01 novembro 2006

Rui Ramos e D. Carlos I




O Círculo de Leitores iniciou há meses a publicação das biografias dos monarcas portugueses. Tendo lido algumas das obras já disponíveis, verifiquei a assimetria da qualidade, embora a informação factual denote trabalho de pesquisa e em alguns casos coragem para uma análise interpretativa dos homens e acontecimentos.

Reservei estes últimos dias para a leitura da obra de Rui Ramos "D. Carlos I". É sem qualquer dúvida a melhor da série de biografias. Uma pesquisa exaustiva de factos e personalidades da época, entusiasma o leitor que ante os seus olhos revive a conturbada passagem de século em Portugal, que pouco teve de Belle Époque. Como Rui Ramos afirma, a riquíssima e multifacetada personalidade de D. Carlos torna difícil o cabal conhecimento do homem que em público sempre foi o príncipe e estadista. Ninguém o conheceu verdadeiramente e decorridos cem anos podemos dizer que o enigma permanecerá. Tal como Rocha Martins na sua obra D. Carlos I, as zonas nebulosas e a dúvida são constantes. É tambem inquietante a similitude dos processos que tal como ontem, envenenam o sistema partidário - e também rotativo, há que dizê-lo - português.


O Rei foi durante anos encorajado a tomar o caminho das reformas dolorosas e necessárias e quase teve êxito. Este "quase" leva-nos directamente às conclusões de Rui Ramos, onde o professor se interroga acerca do que teria acontecido a Portugal se os assassinos a soldo dos futuros vencedores do 5 de Outubro não tivessem conseguido alvejar o landau naquela fatídica tarde de Fevereiro. É bem certo que o século XX português teria sido bem diferente. Não teríamos hoje esta organização do Estado, esta bandeira e possivelmente estaríamos também muito mais próximos daquela Europa que interessa.

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