03 novembro 2006

Direita traidora e direita patriótica

Jacques, le rouge, o expoente da colaboração, ex-comunista




O tema é aliciante, pois desfaz equívocos há muito radicados numa certa mitologia resistencialista, abarbatada pelos próceres de Estaline. O tema é sumamente delicado para algumas famílias da direita, pois compromete-as com o inimigo invasor e transforma-as na negação prática de tudo o que dizia representar: a França e o patriotismo. O sempre oportuno Jansenista abre a ferida e fá-lo - perdoe-me a franqueza - com excessiva dureza, por vezes injusta, se bem que o problema que coloca seja pertinente e mereça reflexão e debate.


Houve ou não traição da direita francesa no período da ocupação ? Houve ou não uma rendição moral e consequente desautorização dessa direita ao colaborar com uma ideologia que era a negação do esteio ideológico, doutrinário e afectivo de tudo o que dizia representar ? É evidente que parte das direitas francesas - fascista, fascizante, monárquica, tradicionalista, anti-republicana, anti-liberal e anti-democrática - colaborou com os nazis. Porém, há que atentar na forma como essa colaboração - por vezes premeditada, por vezes acidental - se exprimiu. Em Junho de 1940, falar com os alemães até poderia surgir, aos olhos de muitos, como uma fatalidade, uma necessidade quase patriótica. Ou não era o marechal Pétain o herói de Verdun, o símbolo da resistência nacional contra o invasor alemão, a face da vitória de 1918 ? Fora ou não investido de plenos poderes pela Assembleia Nacional para negociar os termos da rendição com Hitler ? Recebera ou não investidura como chefe de Estado para manter a actividade corrente dos negócios do Estado na Zona Livre ?



Lendo Les Décombres, de Rebatet, apercebemo-nos da ruína pública, do descrédito e da desolação cívica em que caíra a França. Muitos intelectuais das direitas sentiram que a derrota fora provocada pela incúria da III República, daí reproduzindo interpretações mais ou menos exaltadas de velhas teorias conspirativas que se haviam instalado nas versões populares de um certo pensamento nacionalista. Em Drumont e Barrès - sobretudo no primeiro - encontramos a versão canalha da xenofobia, o mito do invasor meteco, o perigo judaico e outras fantasias que tiveram grande aceitação no decurso do Affaire Dreyfus. Maurras, por seu turno, deu ao tema uma certa respeitabilidade. Como autor fino e extremamente inteligente, enxertou-o com coerência na sua doutrina. Neste passo, Maurras foi bem mais nocivo que as versões canalhas, pois deu-lhes uma dignidade a que jamais aspirariam. Maurras tornou-se vítima desta escorregadela, pelo que o infausto fim do grande homem de cultura que era foi plenamente justificado. Quem negoceia com a canalhice, emporcalha-se !


Dizer que os maurrasianos foram indefectíveis seguidores e servidores do autoritário, católico e tradicionalista regime de Vichy dispensa quaisquer comentários. Contudo, os maurrasianos, salvo excepções muito conhecidas, não foram "colabos" na acepção que vulgarmente se utiliza. Os traidores foram outros, oriundos da direita socialista; ou seja, o ex-comunista Jacques Doriot e o ex-socialista Marcel Déat. Na resistência activa ou na resistência passiva à ocupação, os principais líderes ( Weygand, Juin, Giraud, Gamelin, de La Rocque, Jacques-Philippe Leclerc, de Gaulle, Henri Frenay , Paul Paillole, Georges Groussard) provinham do vasto espectro das direitas, tradicionalmente monárquicos, católicos militantes, colonialistas e imperialistas com a mística da França assimilacionista.
Os últimos anos têm assistido a um redobrado estudo sobre a realidade e os números da Resistência. Até o insuspeito Marc Ferro assinou há pouco uma sequela às suas Mentiras da História, apontando o dedo acusador da colaboração ao PCF (até 1941) e resgatando do opróbrio muitos homens de direita, esses sim, verdadeiros resistentes e patriotas.

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