23 novembro 2006

Tropa manifestante

Exército Portugês Africano. Guiné, 1970




Tenho e sempre o mantive, não obstante as ter servido durante cinco anos, um grande respeito pelas Forças Armadas. Sei separar a tropa fandanga, a tropa do emprego, a tropa alternativa ao seminário fuga-da-fome, a tropa das 8 às 17.30 horas e a tropa da messe às Forças Armadas de Portugal. Sei, igualmente, separar a tropa dragonada das casas da linha de Cascais e a tropa das divisas sargentais da linha de Sintra - a tropa dos golpes por acicate remuneratório, a tropa de cabeleira e barbas guevaristas, a tropa dos SUV's e das campanhas de dinamização - dessa instituição herdeira de tradições gloriosas que se bateu sempre com galhardia e honra por Portugal.


As Forças Armadas não são só um emprego, um ordenado, uma reforma, mais assistência médica, acesso à Manutenção Militar e ao Lar de Runa. As Forças Armadas não são só um ajuntamento hierarquizado de cidadãos fardados submetidos ao Regulamento de Disciplina Militar, nem os quartéis, os paióis, os blindados, as botas, as mochilas, os helicópteros e as fragatas. Grande parte do descontentamento que por aí vai tem a ver, precisamente, com essa "civilização" protestatária da alma castrense. Os militares não podem ser sindicalistas, políticos ou cidadãos como os outros. Deveriam ser, por maioria de razão, os mais disponíveis entre os Portugueses, pois o seu juramento - tremendo juramento - implica aquilo que a mais ninguém se pede: dar a vida pela pátria e servi-la até ao último alento.


É evidente que estão desfalcadas de meios operacionais, que os tanques são uma lástima, os fardamentos dignos de piedade, as reservas de combustível e munições pouco mais que ridículos. O poder político tem muita culpa, a começar pela indigna subordinação que impõe através de ministros que jamais envergaram uma farda, desconhecem os códigos de conduta e essa brilhante cultura de amizade, camaradagem e bom ambiente humano que vigora nas Forças Armadas, tão diferente da invejazinha, da pequena maldade intriguista e difamatória que pulula na sociedade portuguesa.


Tenho para mim que a reforma das Forças Armadas começaria com a nomeação de um ministro militar para a pasta da Defesa, pela auscultação permanente do saber e ponderação dos oficiais e sargentos para assuntos que digam respeito à comunidade militar. Contudo, não são passeatas pela baixa, para mais à paisana - um militar à paisana é sempre uma fraca figura - que resolverão o que quer que seja.

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