12 novembro 2006

Dos partidos e dos anti-partidos

As velhas leis de Michels do predomínio da máquina burocrática sobre as putativas originalidades dos militantes não tem grande valor entre nós, pois que para os partidos vão aqueles que nunca tiveram originalidade alguma. O mal de todo o sistema - da extrema-direita à extrema-esquerda - é que os partidos, a vida política e toda as canseiras jantareiras, listeiras e eleiçoeiras parecem só atrair betas. A vida interna dos partidos é de uma confrangedora mediocridade, supondo mal quem pense neles poder contribuir para a vida pública. Há, contudo, partidos que oferecem ordenados, sinecuras e expectativas para os medíocres, e partidos que nada podem acenar senão delirantes messianismos. Olhando para a história do país, de 1820 à actualidade, aqueles clubes não mais representam que fulanos em busca de notoriedade, mais fulanos agarrados aos fulanos em busca de notoriedade, numa cascata de ambições hierarquizadas que vão da chefia do governo à chefia da Junta de Freguesia.
Diz-se que os partidos exprimem famílias ideológicas, mundivisões, concepções distintas do homem, da sociedade e do Estado. Tudo isso parece verdade, mas abeirando-nos da sua despida evidência, são, sem tirar nem por, o retrato de uma sociedade onde nem as ideias, nem o conhecimento e a informação, tão pouco o mérito de cada um contam. Do Bloco de Esquerda ao PP, um árido, pedregoso e poeirento terreiro interdita ao mais ingénuo o atrevimento de pensar que ali há mais do que se vê. Os partidos portugueses são, sem qualquer surpresa, a continuação das panelinhas por outra via, pelo que são emanação genuína de um país onde não há cultura cívica, serviço do Estado, bem-comum nem reconhecimento do mérito. Na Inglaterra, os partidos nasceram da sociedade. Em Portugal, nasceram da falta da sociedade civil; o mesmo é dizer que os partidos cumprem exactamente aquilo que deles esperam os portugueses: favores, proteccionismo, insenções, nepotismo e manutenção de um status quo que ninguém que ver mudado.
Incapazes de um atrevimento, os nossos caros concidadãos vivem na esperança de um convite para ingressar na cascata, da chefia do governo à chefia da Junta de Freguesia. Se não entraram ou não conseguiram entrar na geringonça, pedem o tal "homem providencial ". O coração dos portugueses inclina-se sempre para os domadores, os feitores e os capatazes, pois neles revê uma história longa de irresponsabilidade individual - é tão bom não responder por nada - e alguém que carregue o fardo de governar um país cuja população nada consegue lobrigar para além da porta da casa, do emprego do filho e do terreno que tem lá para a terra. Ora, para o comum dos portugueses, o Estado são "eles", o PS são "aqueles", o PC "aquel'outros" e o PSD "aqueles que estiveram e querem voltar". Daí que para o taxista, a senhora da mercearia, o barbeiro, o empregadinho do escritório - incapazes de entrar na liça pelo tal lugar - a tirania do "homem providencial" exerça um tão grande fascínio. Com uma condição: o "homem providencial" não os pode obrigar a mudar. As ditaduras portuguesas têm, assim, essa extraordinária capacidade de serem tão imobilistas, tão conservantistas e tão populares como os sistemas liberais e democráticos.
Ainda se os partidos só servissem para colar cartazes, distribuir volantes, organizar jantares e caravanas, conquanto abrissem as suas listas àqueles que não têm vagar para jogos recreativos, um vislumbre de esperança ainda poderia trazer a inteligência para as bancadas parlamentares. Ouço Sócrates. Não sendo um génio, nem um grande homem, assume proporções agigantadas quando comparado com os restantes líderes partidários. Diz o que pensa, impõe-se, domestica e aponta o caminho: a porta para os que ousam contestar, a partilha da cascata para os demais que entraram a tempo na geringonça. Sócrates é o partido - "eles"- mas consegue também ser o anti-partido. Eu, que nunca fui do partido, dou comigo a reconhecer-lhe qualidades como anti-partido.
Mas eu queria uma democracia: responsabilidade individual, livre escolha, crítica e contestação propositiva, serviço do Estado, bem-comum, unidade em torno dos grandes desafios. É melhor não sonhar: aqui não a verei jamais !

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