12 dezembro 2006

O medo que chega




O Professor Pires Aurélio - por quem tenho a maior admiração humana e intelectual, e com quem tive a honra de trabalhar enquanto seu subordinado - aponta sem vacilações a causa da súbita erosão das festividades do Natal no velho continente. Estamos com medo, vamos fazendo concessões, prolongando silêncios, abdicando palmo a palmo de tudo o que baliza, dá sentido e preenche o calendário ocidental. Estamos reduzidos à condição de reféns e até já se manifestam os primeiros sintomas do síndrome de Estocolmo, uma quase dependência afectiva em relação aos criminosos e terroristas que sequestram a nossa liberdade, segurança e paz. Por este andar, o dia 25 de Dezembro será banido da lista de feriados, tal como serão proibidos os presépios, as transmissões de cerimónias religiosas através das televisões, a erradicação das disciplinas opcionais de conteúdo religioso [cristão], a decoração de montras com símbolos que possam ferir a intolerância dos terroristas, as festas natalícias das empresas, o Natal dos hospitais, a mensagem que o Presidente da República profere na quadra. O calendário é uma convenção, mas a cultura é isso mesmo, uma convenção carregada de festividades, ritos, cerimónias e práticas. Sem elas, a cultura não existe, não se actualiza. A auto-censura é auto-mutilação. Os europeus preferem suicidar-se a correrem o risco de lhes rebentar uma bomba sob os pés ! Ainda chegaremos ao tempo em que a ceia de Natal se celebrará de cortinas corridas, sussuros e três pancadinhas na porta, não vá o vizinho do lado ligar para a polícia acusando-nos de subverter a ordem pública. Estamos a entrar numa era de trevas e catacumbas.

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