02 novembro 2006

Aquele arzinho que me deprime



Forçado por uma daquelas necessidades administrativas e burocráticas que nos levam, de quando em vez, a revisitar velhas casas por onde passámos no curso da vida, com o casaco ensopado pela bátega e os sapatos molhados, entrei na Faculdade de Letras, lugar onde não ia há mais de quinze anos, quando por lá tive de suportar dois odiosos anos de especialização em Ciências Documentais.


Estivera lá antes para a licenciatura, mas esquecera-me do cheiro, da poeira, da desarrumação crónica e daquelas paredes eternamente sujas, pinchadas, coladas, recoladas. Varrera-se-me da memória aquele ar de eterno acampamento abarracado, muito terceiro mundo, dos cachos de alunos e alunas vestidos à portuguesa - todos de cores alegres: o castanho acizentado, o azul escuro, o verde acizentado, o negro claro, o branco enfarruscado - as olheiras, os tabacos, os falsos convívios naqueles bares onde o ajuntamento não tem outro efeito que o de tornar mais evidente a solidão. Reencontrei os velhos colegas, agora senhores professores. Velhos, calvos, gordas como Sísifos carregando tarefas sem sentido - aquelas barbichas à Lenine, aquelas vestimentas em que o desleixo parece ser nota de rendição - fiquei com um nó na alma.



Por esse mundo fora tenho conhecido universidades ajardinadas, aprumadas, luminosas. Até em países pobres as autoridades enchem-se de brio, mimam as universidades, adornam-nas e infudem-lhes grandeza; aquela grandeza que diz "aqui está a montra da nossa melhor juventude, do nosso saber, do nosso futuro". Aqui, não. As universidades são buracos sujos, remelentos, vazios e tristes.




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