17 outubro 2006

Subsídio-dependentes: a comuna do Rivoli


O colectivo de "artistas" que levantou barricadas no Rivoli exigiu em comunicado o cumprimento destas três espantosas enormidades: que o Rivoli não será gerido em função da rentabilidade, que todas as companhias terão acesso ao espaço e que a nova gestão pugnará pela formação de públicos.

Ora, desde os velhos tempos de Eurípedes e Aristófanes, da Commedia dell'Arte veneziana, do isabelino Shakespeare aos mestres franceses do Grand Siècle - sem referir os Kabuki e Bunraku do país do Sol Nascente - que os teatros são geridos em função da rentabilidade. Quem diz teatros, diz o cinema, o circo, a dança, a música, o malabarismo e a actividade editorial sem distinção de correntes literárias e géneros. Shakespeare, Voltaire e Marivaux eram grandes dramaturgos e nunca lhes caíram os parentes na lama por se interessarem por honorários devidos à carpintaria, ao guarda-roupa, a cabeleireiros e maquilhadores, nem nunca deixaram de acompanhar o preço do sabão, das tintas, dos tecidos e contas da reparação da telha do tecto e da latrina. O teatro, como qualquer outra expressão artística, não se faz para uma abstração: faz-se para o público. Quando não há receitas de bilheteira, não pode haver teatro. Se são maus actores - um verdadeiro drama nacional, pois neste país o teatro foi coisa que nunca medrou - então procurem outra ocupação. Esta de viverem permanentemente de óbulos da caridade estatal tem um nome: eu chamo-lhe chupismo. Não havendo teatro sem aplauso, não pode haver companhias sem público. Sei que nas últimas décadas se cultivou - muito intelectual, muito bom gosto, muita presunção - a ideia que há peças e fitas que ninguém vê mas cuja qualidade é merecedora do proteccionismo. Dormi horas a fio em fitas de Manuel de Oliveira e queixei-me do incómodo da cadeira !
Revolta-me a arrogância de quem quer cultivar o público. O público é o que é. Há públicos cultos e públicos alvares, públicos em busca de gore e públicos mais rodados nas subtilezas do espírito, pelo que não é uma companhiazeca que vai mudar o [mau] gosto predominante.