04 outubro 2006

O Brasil de D. Pedro II e o Brasil de Lula


Em 1889, um pronunciamento de marechais derrubava a monarquia de D. Pedro II e com ela o derradeiro laço institucional com Portugal. Monarca constitucional, o imperador durante décadas procurou abolir a escravatura no Brasil, sem contudo poder contrariar os grandes interesses instalados que influiam directamente nas decisões do parlamento. Em finais da década de 80, mais de vinte anos após a guerra civil americana, a abolição era uma inevitabilidade contra a qual o país não poderia resistir. A princesa herdeira Isabel assinou a Lei Áurea, selando simultaneamente o destino da coroa. Os grandes proprietários e o oficialato - os futuros coronéis jagunçeiros tão bem retratados por Jorge Amado - colheram a sua vingança e proclamaram a república, escolhendo como presidente Deodoro da Fonseca, homem ligado aos sectores esclavagistas.
Homem de grande dimensão moral e intelectual, D. Pedro II partiu para a Europa tal como sempre viveu: de forma discreta e numa modéstia de meios que roçava a pobreza. Grande amigo de Portugal e das letras portuguesas - aqui registo as frequentes visitas que fez ao meu tetravô em S. Miguel de Seide - com ele terminou a natural comunicação familiar entre Portugal e o Brasil. Depois disso, com a republiqueta de 1910 e a república dos esclavagistas brasileiros, as duas nações separaram-se definitivamente. Nós, como eles, temos sido presidenciados por uma já longuíssima trupe de oportunistas, feirantes e nulidades, fardados ou desfardados, quase todos envolvidos em negócios mais ou menos turvos, num caudal inusitado de aventureiros de baixíssima extracção. Lá, como cá, a República foi implantada pela violência armada de uma minoria insignificante - os republicanos brasileiros só detinham três lugares na Câmara dos Deputados - cresceu em desmandos e acobertou os interesses mais escusos.
Não dedicámos qualquer atenção ao episódio Lula 2, ainda a decorrer no Brasil. Afinal, parece que nem tudo correu como se previa, porque a excelência não foi plebiscitada nem retornou ao palácio aos ombros do Quarto Estado. Parece que "o filho de operário e mãe analfabeta" - como ditirambicamente lhe chamava um escriba do nosso jornalismo de periferia - não conseguiu fazer passar a imagem de pai dos pobres e famintos. Os brasileiros parece que não gostaram do mensalão e caiu-lhes mal a arrogância presidencial da recusa em debater os problemas nacionais com os outros candidatos. Afinal, o que teria José Inácio para dizer ? O que leu ? Que preparação possui para dirigir a sexta nação do planeta ? É por esta e por outras que sou monárquico e defensor de uma democracia meritocrática.

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