10 novembro 2006

Não há escolha religiosa: os desgraçados de Alcácer Quibir


Caravaggio. Conversão de S. Pedro




Aquilo foi um desastre irreparável. A nata da nobreza e a nata da juventude portuguesa tragadas numa aventura sem um pingo de interesse para o objectivo nacional permanente (a independência portuguesa), ao arrepio da estratégia nacional (evitar o hinterland africano, dominar as rotas marítimas, não envolvimento em guerras estranhas ao interesse português) e um pontapé nos mais básicos princípios da arte da guerra. Alcácer Quibir matou-nos, talvez não tanto por incapacidade de D. Sebastião - a quem o emissário papal chamava un vero pazzo - mas pela total incapacidade da elite portuguesa em evitar tal tragédia.




Encontrei no Cancioneiro chamado de D. Maria Henriques*, de D. Francisco da Costa (1533-1591), um auto revelador desse tempo de chumbo e sofrimento que foi o fim da dinastia de Aviz. D. Francisco da Costa era um diplomata, tendo ido a Marrocos negociar a libertação dos 8000 prisioneiros que ali penavam pelos erros dos seus [nossos] governantes. Se, como diz o povo com razão, "quem se trama é sempre o mexilhão", aqueles milhares de homens sem eira nem beira, que não tinham meios para o resgate, nem nome de família, nem brasão de armas, ali ficaram a apodrecer enquanto em Lisboa se preparava a nobreza para abrir as portas a Filipe de Habsburgo.




D. Francisco da Costa ali esteve, lutando com denodo pela libertação desses simples soldados, mas acabou, também ele, esquecido por Lisboa. Pensando tratar-se de um mentiroso, os mouros lançaram-no para os calabouços, aí tendo morrido após dez anos de cativeiro. Ora, mesmo no inferno das prisões, Francisco da Costa manteve o seu orgulho português e tentou, por todas as formas que o seu engenho permitia, manter vivo entre os seus colegas de infortúnio a esperança na libertação e a fortaleza de espírito. Algo de inaudito, porém, aconteceu. Um número impressionante de cativos - supostamente cristãos-novos - voltou às suas práticas ancestrais, abjurando o cristianismo e professando a lei mosaica. Outros, deixaram-se atrair pela pregação islâmica e aceitaram a lei de Mafoma. Para os admoestar, compôs Costa um auto elencando os erros dessas religiões, para tal mobilizando a excelente preparação teológica que possuia. É a luta de um homem forte contra as vacilações, as dúvidas e fraquezas daqueles que o cercam.




Este vão combate permite-nos algumas conclusões superficiais: os homens buscam a felicidade e a segurança, são permeáveis a tudo o que acontece à sua voltam, têm uma necessidade imperiosa de se afeiçoarem ao meio dominante. Se aos cativos lhes faltou o cristianismo, encontraram Deus no Judaísmo e no Islamismo. Outra conclusão é a de que a religião - ou não religião - é ditada por factores ambientais. Se nascidos em Cartago, renderíamos culto a Baal; se nascidos em Atenas, a Zeus e Apolo. Montesquieu disse-o perante o espanto e ira do seu tempo, ao aceitar o peso do determinismo geográfico na fixação das religiões. Pergunto-me se muitos católicos fervorosos, se nascidos no Afeganistão, no Irão ou no Paquistão, não seriam, eles também, candidatos a mártires de Alá.


COSTA, Francisco. Cancioneiro chamado de Dona Maria Henrique. Lisboa : Ag. Geral do Ultramar, 1956

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