a. Esta errância esbarrou, contudo, com a maior contrariedade: a sempiterna incapacidade de se ser quando não existe maturação. Para se vingar, tornou-se revolucionária e tratou de destruir tudo aquilo que o dinheiro não pudesse comprar. Os mais veementes republicanos são, habitualmente, os mais ricos. "Se não puderes comprar, destrói", parece ser o lema dessa gente. Se abrirmos as revistas ditas do coração, deparamos com esse estendal de arrivismo agressivo, ostentatório e frívolo. Como tinha razão o velho Eugénio d'Ors quando afirmava: "onde não há tradição, há plágio".

06 janeiro 2006

Portugal e Espanha: inversão dos papéis

Por mais pletóricos que sejam os testemunhos deixados por viandantes europeus que pela Península Ibérica perambularam em Setecentos e Oitocentos - lembro os lidos e relidos Carl Israel Ruders, Marianne Baillie, Robert Southey, Dumouriez, William Beckford e Byron, que as leitoras da Quarterly Review devoravam - manifesta-se, em todos eles, uma clara separação entre Portugal e Espanha. Ainda há meses, por ocasião das celebrações de Hans C. Anderssen, voltou ao nosso convívio o pequeno diário com que aquele ilustre visitante assinalou, já perto do fim da sua triste existência, a passagem pela Europa aquém-Pirinéus. O contraste é flagrante: um Portugal asseado, calmo, tímido; uma Espanha suja, perigosa e arruinada. Também a fotografia prestou tal serviço ao comparatismo, hoje tão caro aos estudos historiográficos e artísticos. Se os velhos instantâneos exibem um Portugal luminoso - pobre mas não miserável - os safaris fotográficos de Robert Capa são um veemente libelo ao abandono, penúria e fome generalizada que a vizinha Espanha expunha.
Volvidos 60 anos, inverteu-se a situação. Somos miseráveis, concitamos curiosidade digna de sarracenos da Mauritânia - as mulheres bisonhas, os homens neoliticos, as fachadas escalavradas, a paisagem escalvada - enquanto os espanhóis volveram europeus atípicos. O que se passou ? De quem é a culpa ? Dos regimes ? Também, mas, sobretudo, da atitude portuguesa, desta incapacidade de nos abrirmos e valorizarmos.

05 janeiro 2006

Uma nódoa que não morrerá

Debitam as gazetas da manhã a morte de um dos partigiani que em Abril de 45 deteve Mussolini no Dongo. O homem apagou-se serenamente aos 81 anos na cama de um hospital. A sua vítima foi abatida como um animal na berma de um caminho, crivado de balas e logo exposto, pendurado como uma presa de montaria, numa bomba de gasolina de Milão. Pontapeado, desfigurado, sobre ele choveram escarros e urina, num festim mórbido que envergonhará até à eternidade o povo italiano. Como aqui disse há tempos, a morte de um homem - qualquer que seja - não é motivo de júbilo. Citando de cor Luíz Pacheco, "ninguém tem razão perante um morto". A um poderoso, quaisquer que sejam as suas faltas, deve ser facultado um julgamento ou uma pistola. Os meus olhos fogem enojados daquela justiça a que chamam popular e à exibição de corpos ensanguentados que se prestam a todas as interpretações: da Pietá ao Guevara, de Mussolini a Ceaucescu. O espectáculo do sangue e da afronta - magistralmente interpretado em Instintos e Sociedade por esse enorme sociólogo que foi Roger Callois - junta e culpabiliza, inocentando colectivamente a massa energúmena. Mussolini, que era, afinal, um ditador bem diferente de Hitler e Estaline, foi o único a sofrer tal sorte. Pela documentação hoje disponível, o mandante foi Winston Churchill, receoso que a documentação que acompanhava Mussolini nessa derradeira estação da via crucis que foram os últimos meses de vida o pudesse vir a incriminar. Supõe-se que contivesse matéria escaldante. Os executores foram guerrilheiros cegos de ódio, o mandante um aristocrata inglês que seria galardoado com o Nobel da Literatura. O ónus recaiu, inteirinho, sobre a ralé de Milão e a sua hybris, a mesma que anos antes enchia praças e avenidas para aclamar os triunfos do Duce. Assim é o povo. Mas o que verdadeiramente mancha esta história terrível não é o comportamento do populacho, mas a perfídia da Igreja, que recusou a mão a um homem abandonado. Igualmente criminosa foi a atitude dos membros do Comité de Libertação - integrando democratas-cristãos, socialistas, republicanos e comunistas - que decretaram, com assinaturas apostas, a condenação à morte de um homem que já nada tinha senão o passado. O modus operandi foi ignóbil, mas mais sórdida a tecitura de cobardias e lavar de maõs de cavalheiros que nesse dia, em Londres como em Roma, regressaram a suas casa com os alvos colarinhos engomados e se sentaram em poltronas para ler as últimas desse dia de sangue e vergonha.

