09 novembro 2006

Os teóricos e a cegueira




Detesto a expressão "batalha de ideias". Soa-me a prostituição da inteligência, reduzida a instrumento de sentimentos e convicções, reedição da velha escravatura que por séculos e séculos acorrentou o pensamento à pistis. Hoje, à volta da mesa, com meia dúzia de amigos senti a verdadeira impotência epistemológica ao tentar, com os parcos recursos que possuo, fazer uso da argumentação racional perante simpáticos convivas entrincheirados em convicções inabaláveis. A verdade é que as pessoas preferem o credo à inteligência desamparada e livre, têm um medo quase primitivo do vazio, da negação e do questionamento, pelo que aquilo a que chamamos debate se circunscreve, as mais das vezes, a uma polida e inconsequente parada de citações, um duelo sem fim onde o ego de cada um só sai machucado se falhar no trivial pursuit da erudição que se tem a mais ou a menos.


Um dos grandes problemas portugueses é este: o da extrema dependência da verbosidade e a servidão à teoria. É o país da teoria. Falam, falam, falam, citam a, b e c, perdem-se em aparato erudito mas, chegado o momento da aplicação, não sabem para que serve a teoria. As pessoas gostam desta inutilidade do pensamento, pois permite-lhes viver sem sobressaltos, sem contradição e sem angústia. Pronto, basta-lhes fazer a proclamação das grandes causas, dos grandes valores e dos grandes mitos sacrossantos para se aquietarem. Não importa se tudo o são como carácter é o absoluto contrário do rigor da teoria que professam. Isso nada importa. Rezar bem o Pai Nosso, o Avé Maria, conhecer uma tirada de Marx ou de Hegel, pedir de empréstimo uma pérola a Novalis, outra a Baudelaire, saber em que pinacoteca se encontra a Rendição de Breda, as Meninas ou o Grito. Decerto que estas discussões terão mais interesse digestivo que justas e torneios sobre as pernas peludas do futebol, sobre as miss mundo ou sobre a excelência do 12 cilindros acabado de sair, mas pouco contribuem para o que quer que seja.


Registo oposto. Ouvi as declarações de Rumsfeld, no acto de resignação. O velho falcão discorre com rigor de bisturi, conhecimento e chocante coerência. Tudo aquilo é necessário, sem uma palavra a mais ou a menos, num exercício de inteligência pura. Faço o zaping e dou com a discussão do OGE, na Assembleia desta República. Uma confusão verbosa, carregada de cheques carecas de duvidosa erudição, fés e fezadas, convicções e convicções[zinhas], mãos no peito, senteciários saloios, citação dos mestres. É assim. É o tributo que continuamos a pagar ao "espírito francês", que se perde e erra por amor à forma e ao efeito, à sonoridade e à impressão. A inteligência ? O rigor ? Isso são meros acrescentos !

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