20 novembro 2006

A guerra do Iraque, novo Vietname ?




As habituais Cassandras cultoras do "quanto pior melhor", ou seja, os aliados do terrorismo, tendem a interpretar a escalada de violência na Mesopotâmia como um "novo Vietname americano". Tal argumento, tão repetido quanto errado, não resiste à mínima análise. O governo no poder em Bagdade é o mais democrático - isto é, o mais representativo da maioria da população do país - desde a independência, em 1932.


Se a dinastia Hashemita, árabe genuína, mantivera a unidade artificial de um país multiétnico e fraccionado religiosamente, os governos que lhe sucederam a partir de 1958 - Abdul-Karim Qassim; Abdul Salam Arif,Abdul Rahman Arif, Ahmed Hassan al-Bakr e Saddam Hussein - provinham da minoria sunita, cuja expressão demográfica não ultrapassa os 20% da população.


A Autoridade Provisória, mandatada pela Coligação, procurou, com maior ou menor perícia, devolver o poder aos iraquianos. As escolhas não terão sido, como se viu, as mais certeiras, mas o objectivo era incontestavelmente inspirado por um princípio de proporcionalidade justa: dar os xiittas (65% da população) o maior relevo na governação de um país onde jamais tinham detido uma molécula de poder. Logo, o Iraque, o seu governo e instituições representativas é hoje, mau grado o terrorismo, a violência indiscriminada e a crise económica gritante, um dos mais democráticos países da região.


A guerra em curso não é movida nem contra norte-americanos, nem contra britânicos, italianos e outros aliados ocidentais. A guerra é desenvolvida com incansável espírito criminoso e genocida contra a maioria da população do país por uma estreita parcela de ex-privilegiados que durante quase cinco décadas foram usufrutuários quase exclusivos dos lucros e vantagens provenientes das exportações do ouro negro. Não obstante o carácter progressivo de algumas medidas de Saddam Hussein - cujo reflexo ninguém questiona - o poder manteve-se circunscrito a requisitos de filiação tribal e religiosa. Hoje, com a Constituição aprovada por 78% de votos expressos, uma Assembleia onde a Aliança Árabe Unida (Xiita) ocupa 42% (contra os 15% do partido Sunita mais relevante), pode-se afirmar estar reposta a proporcionalidade, condição para a aceitação de um governo representativo.


As perdas norte-americanas e restantes parceiros ocidentais não são relevantes no cômputo assustador dos actos de guerra, pois que não ultrapassam 4% do total de vítimas das incursões terroristas. A iraquização da guerra, ou seja, a passagem de testemunho das forças de ocupação para o governo do Iraque, comprova que a guerra que ali se trava é a de um governo maioritariamente sufragado contra uma minoria, logo, um típico caso de terrorismo. Só não vê quem não quer. Se o Iraque é independente, só o é verdadeiramente hoje. Tudo o mais mais é retórica, má-fé ou cegueira.

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