01 outubro 2006

Viva o rococó, a paz, o luxo e o ócio


A tradição historiográfica de uma certa direita detesta Atenas de Péricles, a "decadente" Roma imperial, o Renascimento, Luís XV, a Belle Époque e os anos 50, preferindo-lhes a Esparta do mítico Licurgo, a Roma dos rudes patrícios republicanos, a Idade Média castelã, Luís XIV e as tempestades de aço de que Ernst Jünger foi entusiasta anotador. Esquecem-se que de Esparta não há monumentos, joalharia, literatura e Filosofia; que a Roma anterior ao principado era um tugúrio infecto e perigoso, a Idade Média idealizada pelo romantismo uma era que nunca aconteceu; que Luís XIV atirou a França para a penúria e que o nacionalismo belicista atirou a Europa para o colapso. Austeridade, rigor, atmosfera de caserna e disciplina esmaltam a ideia de uma sociedade inteiramente devotada às preces, à guerra e ao respeito pelas instituições. As ideologias políticas são redutoras, fabricam o passado e inscrevem-lhe preocupações hodiernas. Ora, se me fosse concedido o privilégio de poder revisitar o passado, escolheria sem pestanejar a França de Luís XV, entre a Regência e a Guerra dos Sete Anos: a delicada França de Boucher e Chardin, da Pompadour, dos salões, do agradável em vez do sublime, da elegância em vez do monumental, da beleza coquette, das lettres, das encadernações de luxo, da indústria cosmética, do fogo-de-artifício, da indústria da palavra e do teatro de Marivaux. Da paz decorre a prosperidade, do consumo o trabalho e a criatividade para os artífices, da abertura mental a diplomacia, a ciência e a especulação, da aceitação do mérito uma nova aristocracia. Essa França tão detestada por Maurras [e pela tradição jacobina] produziu homens de excepção e foi, momentaneamente, o farol do Ocidente. Não esquecer que em tal sociedade os privilégios do nascimento eram secundários e que em 1789 apenas 5% da nobreza não era oriunda da aristocracia do serviço do Rei. Depois, veio a turbamulta, a guerra, o ódio, as chacinas, a histeria ideológica de que a Europa jamais conseguiu sair.

Sem comentários: