31 outubro 2006

Três vectores trágicos



Os portugueses não conseguem viver em Portugal. Este sentimento tem sido uma permanente ao longo da atribulada história de um país que foi sempre rural sem jamais ter sido agrícola, marítimo mas privado de espírito comercial, potencialmente aberto mas dramaticamente fechado à novidade. A vida desta comunidade confunde-se com a vontade de fuga, tutelada e incentivada pelo Estado em momentos de expansão e colonização, habitual, quase fisiológica, em todo o tempo longo em que não havia necessidade de marinheiros, soldados e capitães. A história verdadeira de Portugal é a história de emigração.


Se os factores económicos são indiscutíveis neste movimento para fora e para longe - a fome devasta o carácter dos portugueses desde o século XIV, e até no zénite do império morria-se de fome em Lisboa - outros dois factores se lhe associam nesta hemorragia de braços jovens. Assim, se a bolota e as migas não davam para todos, também a política e a cultura parece tudo terem feito para drenar, expulsar e ostracizar os mais enérgicos, os mais resolutos e inteligentes. Emigração por motivos económicos, emigração política e emigração cultural realizaram a maravilha de privar esta sociedade de trabalhadores, dirigentes e educadores. Assim foi desde sempre: os melhores portugueses fugiram espavoridos de uma terra onde sempre medraram a privação, a repressão e o obscurantismo. Chamar-me-ão demasiado sergiano - que rima com simplificação - mas há que concordar não ser este um país que respeite quem quer prosperar, quem quer participar e quem quer inovar.


A emigração económica deixou-nos, desde o século XV, entregues ao poder de viúvas e padres. A emigração política - todas as repressões, sem excepção, da Inquisição ao pombalismo, do miguelismo ao liberalismo, do republicanismo ao estado-novismo, do prequismo ao falso europeísmo - embotou o espírito comunitário e cívico, permitindo que o poder fosse sempre inquestionado, sempre exclusivista e intolerante face à diferença. A emigração cultural - esta verdadeiramente alucinante - transformou os portugueses em conservantistas crónicos, avessos a todas as mudanças, empedernidos cegos ante o espectáculo do mundo que é feito de mudança. Aqui tudo chegou tarde, demasiado tarde, teimando em persistir quarenta e cinquenta anos após o passamento de doutinas, ideias e estéticas que haviam há muito feito escola no Ocidente.


Eu também quero sair, não o escondo a ninguém. O país doi-me profundamente. Não tendo ainda atingido aquela idade em que tudo está perdido, em que as portas se fecham uma após outra, procuro a alforria, a carta de chamada, a autorização dos Santos Ofícios para zarpar abarra afora. Dizem-me: "há que ficar". Mas ficar para fazer o quê ?

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