08 outubro 2006

Queridos professores e detestados stôres

Olhei há tempos para os velhos cadernos da escola primária e lembrei-me da "senhora professora", Ana Cândida de sua graça, uma mulher que tinha inculcado, dos pés à cabeça, o dever de ensinar a ler, a escrever, a contar, subtrair, dividir e multiplicar. Ensinava de régua na mão, impunha um respeito quase divino - como divinas eram as suas iras e a célebre reprimenda "cantigas de tia Rita cantadas por tia Rosa" - mas era uma segunda mãe. Depois das aulas, recebia-nos em casa para estudar, das 3 às 5, entre o livro de leitura, os reis das quatro dinastias, as estações e apeadeiros da "metrópole", os distritos de Angola, Moçambique e Guiné Portuguesa, com um copo de leite achocolatado e uma fatia de bolo.
Depois, vim para a "metrópole", onde ainda encontrei muitos professores da velha guarda. Em 1974-75 estive na Francisco Arruda, esse modelo de escola de excelência para todos erigida por um pedagogo das melhores águas. Esse homem grande chamava-se Calvet de Magalhães e tinha a má-sorte de ser um "fascista", um "fascista" que ofereceu aos filhos do povo uma escola preparatória dotada de biblioteca, laboratórios, ginásio, teatro, aulas de música e refeitório. Parecia uma Suécia encravada na escalavrada Calçada da Tapada. O "fascista" foi tão massacrado pelos novos tempos saneadores que se matou na cozinha, abrindo a torneira do gás. Em 1975 inscrevi-me no Liceu Rainha D.ª Leonor e, novamente abençoado, encontrei meia dúzia de professores que me marcaram para toda a vida. Nos outros vi já os estigmas do desinteresse, do enfado e da fatalidade que se desenham na cara de qualquer burocrata. Eram os filhos de Veiga Simão, prenhes de agitação revolucionária. Os anos sucederam-se e o choque foi crescendo, até que, cobaia no primeiro 12º ano de escolaridade, fui dar com os pés num campo de concentração chamado "ES da Cidade Universitária", daquelas cubatas pré-construídas, ventosas e gélidas, cercadas de arame farpado, aqui e ali iluminadas por um poste que faria as delícias do Gulag. O meu caminho afastou-me desse universo, até que há seis ou sete anos, a convite de uma amiga docente numa C+S, entrei de novo numa dessas escolas-colmeias. Fiquei siderado com o aspecto dos stôres, derrancados numa sala, refilentos, barulhentos, discutindo o futebolinho da véspera, o cocó do menino, a cólica do marido. Era Abril. Assisti a uma aula de Português: crianças, já de buço, meninas estridentes atirando bilhetinhos, todas frementes de namoricos e feromonas, pouco ligavam à "stôra" que manipulava as "novas tecnologias" de entretenimento como quem mendiga um átomo de atenção. O tema, não podia deixar de ser, era o 25 de Abril. Saí dali com um peso no coração: pelas stôras, pelos meninos de buço e as meninas no zénite do cio, pelo país e pelo futuro. As coisas foram de mal a pior. Hoje, ninguém consegue disfarçar o falhanço clamoroso de todo o embuste. Queimou-se a dignidade do professor, queimou-se a escola, produziram duas gerações de imbecis e fecharam-se os horizontes do país. É isto que querem ?