10 novembro 2006

Dos militantes da religião


Dei comigo a pensar por que razão serão as pessoas mais frementes de sobrenatural aquelas cuja atitude revela maior desrespeito pelos outros. Disse-o aqui há tempos e repito-o: no curso da minha vida tenho encontrado os maiores facínoras, os mais refinados hipócritas, os mais elaborados sociopatas, as mais azedas e frustradas criaturas e os mais empedernidos quadrilheiros entre os doentes da santidade. A religião é, para tal gente, uma excelente tisana, uma tela impermeável que lhes garante irresponsabilidade psicológica pela repetida prática da crueldade.

De olhos revirados em ascese, maozinhas esfregando-se em delicadezas seráficas, uma voz de falsete, lá vão debitando sentenças. Alguma - corrijo, muita - da nossa direita faz o retrato perfeito destes santarrões. Houve um tempo em que esteve na moda a "democracia cristã", o tempo imediatamnente posterior ao dos cursilhos de cristandade, também esteio de favores e algum alpinismo social. Os democratas-cristãos, veio-se a ver, alimentaram o maior lodaçal de favoritismo, corrupção, venalidade e mafiosismo de que há registo na história europeia do pós-guerra. Vi ontem I Banchieri di Dio - Il Caso Calvi , de Giuseppe Ferrara, e lembrei-me de figuras, figurinhas e figurões que fui conhecendo naquelas anos remotos em que ainda acreditava serem as palavras o espelho da alma.

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