13 dezembro 2006

Sapatologia: a tentação pedestre


O tema é empolgante. O sapato, o pé, o andar sobre crocodilos, serpentes e prata. Exibir, fazer-se mais alto, destacar-se de baixo para cima. D. Pedro jamais teria afirmado com tanta segurança o "esta terra que piso, este povo que amo"se não calçasse aquelas botas de macio couro com que as potestades brincam aos soldados. Santo Ballaguer exibia coruscantes fivelas do mais puro veio argênteo, sem por isso deixar de jejuar.
Pelo sapato se conhece o dono: sapato limpo e resplancente rima com unhas manicuradas e sofisticação; sapato sujo rima com desprezo por si e pelos outros. Imelda, essa incompreendida, foi a maior protectora dos produtos made in Philippines. Que desastre teria sido um Luís XIV sem saltos, um Napoleão sem botas ou um Salazar sem botinhas . Talvez Pessoa se tivesse enganado no "nada sabia de finanças/nem consta que tivesse biblioteca", referindo-se ao Nazareno. Melhor ficaria "nada sabia de modas/ nem consta que visitasse sapatarias"

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