27 novembro 2006

O Papa e a Turquia


Sinto-me perfeitamente sereno ao abordar o tema, pois não sou crente nem milito em qualquer confissão religiosa. Contudo, esta indiferença perante a religião - que não pode ser indiferença perante o sagrado, tão pouco perante o pensamento de um homem de cultura que se afirma pela fé - não pode deixar de me interessar.


Bento XVI não teve medo. Prometeu que visitaria Constantinopla e não vacilou perante os punhos cerrados do ódio, da irracionalidade e do fanatismo de tantos energúmenos. Em Setembro, no exercício da faculdade de julgar e interpretar - que guarda como homem de pensamento e académico - desencadeou um maremoto de falsa indignação ao citar o fragmento de um texto do século XIV, depressa descontextualizado e canhestramente manipulado pelos niveladores da inteligência que há muito pegam em armas contra a tradição intelectual do Ocidente.


Bento XVI é teólogo e príncipe da Igreja, mas foi sempre, nas circunstâncias em que desenvolveu a sua actividade, um homem de cultura em busca da verdade que a fé eventualmente transporta. Por algum motivo iniciou a sua fulgurante vida académica com um texto provocador sobre O Deus da Fé e o Deus da Filosofia, não escondendo, antes tentando compreender, os caminhos paralelos que a verdade percorre. Quando li L' Entretien sur la foi e, depois, as repetidas conferências que foi dando a respeito da ideia de Europa, dei-me conta da plena honestidade, rigor e serenidade com que desenvolvia e argumentava, sem cedências à pistis, sem arrogância e até sem vestígio de tolerância, essa palavra maldita que, espremida, quer dizer: "eu tenho razão mas desculpo o vosso direito a errar".


Ratzinger, contrariamente ao pensar-pequeno, ao tribalismo estreito e ao racismozinho, nunca se estribou em argumentos ex cathedra ou a fortiori para, ao velho estilo dos manuais apologéticos, diminuir, ridicularizar ou ferir outras religiões, ou mesmo, não-religiões. Muitos terão ficado surpreendidos com a veemência com que desde o primeiro minuto se recusou aceitar a entrada da Turquia na União Europeia, como faria, aliás, em relação a Israel, à Bósnia, a Marrocos ou ao Butão. Esta clareza chocou os políticos e os opinativos, habituados à espuma das marés que vêm e vão. Neste particular, Ratzinger foi europeu.


Como europeu, eu, que não sou nem católico nem cristão, compreendi-o. Ou não somos todos nós, queiramo-lo ou não, cristãos pela cultura ? A Europa sem esta tradição não existe, pois de Roma e da Hélade ficaram os grandes mitos fundadores do Direito e da Filosofia, as referências antigas, eternamente lidas e delidas, mas só actuantes na vã ilusão das elites letradas em restaurar o que não pode ser restaurado. A Europa de Roma estendia-se da Escócia à Mauritânia, da Lusitânia à Mesopotâmia. Dessa não há outros vestígios que as cidades desenterradas pelos arqueólogos. A Europa da Hélade andou em bolandas em pergaminhos e códices, copiada e recopiada nos palimpsestos dos frades, dos intérpretes e comentadores das abadias. A Filosofia clássica só o é na medida em que a civilização cristã a salvou do esquecimento. Ora, se os muçulmanos também reclamam papel de salvadores dessa herança, não a quiseram ou dela não souberam tirar proveito algum.


Bento XVI sabe que o Direito e as leis organizam os povos e as sociedades, sendo expressão da percepção colectiva do bem-comum deduzido da lei natural ou de Deus (Fréderic Bastiat). O Direito ocidental assenta em fontes económicas, sociais e políticas em tudo distintas daquelas em que o Islão se funda, sendo que a nossa jurisprudência é resultado de uma história e de caminhos separados. Aceitar a Turquia, pese toda a estima e admiração que singularmente possamos ter por essa nação, é uma violência contra a Europa e contra a Turquia, que mesmo estado laico não comunga das nossas raízes. Foi isso que disse Bento XVI. Atire a primeira pedra quem se oponha a esta demonstração de respeito pela identidade turca.






Sem comentários: