21 dezembro 2006

Não há oposição


Teve lugar o debate sobre a reforma do ensino superior, ao qual aludem, com propriedade e profundo conhecimento, outros blogues. Assim, sendo, dispenso-me tecer quaisquer comentários sobre a matéria incidente. Porém, deste debate parlamentar, retiro três certezas:


- A oposição é uma lástima. Da extrema esquerda à direita - isto é, do pastor IURD ao limpa-chaminés, do boneco ventríloquo à figura bufante - não há um líder que consiga fazer frente a um Sócrates em crescendo de desembaraço oratório.


- O PS (isto é, Sócrates) sente-se absolutamente confortável perante a acefalia das oposições, já não se coibindo de as mandar calar com gestos e palavras que lembram o estendal parlamentar de Oitocentos.


- O Primeiro-Ministro manda no país, impõe-se sem rebuço e meias-palavras, fazendo as maravilhas de um povo que andou anos em busca de um toque-de-caixa, de uma formatura e do respeitinho que faltou a Cavaco, a Guterres e Barroso. Os portugueses gostam de uma boa torcidela de orelhas, de uma palmada e de outros quejandos castigos domésticos. Andaram anos à procura da varinha, do chinelo e da reguada. Agora têm-nos e andam contentíssimos, a começar pelos senhores jornalistas, ontem tão arrogantes, metediços e rebeldes, hoje criancinhas amestradas enxotadas pelos seguranças do PM. Isto é um país maravilhoso onde a educação passa por fraqueza e uns berros por autoridade. Sócrates é o único PM europeu que fala aos berros e vai aumentando a popularidade na proporção dos decibéis. "As pessoas gostam", "temos homem", "finalmente aparece alguém que põe ordem na casa". Ouço comentários destes no táxi, no restaurante, no café, na banca de jornais e pergunto-me se isto não foi dito e redito vezes sem conta num passado remoto.
Não há democracia parlamentar sem emulação, debate e oposição. Aqui nesta casa preza-se a tradição britânica - isto é, a tradição dos parlamentos medievais, jamais conspurcados pela arregimentação seguidista e ideológica introduzida por 1789 - pelo que gostaríamos ver na Assembleia os melhores. Infelizmente, a causa parlamentar portuguesa afunda-se na mais medíocre expressão de idiotia e embotamento.

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