11 dezembro 2006

Raleficação

O espectáculo do reles, o culto do canalha, o triunfo da meia-tigela, da boçalidade e do analfabetismo atingiram culminâncias dignas da mais sórdida literatura clandestina. O país está derrancado na exaltação da inveja, dos pequenos ódios e remoques, nas frustrações e no ranger de dentes. Dirigido por gente desclassificada que nem comer à mesa sabe, tomado de assalto nas universidades, nas casernas, nos bancos e na imprensa por uma plebe beata, suja e feroz - como dizia Eça - refastela-se nesta miserável lupercalia de futebóis, de escândalos e maledicência que me envergonham e me empurram para fora. Quando sair, tranco a porta e não volto. Sinto vergonha - uma tremenda vergonha - por haver tido a desdita de nascer neste tempo. Sei que o país - ai Eça, ai Camilo, ai Junqueiro, ai Martins - nunca foi muito diferente, mas ao menos ainda tínhamos uns adereços de respeitabilidade ali para os lados do velho parlamento liberal - os Fontes, os Barjona de Freitas, os Sabugosa, os Serpa-Pimentel, os Luciano de Castro - para os lados da Ajuda - D. Pedro V, D. Luís, D. Carlos - ou pelo passeio higiénico do Chiado. Parece que tudo sente, em uníssono, a atracção irresistível da queda, da capitulação e do acanalhamento.
Essa coisa suja publicada no fim de semana - que enche os noticiários, o vozerio e enche de furor coprófilo os nossos concidadãos - não é mais que um epifenómeno desse etos canalha que domina os portugueses. Não sei o que se pode ainda fazer para manter a película de respeitabilidade, mas afigura-se-me um trabalho de Hércules inflectir no plano inclinado. Somos, decididamente, indignos de nos sentarmos na Europa e reclamar a mais pequena molécula da civilização. Isto está de morrer.

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