04 janeiro 2006

Patibular VII

Título oficial: "Sua Excelência, Presidente vitalício, marechal de campo Al Hadji Doutor Idi Amin, Victoria Cross, Distinguished Service Order, Military Cross, Senhor de todos os animais da terra e peixes do mar, conquistador do Império Britânico em África em geral e do Uganda em particular, rei da Escócia, etc, etc. "

Patibular VI

John Edgar Hoover: o homem que se mantinha em vigília enquanto os americanos dormiam. Não admira que tivessem pesadelos.

Patibular V

O poglavnik ustacha Ante Pavelic: nem o Bella Lugosi !

Patibular IV

Bei de Trípoli: mahdi do petróleo.

Patibular III

Homo mugabis: exemplar raro do Monomotapa.

Patibular II

Lavrenti Beria: um capricho da natureza.

Patibular I

O inefável Ayadema: um rosto amigo, inspirador da maior confiança.

03 janeiro 2006

Alguns dos portugueses vivos mais relevantes


A importância de um autor não se pode aferir pela fama que lhe atribuem os prémios, as comendas, os sucessos editoriais, as críticas favoráveis (e encomendadas) e o favor de se exibir na capa do JL. Se assim fosse, a história do pensamento ocidental nos últimos dois séculos seria bem mais prosaica. O que brilha hoje sob os holofotes da vã propaganda, desaparece amanhã no confronto com alguns grandes ignorados do seu tempo. Lembro que no Portugal de 1910, João Grave - quem o conhece hoje ? quem o lê - era, juntamente com Junqueiro - quem o lê? - o mais aclamado autor português. Há dias, em conversa com um amigo de longa data, pusemo-nos a pensar em voz alta e listámos, confrontando opiniões, os mais relevantes portugueses vivos. Pondo de parte o inefável Saramago - posto que não resistirá a duas gerações - chegámos à seguinte relação. Discutível, apresentando a vantagem de sintetizar duas subjectividades tão dissemelhantes como a minha e a dele, homem de esquerda "republicana, laica e socialista"; ou seja, nos antípodas do meu percurso, vivências, formação e estética. Aqui fica receptiva a críticas.
Adília Lopes - um prodígio de irreverência, superior ao danado Luiz Pacheco. Uma loucura genial transbordante de graça e inteligência não domesticável. Demasiado heterodoxa e imprevisível para afivelar a máscara de autora de regime.
Álvaro Siza Vieira - Deu visibilidade e prestígio máximos ao maior dos dons portugueses: a arquitectura.
Agustina Bessa Luís - O "terceiro milagre literário português" desde o século XIX, depois de Camilo e Pessoa, tecedeira infatigável da língua e espelho da complexidade profunda dos estados do humano. Falhou o Nobel por se inscrever na tradição sem história e não genuflectir ante os altares da moda.
António Vasconcelos Saldanha - uma perspectiva revolucionária da história portuguesa no Oriente, inserindo-a nas grandes correntes da historiografia mundial. Não usa avental; logo não leva prémios.
António Manuel Couto Viana - poeta, ensaísta, antologiador, dramaturgo esquecido pelas suas convicções políticas e já várias vezes dado como morto pelos censores da República das Letras oficial.
A. H. de Oliveira Marques - uma carreira notável, multímoda que o colocam entre os maiores autores do século XX em português. Lido por balbuciantes e por eruditos, sempre educador.
Augusto Mascarenhas Barreto - autor diabolizado pelas conveniências e arranjos que matam a seriedade da cultura oficial. Culpa máxima: retirou Colombo aos italianos e roubou aos espanhóis o catalanismo do descobridor da América.
Eduardo Lourenço - pesem as acusações de "filósofo-light", pensa a cultura e o estar portugueses armado sobre invejável aparato. Dotado de infalível intuição das nascentes profundas da identidade nacional.
José Adelino Maltez - O desassossego em pessoa, o génio desarrumado, o demolidor de ideias estabelecidas lembrando Agostinho de Macedo, outro demónio da cultura portuguesa.
José Augusto França - Se há compreensão, racionalidade, cartesianismo e arrumação de ideias sobre a arte portuguesa, devemo-lo a JAF. De fora ficaram, enterradas, as historietas dos "paineis".
José Gil - Destruíu definitivamente a crença de uma racionalidade portuguesa distinta (e desgarrada) do labor filosófico ocidental.
José Pacheco Pereira - O maior publicista vivo e um destruídor de mitos que ameaça - desvelando-os - retirar dos pedestais superstições há muito arreigadas.
José Pinharanda Gomes - O filósofo por excelência, trabalhando fora da universidade-prisão. Detestado por ser absolutamente livre.
José Vilhena - Pornógrafo, indecente, diabólico, capta sem misericórdia os sórdidos sotãos do país dos brandos costumes.
Maria João Pires - Bach, Mozart, Beethoven, Schumann e Chopin e a Deutsche Grammophon ficar-lhe-ão eternamente gratos.
Paula Rêgo - A arte como anti-impostura e catálogo de fobias e fantasmas. O fim do belo aquietante e a final desforra face a uma suposta utilidade branqueadora do papel do artista plástico. Um Freud pictórico.