17 novembro 2006

Nasceu há 100 anos o Filho do Céu



Passa este ano um século sobre o nascimento de Puyi, o último dos Qing a ocupar o trono do dragão. Aixinjueluo Puyi foi feito imperador, reduzido depois a prisioneiro na gaiola dourada da Cidade Proibida e dela expulso para viver em liberdade - já sem a trança manchú - como Mr. Henry nos paraísos artificiais das concessões ocidentais, entre tangos, fox trot, estúrdia e rocambolescas aventuras dignas de novelas de Phillips Oppenheim. Foi um estranho para os chineses, um enigma para os seus amigos ocidentais, uma esfinge para os manipuladores japoneses que dele fizeram títere de um Estado onde só reinava num palacete. Um homem frágil, de uma timidez que superava em acessos de violência doméstica.


Tudo o que dele sabemos é incerto: de Reginald Fleming Johnston (Twilight in the Forbidden City), a imagem de um esforçado e delicado adolescente em busca da mirífica libertação que Oxford poderia oferecer; do próprio, numa duvidosa "autobiografia" redigida por um letrado comunista durante a longa "reeducação", a de um homem simples "alienado" pelo poder absoluto que descobre a reconfortante paz anulando-se como jardineiro. Puyi talvez seja o epítome da tragédia chinesa do século XX, uma sucessão de infortúnios, desastres e lágrimas e um aceno final de felicidade, aquela aspiração que tanto marca a psicologia dos chineses. Passaram 100 anos, mas permanece o mistério. Poderia o Filho do Céu, o senhor do calendário, transformar-se num homem comum ?

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