02 outubro 2006

Livros malditos: no inferno das bibliotecas (4)


De revolutionibus orbium coelestium (imp. 1543) / As revoluções dos orbes celestes, de Copérnico, só conheceu tradução portuguesa em finais do século XX. Bem sei que o latim foi durante mil e setecentos anos a língua franca do saber, mas no caso vertente, deveu-se à teimosa rejeição da comunidade científica meridional em aceitar a derrocada do sistema geocêntrico ptolomaico, serventuário da física e astronomia aristotélicas. A polícia do espírito, confundindo hipótese científica, método científico e dogmática teológica, chegou mesmo a ordenar a Galileu (!) que refutasse Copérnico, sob pena de penalizações. Assim ficou no inferno do Index até 1835, já sobre ele tinham passado Kepler e Newton. Segredo de Polichinelo, pois até a reforma do Calendário Juliano, ordenado por Gregório XIII, só poderia ser executada mercê do reconhecimento do heliocentrismo. Ocorre-me Copérnico e a sua desdita quando, hoje mais que no passado, tantos leigos se pretendem imiscuir nos laboratórios onde se prepara um futuro decente para doenças degenerativas, malformações e outras desgraças a que nem a legião de todos os anjos e santos pode acudir.

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