05 novembro 2006

A mania da classe operária e dos trabalhadores

Domingo a arrumar as estantes. Centos de obras amarelecidas, datadas, sem outro préstimo que o de adubar o terreno para os ácaros, os pós e poeiras. Nunca deitei um livro ao lixo. Dou-os, mas a quem servirão se tudo o que ali está não é mais que um cemitério de mitos, banalidades que um tempo exaltou para depois executar sem apelo ?
Numa das prateleiras, uma fiada de lombadas comidas, traçadas, sujas e quase ilegíveis. Arrumei-as na companhia de obras políticas, sub-secção "Socialismo, Comunismo, Anarquismo". Folheio uma, duas, três e são iguais. Tratam do mundo novo, do homem novo, da revolução, da exploração capitalista, da desigualdade entre os homens, da injustiça e da alienação. Bakunine, Kropotkine, Marx, Engels, Lenine, Proudhon, mas também Droz, Ivanov e Victor Serge, Rosa Luxemburgo, Barmby, a falange de marxianos de cinco gerações, mais os extremistas do maoísmo e outras extravagâncias menos inteligentes repetem-se, citam-se e atraiem-se como borboletas mesmerizadas pela luz que julgaram encontrar no socialismo. Nada daquilo me diz coisa alguma. Estes homens escreveram, escreveram, escreveram, mas nada ficou.
Um dos mitos omipresentes em tal montanha de papel é o culto da "classe operária" e a mania dos "trabalhadores". Nunca tendo feito distinção de pessoas pela sua origem e condição - valorizo especialmente aqueles que se libertaram das modestas origens pelo trabalho, pelo esforço e pela inteligência - não compreendo, sinceramente, como foram capazes os comunistas e os socialistas (de direita como de esquerda) de cultuar com tanta paixão a condição operária e o proletariado. Uma hierarquia de cabeça para baixo, com o culto pelo trabalho manual, do óleo, do carvão e do suor, o quase comprazimento com os peitos ossudos comidos pela tuberculose, as mãos desfiguradas e mutiladas, a ignorância e o analfabetismo, as cirroses e os gostos brutais de gente que nasceu faminta, viveu na miséria e morreu precocemente na mesma condição.
Os "revolucionários" sempre apostrofaram os possidentes, os exploradores e os poderosos. É aqui que todas as considerações humanitárias, os impulsos generosos, o amor e a compaixão pelos desprotegidos, pelos brutalizados e pelos ofendidos se transforma. Os doutrinadores, os panfletátios, os tratadistas e os políticos eram, como homens, a negação dessa classe operária digna de comiseração e necessitada de ajuda. Eram burgueses, aristocratas e letrados que se dedicaram como profiteurs a um grupo social, como as senhoras caridosas e burguesas que falam dos "seus pobres", dos plantadores de algodão que cuidavam dos "seus negros" e dos visitadores de penitenciárias que exultam com os "seus presidiários". A moda dos pobres, dos escravos e dos presidiários passou. Agora, há muitos que enriquecem, ganham fama e prémios com os "seus famintos" do Sudão, da Etiópia, da Índia e do Bangladesh.
Perante a miséria dos homens, acenaram-lhes com o socialismo; ou seja, aceitaram de bom grado que todos deviam ser pobres. O resultado está à vista. Onde foi erradicada a propriedade, a iniciativa individual e a diferença que sempre foi e será um dado da humanidade, floresceram tiranias brutais e genocidas, regimes policiais de denúncia, privação, perseguição e racionamento, homens embotados, amedrontados, privados de iniciativa e inermes. A mania da classe operária e o mito dos trabalhadores transportava, afinal, um objectivo: matar as elites, destruir a classe média e todos os valores que lhes são inerentes para, no fim, destruir a lei e o direito e regredir a um estádio primitivo que não se via desde as sociedades da Antiguidade pré-clássica. Isto foi o socialismo, de esquerda como de direita: fazer crer aos operários, agora escravos do Estado e do Partido que eram livres.

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