21 novembro 2006

O dique da irracionalidade


Lembra hoje oportunamente o nosso caro Misantropo os 90 anos da morte desse modelo de estadista europeu que foi Francisco José. Se a Europa teve um aplacador de violência étnica, um duro crítico da doença nacionalista e do ódio socialista, um protector das minorias religiosas, linguísticas e culturais, um governante pacífico empenhado em evitar o abismo da guerra que destruiria irremediavelmente o velho continente, esse foi o Kaiser Franz Joseph, imperador da Áustria, rei da Hungria, rei da Boémia e chefe da casa imperial de Habsburgo.


Em vão tentou conciliar, equilibrar, distribuir e congraçar boas-vontades, mas o espírito do tempo não se compadecia com moderação, reformismo, cautela e bom senso. O império sobre o qual reinava era o eco glorioso da velha Europa, firmado sobre a autoridade paternal e solicita do velho monarca, fortemente marcado pelo influxo cristão, mas onde judeus, ortodoxos, protestantes e muçulmanos possuíam foros de liberdade garantida pelas leis. A belle époque de Franz Joseph é a da Viena, Praga e Budapeste cosmopolitas, cadinhos do bom gosto e do refinamento, mas também laboratórios das mais ousadas aventuras literárias, artísticas e filosóficas (Freud, Kafka, Otto Wagner, Hugo von Hofmannsthal, Arthur Schnitzler, Gustav Klimt).


Que pena que tudo isso se tenha perdido. Em troca, o Mitteleuropa recebeu o bolchevismo, o nazismo, a guerra, os pogroms, a devastação patrimonial, o tribalismo mais medonho; em suma, o recuo da civilização, da decência e da paz.

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