26 dezembro 2006

Madrugada de Natal a ler horrores

Não dormi toda a noite de 24 para 25, preocupado com o estado de saúde do meu pai, com quem nunca deixei de passar o Natal. Aliás, com tanta cafeína - excelente digestivo para a overdose [quase letal] de doçarias tragadas - até um cataléptico dançaria a mazurca ou imitaria os dervixes rodopiantes. Antes de iniciar o prometedor texto agora dado à estampa pelo Instituto Diplomático, impus-me terminar - não obstante todos os reparos aqui feitos oportunamente - A Guerra no Mundo, de Niall Ferguson, bem como Estaline: a corte do czar vermelho, de Simon Sebag Montefiore.
Pelas cinco da manhã terminei com Ferguson. Reflexão entre o cigarro e um belíssimo café matinal: o século em que nasceram os meus avós, pais e eu mesmo foi uma desgraça. Duas guerras mundiais, massacres de dimensões quase inimagináveis, dramas pessoais e colectivos pouco convidativos a qualquer respeito pelos homens. O século do nazismo, do comunismo e da bomba atómica; o século da mentira, da propaganda intoxicante e do condicionamento, embotamento e mecanização dos mais elementares sentimentos, deixou exangue a capacidade da humanidade em acreditar no que quer que fosse. O que mais me inquieta é o caminhar paralelo da racionalidade com a perversão. Ao invés do desvelamento racional - " entzauberung", utilizando a expressão weberiana - produzir uma cultura de responsabilidade e compromisso, nunca tanto fanatismo, tanta cegueira, maldade e crueldade foram direccionadas com tamanho entusiasmo contra homens singulares e povos por razões que hoje se nos afiguram como pouco mais interessantes que uma conversa de café. Um século desmedido, com a sua "greatest generation" de déspotas, de carniceiros, resistentes e defensores da Liberdade, mas, sem sombra para dúvidas, o século da loucura racional que destruiu a Europa, fazendo recuar as suas fronteiras política, económica, étnica e cultural ao século XV. A culpa de tudo isso ? Hitler, sem dúvida. O homem não "só" cometeu o supino atrevimento de declarar guerra às maiores forças do planeta (cristianismo, capitalismo, democracia, comunismo), como, não contente com essa antecipadamente fracassada tentativa, declarar guerra de extermínio a populações inteiras do Leste europeu. Hoje continuamos a pagar a factura dessa demência que estilhaçou toda a ordem antropológica sobre a qual repousava a nossa civilização, por antonomásia A Civilização.
Das seis da manhã gelada às duas da tarde, quase duzentas páginas de Estaline. Rios de sangue, exorbitâncias estatísticas pelas quais fenecem a compreensão e o espanto: fomes artificiais, escravatura, purgas, tortura, mentira e infantilização, brutalização de pessoas, povos e conceitos. Em suma, uma abundante e ilimitada sequência de capítulos para uma História Universal da Infâmia. Pergunto. Após tanta revelação isenta, tão copiosa historiografia, ainda há mentecaptos suficientes para fazer eleger deputados comunistas em S. Bento ? A crónica de horrores do Gulag, das fossas de Katyn, das matanças da Lubianka, das limpezas étnicas e da total falta de misericórdia pelos prisioneiros não espalhará, por um segundo, a incerteza naqueles que por aí ainda exaltam esse regime de sangue, fome e medo que foi o comunismo ?

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