01 dezembro 2006

Os Estados-império da União Europeia

Não há dúvidas que a estrutura que a Europa política tem vindo a tomar - a legal, a reguladora, a codificadora - se presta a servir, alargando-a, a competência, os hábitos e tradição dos estados-império que atravessam o esqueleto do velho continente: a Espanha, a França e a Alemanha. Estes Estados-império surgiram e consolidaram-se entre o século XV e o século XIX, impuseram-se nas respectivas regiões como "unidades de destino no universal - usando a falácia fraseológica josé antoniana - e fizeram de ficções unidades políticas em que o centro (Madrid, Paris, Berlim) emite o estilo e recebe o eco da sua voz de comando simulando unicidade.
A Espanha fez-se a partir de Castela, usou materiais de diversa extracção, sintetizou-os, mas fica e será sempre Castela. Os regionalismos, os particularismos, os localismos são e serão apenas tolerados na medida em que servirem para coroar o mito castelhado da universalização de uma ideia que cresceu a partir do Manzanares, da Plaza Mayor, do Palácio Real de Madrid, do mosteiro do Escorial e do monólito do Alcazar de Toledo. Para coroar a ficção, a "Espanha" - que usurpou a expressão geográfica da Hispânia para expressar o movimento de apossamento, da meseta para as periferias, socorreu-se de dinastias alienígenas após os Trastamaras (os Habsburgos, os Bourbons, os Bonaparte, novamente os Bourbons) e chega ao século XXI totalmente integrada na corrente do unitarismo europeu e, até, quiçá, de uns meríficos Estados Unidos da Europa.
A França fez-se em Paris, domesticou-se em Versalhes - onde inventou a cultura superior, sem a qual a província estaria condenada à vegetativa marginalidade semi-bárbara - e foi sucessivamente disciplinada pelo zelo dos emissários do Rei, pelas expedições jacobinas, pelo código de Napoleão, pelos maires e maîtres d'école. De fora ficaram, definitivamente, a Borgonha, o Languedoque, a Aquitânia, a Alsácia, a Bretanha e a Provença, onde as pulsões secessionistas crónicas foram sendo extirpadas pelo proibicionismo, pelo ponteiro do professor primário e pelo burocrata parisiense. O Estado-império francês sente-se inquieto com a ideia de pátria, pelo que inventou uma ideia de nação a partir da abstracção do cidadão, cujos requisitos se confundem com os acidentes históricos de Paris. A França de hoje, esgotadas as teorias fantasistas das frontières naturalles e internacionalizada após a Revolução - ou não são os Estados de hoje subsidiários de tudo o que de novo trouxe 1789 ? - já não pode, nem quer, emular os seus rivais históricos continentais (a Espanha e a Alemanha), antes sucumbindo juntar-se-lhes em tandem para repartir o domínio político, cultural e económico daquilo em que se transformou a Europa eurocrática.
A Alemanha é dos mais prodigiosos bluffs do maquiavelismo e do hobbesianismo. Teve sempre fronteiras inferiores ou superiores à sua expressão geo-demográfica, uma língua que se fez a partir de uma riquíssima diversidade de falares aparentados mas distintos, os quais floresceram na intrincada rede dinástica, eclesiástica, feudal e burguesa que fez do centro da Europa a mais rica expressão da inconfundível grandeza europeia tardo-medieval e renascentista. A Germânia poliárquica, policêntrica, diversa e una apenas na percepção de uma grande fronteira exterior aos estados, aos principados e ducados (o Sacro Império), tornou-se, de súbito, um instrumento de uma parcela marginal. A Prússia tomou-a de assalto, abrindo e nivelando fronteiras através do Zollverein, acorrentando-a através da Confederação da Alemanha do Norte - teste para a unificação de 1871 - e impondo-se-lhe como o centro. Os Segundo e Terceiro Reich epitomizaram
essa tentação "nacionalista" de fazer tábua-rasa das evidências, reinventar o passado (o Kulturkampf contra Roma, inventado literalmente a partir do suposto carácter "nacional" do luteranismo). A passagem da CEE - uma criação franco-alemã - para a União Europeia, mimetiza os passos da unidade alemã até 1871. A CEE como surgiu era reflexo de um quadro histórico em que um inimigo exterior próximo - a URSS- tornava impossível exibir quaisquer ambições imperiais. Mal esta caíu - e com ela caíndo todos os Estados satélite, a União marchou para a cidadania europeia, entrou pelo Danúbio adentro e chegou à fronteira russa. A União Europeia seria, pois, a passagem (ampliada) do Vollverein para o Império. Quem mada na Europa ? A chancelaria de Berlim. Quem determina a aceitação de novos Estados na União ? A Alemanha.
Olhemos para a bandeira da União. O que vemos ? As estrelas rodando em torno de um centro. O centro ? A Alemanha. Ouçamos o hino da União. O que ouvimos. Um coro, cantando em "hoch deutsch", composto por um génio da mais exaltante paixão telúrica (alemã).

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