22 novembro 2006

A arte de destruir obras de arte

Custa-me ser tão cáustico. "Pronto, lá está ele com as críticas demolidoras", dirão os sempiternos apaziguadores. Não têm razão. Sou consumidor e tenho o direito de ser bem tratado; sou consumidor e só peço que me sirvam o que prometeram. Acenar com uma obra soberba e servi-la como um enlatado fora do prazo é um atentado. A Civilização Editora está a seguir as pisadas da Europa-América, que deixou de figurar no meu cabaz de compras à força de tanto desprestigiar o nobre ofício da tradução.


No passado sábado adquiri A Guerra do Mundo, desse génio escocês que dá pelo nome de Niall Ferguson. O homem está a revolucionar a historiografia ocidental, desarticulando a arrumação conceptual, expondo todos os esqueletos do armário, atirando desapiedadamente sobre tudo o que parecia de pedra e cal nas práticas dos scholars. Está para a História de hoje como Braudel para os anos 50 e 60, como Fustel de Coulanges para meados do século XIX, ou como Edward Gibbon para os últimos decénios do século XVIII. É impressionante como se pode reunir tanta informação, tanto aparato erudito e tanta investigação a tamanha capacidade de relacionar, comparar, inferir e deduzir.


Mas sobre a mais bela obra pode cair a maior nódoa. A edição portuguesa está desfigurada por uma tradução que insulta o autor - diminuindo-lhe a grandeza e o talento - e revolta o leitor minimamente avisado. Um verdadeiro atentado. Há meses adquiri o Orientalista, de Tom Reiss, também da Civilização. O mesmo desalinho, a mesma precipitação. Traduções feitas com os pés por pessoas sem qualquer preparação. Pronto, desabafei. Não compro mais obras da editora enquanto não acertar a qualidade das escolhas e responsabilidade inerente em servi-las em bom estado para consumo. O faisão é uma excelente sugestão para um repasto. Contudo, não lembra a ninguém servi-lo podre !


Pacheco Pereira apresenta hoje a obra de Ferguson, na companhia do autor. O encontro terá lugar às 18.30 h na Bulhosa, a Entrecampos. Não vou nem nunca pediria o autógrafo para tal edição. Acresce que considero uma falta de respeito a Pacheco Pereira, que tanto admiro, e a Ferguson. Tenho dito.
Depois de muitos mails, instado a apontar exemplos desta safra de asneiras, aqui deixo à Civilização uma amostra para corrigenda:

Pág. XLIII: em vez de Cetniks, devia estar Chetniks usualmente usada para traduções portuguesas
Pág.XLVI: em vez de "Essay on the Inequality of Human Races", devia estar o título em francês ou Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas
Pág. LI: em vez de The Myth of the Twentieth Century, O Mito do Século XX ou, em alemão Der Mythus des Zwanszisgsten Jahrhundersts
Pág. LX: em vez de Meji, Meiji
Pág. 7: em vez de Gambia, Gâmbia
Pág.9: em vez de cidadão da Irlanda do Norte, apenas um irlandês (a Irlanda não era independente e não há cidadãos, mas súbditos da coroa britânica)
Pág. 22: em vez de "Essay on the Inequality of Human Races", devia estar o título em francês ou Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas
Pág. 22: em vez de The Jewish Question (...), Die Judenfrage als Racen-, Sitten- und Culturfrage mit einer weltgeschichtlichen , ou A Questão Judaica como Problema Rácico, Moral e Cultural
Pág.22: em vez de Anti-Semitic Cathechism, Antisemiten-Katechismus ou Catecismo Antisemita
Pág.23: : ** na nota da T., em vez de Indo-Alemães, Indo-Europeus
Pág. 25: em vez de pan-alemão, pangermanista
Pág. 26: em vez de Between the Ruins, Zwischen Ruinen ou Entre as Ruínas
Pág. 28: em vez de socialista-cristão, social-cristão
Pág. 29: em vez de Liga Pan-Alemã, Liga Pangermânica
Pág. 31: em vez de Cavaleiros Andantes Teutónicos, CavaleirosTeutónicos
Pág. 32: em vez de Silésia Superior, Alta Silésia
Pág. 33: " " " Anti-Semite's Mirror, Antisemit Beobachter, ou Observador Antisemita
Pág. 37: " " " imperatriz Dowager Cixi, imperatriz viúva Cixi
Pág. 37: em vez de Beijing, Pequim ou Peking ou Peiping
Pág. 40: em vez de Vladivostok, Vladivostoque
Pág 42.: em vez de Port Arthur, Porto Artur
Pág. 43: em vez de "A Shinto", o Shinto
Pág.43: em vez de "como os zaibatsu", conhecidos por zaibatsu
Pág. 45: em vez de "em Kwantung", no Kwantung
Pág. 53: em vez de The Book of the Kabal, O Livro da Cabala
Pág. 55: em vez de "trabalhadores diurnos", jornaleiros
Pág. 58: em vez de Courland, Curlândia
Pág. 61: " " " "passava no seu carro por cima", passava o seu carro por cima
Pág. 69: em vez de Irlanda do Norte". Não havia nem Irlanda do Norte nem Irlanda do Sul (vulgo Rep. da Irlanda/Eire). Havia, tão só, Irlanda
Pág. 70: em vez de Saxe-Coburgs, Saxe-Coburgos ( o erro repete-se pelas 5 páginas seguintes)
Pág. 71: em vez de Christian de (...), Cristiano de ou Christian von
Pág. 91: em vez de 1879, 1871
Pág. 94: em vez de primeiro-lorde do mar, Primeiro Lorde do Almirantado
Pág. 96: "O Sudoeste da África", escreva-se O Sudoeste-Africano
Pág. 101: em vez de "a moral elevada", o moral elevado (a confusão persiste ao longo de toda a obra)
Pág. 107: em vez de "os cabos das espingardas", as coronhas das espingardas
Pág. 113: em vez de "contínua barragem britânica", contínua barragem de artilharia britânica
Pág. 113: em vez de "A Guerra no Oriente", A Guerra no Leste
Pág. 120: em vez de casa-real, casa imperial
Pág. 120: em vez de hooligans, desordeiros
Pág. 126: em vez de 1929, 1919
Pág. 131: em vez de Azerbaijaneses, Azeris
Pág. 131: em vez de eslávicos, eslavos
Pág. 131: em vez de Quirguiz, Quirguizes
Pág. 136: " " " da Schleswig, do Schleswig
Pág. 147: em vez de "as ilhas Dodecanesas", as ilhas do Dodecaneso
Pág. 198: em vez de "do Falange Española", da Falange (...)
Pág. 204: em vez de "já incumpria", já não cumpria
Pág. 204: em vez de "conhecido por o Plano Young", conhecido por Plano Young
Pág. 206: em vez de Arno Beker, Arno Breker
Pág. 209: em vez de konfessionsloss, sem confição (ou nota da trad. com informação)
Pág. 117: em vez de judificação, judaização
Pág. 237: em vez de Muscovy, Moscóvia
Pág. 244: em vez de "enviar uma armada naval", enviar uma armada

Sem comentários: