14 novembro 2006

Gauchismo sem topete


Grandes senhores, estes, que conheci de barbalhões e melenas, vestidos a rigor como as mais miseráveis figuras de Gogol, chancas cambadas, unhas encavalitadas e tresandando a bedum. Hoje reencontrei furtuitamente uma dessas potestades. Nos anos das barricadas, dos saneamentos justos, das reuniões gerais e dos abaixo-assinados destacava-se pelo militantismo sagrado e pela cólera exterminadora. Era, dizia-se, um "marxista-leninista", acreditava no sol da terra, na revolução mundial iminente e na Geena que tragaria todos os parasitas, exploradores, possidentes e demais sabujos do capitalismo. Mas tinha uma certa piada, a mesma que encontramos num desses doidos de Deus - anacoretas, dervixes e pregadores incendiários - que pululam nas franjas da sociedade burguesa.


Hoje lá estava, de fato, gravata listada, sapato afivelado e tresandando a colónia, unhas de manicure e botões de punho em madrepérola. Folheava, com sábia lentidão, as páginas de um ensaio. Cumprimentei-o e fez um breve aceno de cabeça. Lá fora, o servo condutor, de pé, pressuroso para abrir a porta ao Senhor. Desvendado o mistério. O grande senhor cansou-se do sol da terra quando o sol se apagou. Mudou de farpelas, arranjou um cartão de plataformista, lá esteve nos Estados Gerais e entrou por um corredor esconço na imensa fila de espera que faz do PS (ou do PSD) das mais certeiras agências de emprego. O gauchismo sem topete é bem mais nauseante que o gogoliano mundo dos mendigos românticos.

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